Quarta-feira, 1 de abril de 2026
APOIE
Menu


Hajlahore / Wikimedia Commons

Pesquisadoras no laboratório de farmácia da Universidade Hajvery, Lahore, cidade na província de Punjab, no leste do Paquistão

Na última década, o Paquistão viu um súbito aumento no número de pessoas com doutorado no país. Em 2002, as instituições de ensino superior paquistanesas aceleraram a marcha e o número total de doutorados concedidos naquele ano chegou a quase quatro mil, uma cifra significativamente alta, considerando o fato de que apenas 3.321 doutores se formaram ao longo dos primeiros 55 anos de existência do país.

A reforma da Comissão de Ensino Superior (HEC, na sigla em inglês), em 2002, conduzida pelo Dr. Atta-ur-Rahman, ex-ministro de Ciência e Tecnologia e ex-presidente da HEC, ajudou a desenvolver novas estratégias para as instituições educacionais paquistanesas. A HEC ofereceu novas bolsas, aprovou subsídios para pesquisa e convidou docentes de faculdades estrangeiras para orientar as pessoas candidatas a um doutorado. Isto aumentou muito o número de estudantes que obtiveram o título nos últimos dez anos, e espera-se que as instituições acadêmicas de todo o país concedam o grau com ainda mais frequência nos próximos três anos.

Leia mais: Educação superior, a chave do desenvolvimento dos emergentes

No entanto, com este incrível aumento no número de pessoas com doutorado (principalmente no âmbito das ciências exatas), surge uma questão importante: qual é o futuro delas no Paquistão? Será que conseguirão se beneficiar plenamente de sua formação em um país onde há tantas incertezas e instabilidade econômica?

De acordo com um estudo intitulado 'A Fábrica de PhDs', publicado na revista Nature – renomada publicação científica internacional –, essa é uma tendência global, e “o crescimento não apresenta sinais de que vá diminuir: a maioria dos países está investindo no ensino superior, já que acredita que profissionais educados é a chave para o crescimento econômico. Contudo, na maior parte do mundo, cientistas com doutorado talvez não consigam se beneficiar plenamente de suas qualificações”.

O estudo afirma ainda: “Em alguns países, incluindo os EUA e o Japão, pessoas que estudaram por muitos anos e investiram dinheiro para se tornarem pesquisadores enfrentam queda cada vez maior na disponibilidade de empregos na academia, e o setor industrial é incapaz de absorver o excedente. A oferta ultrapassou a demanda e, embora poucos doutores acabem desempregados, não está muito claro se passar anos em busca deste alto nível de qualificação vale a pena”.

Leia mais: Escolas particulares banem livro de Malala Yousafzai no Paquistão

O Paquistão estará também produzindo mais cientistas do que é capaz de absorver? Temos cargos acadêmicos e empregos na área de pesquisa suficientes para acomodar o fluxo crescente de cientistas? De acordo com a Dra. Mariam Sultana, professora da Universidade Urdu de Karachi e primeira mulher a exercer a profissão de astrofísica no país, o Paquistão pode ser um caso diferente, com o aumento no número de pessoas com doutorado ajudando a criar uma demanda por cientistas no setor industrial.

“Nós nunca vimos uma tendência similar a esta antes”, diz Sultana. “Hoje há muito mais cientistas, as pessoas podem se conscientizar sobre o que pessoas com doutorado podem lhes oferecer. Nós temos as habilidades de pesquisa para ajudar a produzir conhecimento e eu acho que estamos no processo de criar um mercado no qual doutoras e doutores serão necessários, ajudando não apenas as instituições acadêmicas, como também o setor industrial”.

