Ri melhor... quem ganha o prêmio
Como funciona um campeonato de risadas, modalidade que deseja ser reconhecida como esporte
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Além de contagiante, o riso pode ser o sinal de paz original e que conduziu à ascensão da civilização humana
Num domingo à noite em Toronto, Albert Nerenberg senta-se em uma cadeira cinza dobrável dentro do Great Hall, um edifício histórico na parte oeste da cidade. Faltam três horas para ele dar início ao primeiro campeonato de risadas competitivas do Canadá. Diante dele estão três “risadeiros” que irão se apresentar à noite. Atrás de Nerenberg há um pequeno palco negro, e uma tela de vídeo posicionada na parte de baixo, onde está escrito: “É a Noite da Risada no Canadá”.
Nerenberg está vestido com um blazer azul-marinho sobre um suéter preto, calças pretas e sapatos pretos brilhantes. O piso de madeira de lei range quando ele se dirige aos três competidores: “Lembrem-se, isto é um jogo; e a grande vantagem de jogar é que você ganha e perde. Você entra para ganhar – por isso, animem-se – , mas se vocês perderem sempre há o ano que vem.”
Talento
Nerenberg é um “risologista”. Ele é também cineasta e jornalista. Seu filme mais recente, um documentário de 2009 chamado Laughology (risologia), postula que o riso é o sinal de paz original e que conduziu à ascensão da civilização humana. Ele inventou o “laugercize” (“risercício”), uma série de exercícios indutores da risada baseados em sua contagiosidade, e promoveu o primeiro campeonato de risadas em Montreal, em 2011. O evento abriu caminho para novas competições no Japão, França, Áustria, Eslovênia, República Checa, Reino Unido, e outros lugares.
Uma hora antes de o espetáculo começar, um outro competidor, Ricky Donato, entra na sala e começa a examinar de longe o troféu. Hipnoterapeuta em Montreal, Donato está vestido com calças largas e uma camisa de vermelho brilhante, está de óculos e com o cavanhaque, e tem cabelo castanho escuro ondulado. Ele conheceu Nerenberg em um curso de hipnose em Montreal, um ano e meio atrás.
“Eu sempre tive uma risada sonora”, diz Donato. “Mas nunca soube que isso era um talento que eu poderia explorar. Fiquei impressionado vindo aqui ao ver o quanto o conceito é grande. Nós vamos rir a noite toda, sem uma piada. É um dos maiores conceitos de que ouvi falar.”
Jogos de risadas, embora pareçam incomuns, não são novidade. O povo inuit, do Canadá, faz isso há milhares de anos. A sua versão é chamada de “Iglagunerk” e consiste de duas pessoas que ficam olhando uma para a outra, seguram as mãos e – a partir de um sinal combinado antes– começam a rir. Aquele que tiver uma risada mais firme e duradoura é declarado o vencedor. Nerenberg diz que isso, e a observação de que os competidores de artes marciais com frequência riem antes de sua encarada fixa, formaram a gênese da risada competitiva.
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Campeonato de risadas: os competidores adotam diferentes estilos, linguagem corporal e habilidades vocais
Esporte
Por volta das 20 horas, os alto-falantes ladeando o palco são ligados. A tela do projetor mostra um vídeo de introdução com temática no estilo do UFC, com música de batidas repetidas e imagens em grande velocidade. Um dia antes da competição, os competidores se reuniram em um hotel do centro para pesagem e fotos.
“Nós estamos tentando demonstrar que a risada é um esporte”, explica Nerenberg para a multidão. “Como faremos isso? Bem, dar um soco na cara das pessoas é um esporte, cutucar as pessoas com varetas (um passatempo antigo nos EUA, de origem europeia) é um esporte… então, por que não ter um esporte sobre a busca da alegria humana?
A multidão, que lota a metade mais abaixo da sala e já está se sentindo à vontade com uma risada de aquecimento conduzida, explode depois disso. Eles continuam a vibrar, e os 10 competidores entram no palco ao som de “Thunderstruck”, do AC/DC. A primeira risada cerimonial é conduzida por um morador de Toronto, de 103 anos. Ele deixa o palco com uma frase: “Vamos ficar prontos para uma intensa alegria”
O primeiro desafio é um riso diabólico. Nerenberg demonstra a técnica para a plateia com uma hábil e malvada caracterização que lembra uma mistura de dr. Evil e o Drácula de Gary Oldman. Essa risada pode ser classificada em três fases: a risadinha inicial, seguida por uma elevação do tom e uma linguagem corporal mais expressiva, e finalmente um crescendo quase louco, concluído com batidas no chão, uivos e, em alguns casos, um impulso pélvico. As risadas variam de alguns segundos a mais de um minuto, mas se elas parecem muito longas ou falsas, um árbitro pode decidir encerrá-las.
