Sábado, 28 de março de 2026
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“Kod bogataša na glas, kod siromaha na čast” é um velho ditado da região dos Bálcãs que as pessoas mais velhas repetem quando acontece uma tragédia. Se você está precisando de alguma coisa, vale dizer, é melhor que você bata na porta de alguém que também não esteja muito bem. A crise dos refugiados no corredor dos Bálcãs, a rota para a Alemanha que marca a Grécia, a Macedônia e a Sérvia, virou um manifesto. Enquanto os políticos passaram os meses olhando para outro lado ou adiando o acordo sobre a divisão dos refugiados, foram muitos os cidadãos destas repúblicas que individualmente se preocuparam com os sírios, os afegãos, os iraquianos ou os líbios que atravessaram seus países.

Fotos: Ivana Todorovič/Jot Down

Parque da estação central de Belgrado: refugiado mostra as fotos de sua precária travessia por mar entre Turquia e Grécia

Porque a crise começou antes deste verão no hemisfério norte, quando o problema passou definitivamente para a primeira página dos meios de comunicação do mundo todo. Desde setembro do ano passado, a imprensa da região já publicava a chegada dos refugiados. No dia 2, o jornal sérvio B92 relatava em uma reportagem por que rotas seguiam os sírios para chegar à Europa desde a Turquia, atravessando os Bálcãs e quanto custava – de € 3.500 a € 4.000. Depois, surgiram notícias de que na Sérvia havia crianças sozinhas que estavam atravessando, a maioria afegãs. E, já em abril, a notícia de 14 refugiados que morreram atropelados na Macedônia por um trem quando caminhavam pela via soou como um alarme antes que explodisse definitivamente a crise em agosto, quando chegaram a entrar três mil pessoas por dia no país.

Maša Mišić, ativista em Belgrado, passou todo este verão nas proximidades da estação dando assistência aos refugiados desde que leu as primeiras notícias e viu com seus próprios olhos como estavam enchendo as ruas de sua cidade e se instalando nos parques. Sacrificou suas férias e organizou um grupo de ajuda em torno de algumas ONGs locais; não lhe faltaram colaboradores, porém o que mais se lembra foi a ajuda desinteressada que receberam de antigos refugiados das guerras de desintegração dos anos noventa: “Veio gente de todos os cantos da antiga Iugoslávia para trazer alimentos e qualquer coisa que pudesse ser útil; lembro de uma mulher que foi refugiada na guerra da Croácia chegar com utensílios de higiene feminina. Ela nos disse: ‘Acredite, eu sei do que uma mulher realmente precisa nestas circunstâncias’.”

Não houve exceções. Balkan Insight informou o caso de Vanja Crnojević, que deixou a Bósnia com doze anos durante a guerra para ir morar na Suíça. Agora, ao assistir pela televisão os motins na Macedônia contra os refugiados, pegou o primeiro avião e foi para o sul da Sérvia, em Preševo,  uma região habitada na sua maioria por albaneses, para construir abrigos para as famílias que atravessavam a fronteira. Inclusive muitos voluntários na Sérvia da Cruz Vermelha também foram refugiados de guerra.

A lembrança daqueles dias esteve presente em cada notícia relacionada com esta crise. Nas redes sociais, algumas fotografias de Jelena Milić  tornaram-se virais, e ela ficou famosa. Esta mulher e seu marido hospedaram em sua casa uma família síria. Utilizaram o Facebook para poder mostrar para seus familiares que estavam bem e rapidamente as pessoas começaram a compartilhar as fotos. Indagada pela agência France Presse sobre o motivo pelo qual abriu sua casa, ela respondeu que era a mesma coisa que tiveram de fazer nos anos noventa durante as guerras, quando a Sérvia recebeu 600 mil refugiados. “Aqui há poucas pessoas que não saibam o que supõe ser um refugiado, que não tenha acontecido com nenhum familiar, vizinho ou amigo. E quanto à diáspora, a maioria dos nossos que cresceram na Alemanha ou na Suíça é precisamente porque foram refugiados”, esclarece Maša.


Posto de coleta de roupas doadas em Savamala, Belgrado

Doações

Durante agosto, cerca de cem pessoas passaram diariamente a doar alguma coisa ao pequeno centro de assistência a refugiados que estes voluntários montaram próximo da estação de Belgrado. A única coisa que não aceitaram foi dinheiro. Maša explica que ainda hoje é preciso vencer certas suspeitas da população após a invasão de ONGs pela qual a região passou durante as guerras: “Aqui ainda existe um preconceito de que as ONGs enriquecem com as doações, por isso não podemos aceitar dinheiro vivo. Aos que trazem dinheiro, pedimos que vão ao supermercado com uma lista.”