Número total de doutorados concedidos no ano de 2002 foi maior do que nos primeiros 55 anos de existência do país

NULL

NULL


No que diz respeito aos cargos acadêmicos, o Dr. Anwar Nasim, geneticista molecular e secretário-geral da Academia de Ciências do Paquistão, em Islamabad, acredita que sempre haverá a necessidade de acadêmicos qualificados nas universidades. Atualmente, existem 150 instituições de ensino superior no Paquistão e, de acordo com Nasim, novas surgirão no futuro, o que significa que haverá uma constante demanda por professores qualificados. No entanto, ele acredita que, neste momento, é difícil determinar o futuro dos novos cientistas paquistaneses. “Temos cientistas com boa formação em todos os campos, incluindo biotecnologia, agricultura e ciências sociais”, diz Nasim. “Mas se não tivermos dados de mercado adequados, identificando quais partes do setor industrial precisa de pesquisadores e cientistas, conceder cegamente cada vez mais doutorados é, em larga escala, inútil”.

Em vez disso, Nasim sugere que o Paquistão crie incentivos para a especialização em outras áreas que também apresentam demanda, especialmente no campo de tecnologia.

Hajlahore / Wikimedia Commons

Estudantes da Faculdade Rachna de Engenharia e Tecnologia, em Gujranwala, cidade na província de Punjab

Na Índia faltam pessoas com doutorado, e o país quer chegar a conceder vinte mil títulos por ano até 2020, a fim de acompanhar o ritmo de sua crescente economia. Atualmente, o país produz cerca de 8.900 doutoras e doutores por ano. Mas os incentivos para se candidatar a um longo programa de doutorado parece estar perdendo seu apelo. Em vez disso, estudantes buscam empregos mais bem pagos no setor industrial e, para isso, o grau de mestrado ou até mesmo um simples bacharelado são suficientes.

A Alemanha, por outro lado, país que mais produz doutores e doutoras na Europa, gerou cerca de sete mil doutorados em ciências exatas em 2005. A fim de lidar com o problema do excesso de oferta, o doutorado na Alemanha hoje é apresentado como “treinamento avançado”, oferecido não apenas para acadêmicos, como para a força de trabalho de uma maneira geral. A solução parece estar funcionando.

O problema no Paquistão, no entanto, não parece ser o mercado de trabalho incerto e o excesso de cientistas. De acordo com o Dr. Nasim e a Dra. Sultana, para que o Paquistão se beneficie das doutoras e doutores gerados, é preciso estabelecer uma ligação entre o setor industrial, o governo e as instituições de ensino superior.

Leia mais: Banco Mundial diz que Cuba tem o melhor sistema educativo da América Latina e do Caribe

“Precisamos de uma política integrada, que identifique quais áreas do mercado precisam de mais pesquisadores”, diz Nasim. Isto só poderá acontecer se houver apoio por parte do governo e do setor industrial. O sentimento é compartilhado pelo Dr. Syed Mohammad Hasnain – alergologista e presidente do Comitê Especial sobre Aeroalérgenos na Organização Mundial para a Alergia.

“Empresas privadas, como as de farmacêuticos, que lucram bilhões de rúpias com cada um de seus produtos, também precisam desempenhar um papel significativo, fornecendo empregos e fundos para os programas de doutorado”, observa Hasnain.

O Conselho Paquistanês de Pesquisa Científica e Industrial é uma plataforma que une governo, indústria e instituições de ensino superior, dispondo para isso de pesquisadores altamente qualificados. Um de seus objetivos é “conduzir trabalhos de pesquisa e desenvolvimento sobre problemas enfrentados pelo setor industrial”. Outras agências que requerem pesquisadores altamente qualificados incluem o Instituto Nacional de Botânica Agricultural, a Academia Paquistanesa de Ciências e o Complexo de Energia Nuclear de Karachi.

Em 2012, o Diretor Executivo da HEC, Dr. Sohail Naqvi, estava bastante otimista quanto ao alto número de doutoras e doutores formados no Paquistão. Ele afirmou que “estes pesquisadores, que já trabalharam em problemas de importância crucial para o Paquistão, desempenharão um papel de liderança na produção de conhecimento, com o potencial para levar o Paquistão a se tornar uma nação desenvolvida”.

O número crescente de pessoas com doutorado é um importante passo adiante para o Paquistão, mas a questão de se o país será capaz de absorvê-los em sua força de trabalho e utilizar seu potencial ainda está por ser decidida.

 

Tradução: Henrique Mendes

Matérial original publicada no site da Newsline, revista paquistanesa que cobre questões de comportamento, cultura e política no Paquistão.