Estilos
Na rodada de abertura, Donato brilha. Ele cai no palco e parece ser o primeiro “risadeiro” a realmente envolver e surpreender a plateia. Sua atuação é seguida por uma pessoa não inscrita, uma espectadora que se apresenta como voluntária para preencher o quadro, depois de um dos participantes ter desistido à última hora.
Ao longo da noite os competidores adotam diferentes estilos, alguns se empenham mais na linguagem corporal, outros em suas habilidades guturais e inatas. Alguns riem enquanto os colegas estão se apresentando, enquanto outros permanecem rígidos e impassíveis.
Nerenberg dirige-se à plateia entre as rodadas, explicando cada risada e o que devem esperar. Um dos desafios que mais agradaram é o Alabama Knee-Slapper, um riso que indica uma hilariedade tempestuosa e é enfatizado com um tapa com a mão espalmada em um dos joelhos. No começo da noite, Nerenberg instruiu alguns dos competidores a se certificarem de que iriam bater com firmeza em si mesmos. “A batida vai chocar vocês”, disse ele, “e fazer com que riam ainda mais.”
É nessa etapa que Gary Johnston, de Toronto, entra na disputa pelo título. Johnston se sobressai sobre os demais em campo. Em uma sala lotada de “risadeiros” notáveis, ele projeta o riso mais alto, com uma gargalhada estrondosa –a técnica perfeita para o Alabama Knee-Slapper.
O árbitro, que também participa de competições de risadas e recentemente ganhou o título de “risadeiro” mais sexy de Toronto em um pequeno evento regional, faz uma demonstração de qual será o desafio dos participantes. Começa suavemente e se torna mais animado, uma lenta expansão, como se esperaria, alcançando o clímax final. Apesar do forte desempenho de Johnston, é outra moradora de Toronto, Katie Solomon, uma morena baixa de cabelos ondulados, que vence a prova e ganha o título de a risada mais sexy do Canadá – uma honra pela qual ela receberá uma medalha de ouro mais tarde no evento.
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O “risologista” Albert Neremberg: “Por que não ter um esporte sobre a busca da alegria humana?”
Objetivo
Chegando ao fim, o número de competidores diminui para quatro, e inclui Donato. Ele tem pela frente seu maior obstáculo no Desafio do Duelo: a primeira “encarnação” do riso competitivo. Vem da ideia de que, quando duas pessoas se confrontam, elas riem ou então se tornam hostis. Geralmente, os competidores apontam um para o outro e riem animadamente. Nessa prova, Donato é suplantado e eliminado por decisão do juiz. Ele deixa o palco enquanto o pianista que está próximo toca “Let It Be”, dos Beatles. Ele observa o restante da competição dessa modalidade no isolamento de uma cadeira no balcão, com a cabeça nas mãos.
A rodada final se resume a Solomon e Johnston. Nessa altura, a competição está quase completando duas horas e cada “risadeiro” parece visivelmente exausto. O último desafio é a melhor risada natural. Não demora muito para que o riso enfático e profundo de Johnston domine a sala, abafando o de Solomon. O árbitro entra e levanta a mão dele, como vitorioso, enquanto a plateia vibra.
Depois da competição, Donato está tomando vinho em um copo de plástico em um bar nos fundos. “É realmente duro ficar lá toda a noite”, diz ele. “É duro para o estômago, e é um desafio também fisicamente.” Na frente da sala, Johnston agarra seu troféu, posa para fotos com espectadores, aparentando não acreditar em seu feito e no que acabou de acontecer. Enquanto isso, Nerenberg atravessa a multidão, sempre com um sorriso. “Acho que as pessoas que chegaram à final merecem, o que é um bom sinal”, diz ele. “E a plateia pareceu ter um momento fantástico… houve uma grande quantidade de risadas, o que é o objetivo. “Enquanto as pessoas saíam, muitas estavam sorrindo, e até um número maior estava rindo: alguns imitando o que tinham acabado de ouvir, outros pareciam genuinamente arrebatados.”
Tradução Maria Teresa de Souza
Texto originalmente publicado em Pacific Standard, revista impressa que combina artigos de pesquisa acadêmica e reportagens sobre educação, política e meio ambiente.
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