Enquanto falamos com Maša, um carro se aproxima. É Lejla, que veio dirigindo desde Tuzla, Bósnia-Herzegovina, a cerca de 200 quilômetros. Colocou um aviso no Facebook dizendo que queria reunir toda a ajuda possível para os refugiados e que iria para Belgrado. Até o final de setembro, fez a viagem cinco vezes com o carro abarrotado. Depois continuou viajando, porém para a Croácia, nas proximidades de Vukovar, por onde estavam atravessando os refugiados quando a Hungria fechou sua fronteira. Chega muita ajuda da vizinha Bósnia. De Sarajevo há alguns dias chegaram até quatro furgões.

“Por que você faz isso Lejla?”, perguntamos. “Porque quando vi na televisão que estavam chegando refugiados a Belgrado, dormindo nas ruas e nos parques nessas condições, entendi que eu não tinha outra opção, que tinha de fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para ajudá-los.” Acaba a frase e fica olhando-os fixamente sorrindo. Perguntamos a ela qual sua opinião sobre colocarem uma vala na Hungria e  da União Europeia. “Nada, não opino nada sobre isso, prefiro viver no meu pequeno mundo.”

Nas proximidades da estação, nós nos encontramos com Firas. Nasceu em Bijelo Polje, em Montenegro, porém seu pai é sírio, um médico que se profissionalizou na Iugoslávia durante o que não poucos sérvios chamam de the good old times, a época em que a federação liderava os países não alinhados. Firas também está estudando medicina em Belgrado. Tanto a guerra quanto a chegada dos refugiados o pegaram de surpresa. Seus pais ficaram presos em Alepo, fala com eles por telefone quando é possível. Além da compreensível preocupação, sente angústia porque seu pai aparece em uma das listas, dos mais procurados para ser sequestrado. Ele mesmo já pôde vê-lo em uma das páginas do Facebook.


No posto de ajuda de Savamala, em Belgrado, os refugiados podiam comer, receber assistência médica e carregar os telefones celulares

Sua contribuição como tradutor de sírio com conhecimentos de medicina tem sido inestimável. Já passou por situações simples de resolver e de explicar, como fungos nos pés após intermináveis caminhadas, bebês desnutridos, piolhos por dormir na intempérie, mas também já houve casos realmente graves. Maša toma a palavra e relata o caso de uma família na qual todos os membros tinham uma doença rara, um mal congênito pelo qual precisavam de uma transfusão de sangue semanal. “No hospital, eles não podiam receber atendimento porque não estavam registrados, um trâmite que todos os refugiados se negam a fazer por medo, porém no final o pessoal fez vista grossa … e não foi a única vez.”

Junto a nós, no parque, Firas se encontra com uma família que ela leva nas costas uma criança incapacitada de sete anos, que não consegue ingerir por si mesma alimentos sólidos. Todos são levados ao posto onde Maša compartilha alimentos e roupa. Lá a organização de Vlade e Ana Divac montou uma barraca com médicos.

A menina recebe atendimento enquanto a família pega comida antes de sair para a Croácia. Chegaram há menos de 15 minutos a Belgrado. Não seguem nenhum planejamento. Entre eles ouve-se que já não é possível atravessar pela Hungria e que todos precisam ir para a Croácia e vão direto, sem pensar, sem checar a informação e sem tempo a perder. Acontece o mesmo com a Alemanha, todos pensam que lá eles conseguirão refúgio e trabalho.

Enquanto políticos passaram meses olhando para outro lado, foram muitos os cidadãos destas repúblicas que individualmente se preocuparam com os sírios, os afegãos, os iraquianos ou os líbios que atravessaram seus países

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No entanto, o que eles têm em mente não é prosperar, porém dar um futuro a seus filhos. O pai dessas crianças tem vinte e cinco anos. Estudava economia e por conta da guerra teve de abandonar a universidade e não acredita que jamais possa retomar os estudos. Seu único plano é que seus filhos possam crescer em algum lugar com um mínimo de futuro. “Nós já perdemos tudo”, diz. Muitos também tiveram de fugir para não serem recrutados para a guerra. “Apenas queremos ir para um lugar de paz onde você saiba que depois de sair de casa possa voltar vivo.”

Comunidade internacional

O que a comunidade internacional deve fazer pela Síria?, perguntamos. “É difícil que possa fazer nada, ainda que o presidente vá embora amanhã e chegue a paz, a Síria precisará de 50 anos para voltar a ser o que era.” Esta família abandonou sua casa pela pressão do exército de oposição a Bashar al-Assad, porém eles não tomam partido: “Não entendemos isso, e acredito que tampouco os políticos, o que há agora na Síria é o caos”.


Firas, médico sírio que faz as vezes de tradutor dos refugiados nos serviços sanitários locais

Com esta família, viaja Milad, que não tem inconveniente em dar seu nome. É das proximidades de Quamishli. O Estado Islâmico destruiu sua casa, uma a uma vai pelos ares. Mostra-nos as fotos no seu celular. “Olhem! Olhem! Como vou ficar morando aqui?” Todas as histórias são semelhantes. O que deixam para trás é o inferno, sem paliativos. Execuções, bairros inteiros povoados por civis utilizados como escudos humanos, casas, escolas e hospitais destruídos. Lá não resta nenhuma esperança.

