Domingo, 3 de maio de 2026
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O presidente de transição do Gabão, general Brice Oligui Nguema, reuniu-se nesta terça-feira (05/09) com Albert Ondo Ossa, candidato da oposição das últimas eleições presidenciais do país, realizadas em 26 de agosto e que reelegeram pela terceira vez o agora deposto mandatário Ali Bongo Ondimba. 

“Hoje fui à casa do professor Albert Ondo Ossa, com quem pude conversar num ambiente amigável, num espírito de franqueza e construtividade”, declarou o novo ´presidente por meio das redes sociais. 

O representante da oposição também confirmou o encontro, declarando ao povo gabonês para que “acreditem num futuro melhor e resplandecente”. 

A reunião aconteceu após a posse de Nguema como presidente de transição na última segunda-feira (04/09), ocasião em que declarou que trabalharia com “pessoas experientes” e de “competência comprovada”, de acordo com o portal Gabon 24

Antes do apoio, críticas ao levante militar

Apesar da recente declaração apoio, o professor de economia da aliança gabonesa Alternance 2023 nas eleições de agosto concedeu uma entrevista ao jornal Al Jazeera publicada na última sexta-feira (01/09), em que criticava o levante militar no país e alegava sua vitória nas eleições. 

Na entrevista, Ossa caracterizava o movimento de transição como “uma decepção”. Além disso, falou em “dois golpes em um”, referindo-se à sua suposta vitória no pleito de 26 de agosto e posteriormente ao levante que derrubou Ondimba em 30 de agosto. 

“Ele não deu mais detalhes sobre a sua reivindicação, mas disse que os gaboneses votaram massivamente nele e que ele usaria meios constitucionais para contestar o resultado das eleições”, afirma o portal catari. De acordo com os resultados oficias, Ossa obteve cerca de 30% dos votos, e Ondimba, 64%.

Ossa declarou à Al Jazeera que havia imaginado a possibilidade do levante militar por “acompanhar a atividade política do país, ver como funcionam as instituições, a guarda presidencial a ascensão de Nguema”. 

O candidato da oposição também havia classificado o levante como um “assunto de família” e não um “golpe de Estado” uma vez que Nguema é primo de Bongo Ondimba, chegando a referir-se a ele como “pequeno Bongo”.

Apesar de recente manifestação de apoio, Albert Ondo Ossa, que perdeu eleição para presidente deposto por junta militar, havia criticado governo de transição

Twitter/Albert Ondo Ossa

Em entrevista a Al Jazeera na última semana, Ossa caracterizava o movimento de transição como "uma decepção"

“Ele é primo do Bongo, então como posso pensar que ele é diferente? Este jovem cresceu no Palácio [presidencial]. Eu o conhecia como parente de Bongo, como todos os gaboneses sabem”, disse Ossa à Al Jazeera. 

“Foi uma revolução palaciana, não um golpe de Estado. Este é um assunto de família, onde um irmão substitui outro”, finalizou ao declara-se empenhado para “garantir o regresso da ordem republicana”.

O que está acontecendo no Gabão?

Um grupo de 12 militares do Gabão informou em 30 de agosto a tomada do poder, dissolvendo as instituições do país (governo, Senado, Assembleia Nacional, Tribunal Constitucional e Conselho Eleitoral) e anulando o resultado das eleições de 26 de agosto que reelegeram pela terceira vez o então presidente Bongo Ondimba. 

O anúncio dos oficiais informava que Ondimba havia sido deposto de seu cargo, mas que continuaria com todos os direitos civis. Após a deposição, o ex-presidente gravou um vídeo clamando por ajuda internacional para solucionar a situação política no país.

Após a tomada de poder, os militares nomearam o General Brice Oligui Nguema como presidente de transição, que tomou posse na última segunda-feira (04/09)

Bongo estava no poder havia 14 anos, mas sua família governava o Gabão de forma ininterrupta desde 1967, sendo que obteve independência da França em 1960. A derrubada do presidente foi comemorada com festa nas ruas da capital Libreville.

O levante militar no Gabão fez com que o Conselho de Segurança e Paz da União Africana (UA) suspendesse o país “de todas as suas atividades, órgãos e instituições até a restauração da ordem constitucional”. 

Ainda não há declarações sobre possibilidade de intervenção militar estrangeira no Gabão. A UA solicitou “uma missão de alto nível”, em colaboração com a Comunidade Econômica dos Estados da África Central (CEEAC) para que a crise política seja solucionada. Nesse contexto, as fronteiras terrestres, marítimas e aéreas também já foram reabertas no país. 

Já a União Europeia manifestou sua preocupação com a situação em Libreville, classificando o levante militar no Gabão como um “golpe de Estado, que aumentará a instabilidade em toda a região”, reconhecendo a situação como “um grande problema pra Europa” que denuncia a necessidade de “melhorar suas relações” com os países da África. 

Outros levantes militares na África

O levante no Gabão não foi um movimento isolado. Mais recentemente, no final de julho, o Níger, na África Ocidental, também viveu uma situação semelhante.

Mali, Guiné, Sudão e Burkina Faso também encontram-se sob governos de transição militares, com eleições previstas para 2024 em alguns desses países.

Todos eles apresentam passados de colonização por países europeus e obtiveram suas independências após anos de exploração do imperialismo.