Sábado, 28 de março de 2026
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O vídeo abaixo mostra a consagração da palavra “confusão” nas chamadas para os filmes da Sessão da Tarde, na Globo. A falta de imaginação do redator acaba nos fazendo rir. O problema maior é quando o jornalismo brasileiro revive o clichê para atenuar um confronto político – ou simplesmente agressões praticadas por policiais militares.

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Notícia do G1, na noite de terça-feira (01): “Protesto de estudantes em São Paulo termina em confusão“.

Título no UOL, também na noite de ontem: “Após confusão, quatro são detidos em protesto contra reorganização“.

E o que dizer desta chamada na Folha de S. Paulo, nesta quarta de manhã? “Alunos e PM entram em confusão em protesto na avenida Doutor Arnaldo“. Sim, vocês leram direito. Alunos e PM “entram em confusão”. (Tinha uma confusão por ali, os PMs e alunos estavam passando, olharam uns para os outros e disseram: “Vamos entrar nessa confusão?”)

Captura de tela

Ou seja, perde-se o bom senso e até o compromisso com a gramática para se colocar panos quentes numa sequência de agressões policiais a estudantes secundaristas. Estes protestam contra o fechamento (a tal “reorganização”) de 93 escolas em todo o estado de São Paulo. Como se tratasse de uma desavença entre iguais. Ou uma briga na saída da escola.

Lógica de guerra e violência é atenuada por certos títulos e textos; seria um jornalismo impreciso, se não fosse um jornalismo com compromissos políticos; estudantes protestam contra fechamento de 93 escolas em todo o estado

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PMs prenderam dois alunos menores de idade que protestavam na Avenida Doutor Arnaldo, no centro de São Paulo| Imagem: Reprodução Facebook

Quando se trata de uma investida policial (uma investida política) crescente nos últimos dias, logo após o coletivo Jornalistas Livres vazar uma conversa entre burocratas da Secretaria de Educação que falavam em “guerra” contra os estudantes. Em meio a uma curiosa decisão do governador Geraldo Alckmin de não voltar atrás em uma trapalhada eleitoral histórica.

Os ordenadores de confusão

Um dos problemas cruciais do jornalismo brasileiro é o empedernido compromisso partidário, nas páginas de política, conjugado com a profunda despolitização nas páginas que o jornal não considera de política — e encaixota em cadernos com o nome de “Cotidiano”, “Metrópole”, “Geral”. Sabemos que despolitizados também fazem política — ainda que esta tenha sido definida antes, por outros seres pensantes.

Não que os jornalões sejam apenas simpáticos à perpetuação do PSDB no governo paulista. Até são. Antes disso, têm o compromisso de perpetuar determinada noção de “ordem”, em nome da qual deveríamos aceitar todo tipo de ação policial – mesmo que ao arrepio de diversas leis. Como se tivessem um comentarista de arbitragem – ou de polícia – sempre pronto a defender o juiz. “Pode isso, Arnaldo?” E ele responde: “Pode. Foi apenas uma confusão”.

Texto publicado originalmente pelo site Outras Palavras