Quarta-feira, 1 de abril de 2026
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James Emery

Estudantes do ensino médio da escola Mar Elias, em I'billin, vila árabe no norte de Israel; a gramática árabe é considerada “a cova das notas” pelos alunos  

“A terra, assim como a língua, é herdada”, disse certa vez Mahmoud Darwish, poeta e escritor palestino. Nos territórios ocupados, contudo, a língua é pilhada, tomada, violada e cercada por arame farpado, da mesma maneira que a terra.

O ministério da Educação de Israel recentemente deu mais um golpe nos palestinos vivendo na Palestina ocupada. O ministério anunciou a decisão de suspender o ensino de gramática árabe no ginásio e no ensino médio. A alternativa oferecida pelo ministério são os chamados “princípios funcionais no ensino de gramática”, que, segundo o órgão, vão permitir que os estudantes entendam as funções da gramática com base na interpretação de textos.

A decisão causou preocupação generalizada e apelos para que seja rejeitada. No entanto, o ministério manteve sua posição e emitiu um comunicado explicando a medida e argumentando que o objetivo é “aproximar a língua e seus falantes na era da tecnologia e da explosão da informação”.

Palestinos de vários segmentos, incluindo professores e pais, expressaram sua insatisfação com a decisão, definindo-a como “uma tentativa disfarçada de separar os estudantes de sua língua e, portanto, de seu pertencimento à comunidade e de sua causa”. Eles pediram a realização dos maiores protestos possíveis para forçar o ministério a repelir a medida, que já foi aprovada pelas autoridades.

A decisão foi tomada justamente quando estudantes e universitários da Palestina ocupada enfrentam uma clara dificuldade em gramática e conjugação de verbos. De acordo com especialistas, a deficiência é maior nessa região do que na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Enfrentá-la requer o reforço da gramática no currículo para ajudar os estudantes, em lugar da remoção e substituição sob o pretexto de “avanço e lacuna tecnológica”. Vários especialistas disseram ao Al-Akhbar que a “lacuna tecnológica” alegada por Israel não será resolvida com o cancelamento do currículo, mas com sua modernização.

“Nesse contexto, precisamos procurar meios de fortalecer os laços dos estudantes com a língua e suas regras”, explicou Murad Ali, professor de árabe em Acre. “Os estudantes já enfrentam dificuldades em gramática, embora seja parte do ensino curricular. O que acontecerá quando for suprimida?” Dentro de poucos anos, alunos do ensino médio nos territórios de 1948 serão incapazes de formular adequadamente uma sentença.

Autoridades propõem ensino de "princípios funcionais" do idioma; árabes israelenses veem "tentativa disfarçada de separar os estudantes de sua língua e de sua causa"

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Pichação em hebraico e árabe: “Somente quem entende hebraico/árabe pode me entender”

 

Essa previsão, porém, tem sido uma realidade há anos. Sua evidência se baseia no fato de que muitos universitários não têm o domínio mais básico do árabe e cometem vários erros, o que é inadequado em seu nível educacional.

Ibrahim Shehade, um diretor de escola aposentado em Acre, disse que os estudantes receberam bem a decisão do ministério. “Para eles, a gramática árabe é uma das matérias mais difíceis do currículo do idioma. Mas eles não compreendem os riscos futuros”, explicou. “As notas nas matérias de literatura e expressão são comparativamente altas, se comparadas com as de gramática. Alguns alunos acreditam que com a retirada da gramática eles vão melhorar sua média na grade curricular.”

Samer Khoury, de Shefa ‘Amr, concordou, dizendo que “a gramática é a cova das notas” e explicando que tirou nota baixa em árabe por causa da gramática.

Ainda assim, os estudantes não estão completamente confortáveis com a decisão. Alguns acreditam que o alvo é a língua e os laços comuns. Apesar da dificuldade de aprender gramática e conjugação, eles estão interessados em encontrar alternativas para melhorar sua proficiência, “sem que toquem em nosso idioma”.

No Knesset (parlamento israelense) políticos árabes e parlamentares ainda não levantaram a questão por causa do peso de outros temas. No entanto, o parlamentar Mohammed Baraka, membro da Frente Democrática e Partido Comunista, no Knesset, falou à imprensa sobre a decisão. Depois de mencionar as questões da terra, habitação e saúde, ele disse que enfocará mais a questão da gramática.

Uma posição mais direta foi adotada por Masoud Ghanayem, membro do Knesset pela Lista Árabe Unida, que pediu uma audiência sobre o tema. Ele recebeu uma resposta do ministro da Educação afirmando que “a decisão não significa o abandono do ensino da gramática árabe, mas sua valorização”.

“O novo currículo foi criado por supervisores e acadêmicos árabes, em cooperação com a Academia da Língua Árabe em Haifa”, acrescentou o ministro. Seu comunicado jogou luz em uma questão sensível. A maioria dos professores que falou com o Al-Akhbar garantiu que isso é falso. A maioria se recusou a dar seu nome, “por medo de supervisores e altas autoridades”.

A objeção acadêmica mais ousada foi apresentada por Mohammed Khalil, conhecido acadêmico palestino e um dos primeiros a alertar sobre a decisão do ministério. “A questão tem o objetivo claro de fazer com que as escolas dispensem por completo livros de gramática árabe, impondo um currículo em que a gramática seja ensinada espontaneamente”, exclamou.

Khalil não ficou surpreso com a “injusta decisão das autoridades (israelenses)”. No entanto, ele ficou desanimado com “a presença de palestinos árabes no comitê, que concordaram com o novo currículo”. Vários professores que falaram ao Al-Akhbar também mencionaram a questão.

No final, a decisão não se limitará às escolas, já que surge em meio a uma campanha israelense para substituir nomes históricos palestinos por outros em hebraico. Em oposição, palestinos estão se manifestando ativamente para promover os nomes árabes e preservá-los.

“Qual será o impacto dessa medida, se nossos filhos e filhas ignorarem os princípios de sua língua e sua estrutura?”, perguntou Mawan Barieh, universitário que estuda a língua árabe. “Minar um pilar fundamental de qualquer língua conduzirá a seu total colapso. Isso se aplica à gramática e a sua relação com a língua árabe em geral.” Apesar das reações iradas à decisão, a língua está sendo pilhada do mesmo modo que a terra palestina.

 

N.E.: Os palestinos aos quais o autor se refere no texto são os árabes israelenses, palestinos que vivem no território de Israel e têm cidadania israelense.

Tradução: Maria Teresa de Souza

Matéria original publicada no site Al Akhbar, publicação libanesa com foco em notícias e análises sobre países do Oriente Médio.