Quando saíram da Síria, atravessaram a Turquia até a fronteira grega. Tentaram passar atravessando o rio Martisa, que separa ambos os países, porém a polícia grega os deteve e os devolveu em várias ocasiões. Estiveram morando no bosque, ao relento, até que a polícia turca os levou para Istambul. La tomaram a decisão de que a única forma possível para passar para a Europa era pelo mar: “Conseguimos o contato de um mafioso que nos ia facilitar a barca e o lugar por onde passar. Ao chegar lá vimos que o barco tinha oito metros e éramos cinquenta e seis pessoas e nos disseram: ou vocês sobem na lancha ou matamos vocês no bosque”. Tiraram deles toda a documentação e ainda por cima os quinze mil euros que eles levavam consigo.

Um refugiado interrompe de repente a conversa: “Comigo aconteceu a mesma coisa, colocaram armas nas nossas cabeças para que subíssemos na embarcação. Um dos que estavam conosco levou um tiro na perna e fez toda a viagem pelo mar sangrando. Passado algum tempo, o barco começou a afundar, estávamos todos com crianças na água, os que sabiam nadar ajudaram os que não sabiam, porém quem nos salvou foi um marinheiro grego que se aproximou com seu barco e nos tirou de lá, jogando suas redes. É por isso que estamos todos vivos”.

O pai da menina continua: “Assim que nosso barco saiu, o motor parou de funcionar. Tivemos que voltar remando e esperar que trouxessem outro logo ao amanhecer. Voltamos a zarpar. Tinham nos dito que a travessia durava vinte e cinco minutos ou meia hora, e estivemos no mar por mais de duas horas”.

Jim Marshall, um fotógrafo que mora em Sarajevo, esteve trabalhando ao longo de toda a rota dos Bálcãs. Ele nos conta que nem todos tiveram a mesma sorte: “Eu encontrei muita gente que teve de ser resgatada do mar enquanto flutuava rodeada de corpos sem vida de seus amigos ou familiares”.


Mais de 70 mil refugiados atravessaram a região dos Bálcãs no verão europeu de 2015

Ao chegar à costa grega pela primeira vez, não era a polícia que esperava por eles, porém cidadãos com cobertores e comida. Puderam descansar e receber instruções para continuar seu caminho. As pessoas lhes levavam mapas e alguns se ofereciam para levá-los de carro. Na fronteira com a Macedônia, apesar do começo do verão, viam-se cenas com policiais armados, porém a situação se tranquilizou e também encontraram ONGs e cidadãos que por conta própria estavam ajudando os refugiados. Até a polícia lhes mostrou os caminhos por onde tinham de ir, reconhece esta família.

Macedônia

Stojne Atanasovka  colabora com a ONG Open Gate-La Strata Macedonia  e esteve trabalhando nas cercanias de Gevgelija, na rota pela qual chegaram por Tessalônica, desde os primeiros dias em que aumentou a gravidade da crise: “Um dia, enquanto vinham chegando os grupos de familiares, surgiu um garoto de uns 17 anos que viajava sozinho. Estava chorando, não queria que seus companheiros de viagem o vissem assim. Contou-me que sua família tinha dinheiro apenas para que um membro da família abandonasse a Síria. E era ele. Sua mãe tinha vendido tudo o que tinham para pagar a viagem. Ele foi eleito porque era bom com os estudos e pensaram que seria ele o que provavelmente teria como seguir adiante. Um dia antes de chegar a Gevgelija, ele ficou sabendo que uma bomba havia destruído sua casa, e sua irmã estava gravemente ferida, por isso ele tinha chorado”.

Não é tão estranho que um garoto de 17 anos viaje sozinho uma distância como essa. O jornal sérvio Informer, no início de agosto, dedicou uma capa a uma criança síria com a manchete “Esta criança veio caminhando desde Damasco”. E há situações inclusive mais surpreendentes e assustadoras : Jim conheceu um homem que fez a viagem toda em cadeira de rodas acompanhado pelos seus filhos.

Os momentos mais duros na rota foram vividos em Horgoš, Hungria, quando a polícia foi brutal contra todos os refugiados. Firas, o tradutor, estava lá: “Foi uma armadilha da polícia húngara. Eles deixaram os refugiados se aproximarem uns 25 metros e então começaram a bater neles e atirar gás lacrimogêneo. Foi um verdadeiro desastre, muitas pessoas ficaram feridas. Lá eu vi a cena mais horrível que eu testemunhei em toda minha vida como médico. Vi coisas terríveis, porém nunca nada como isso me afetou tanto. Era um bebê que havia aspirado o gás da polícia. Ele tinha apenas alguns meses e estava se asfixiando. Não sabia como ajudá-lo.  Eu teria dado a minha vida por ele, porém eu não sabia o que fazer. Em seguida, ele começou a tremer, porque a primeira reação do pai foi jogar em cima da criança uma garrafa cheia de água. No final, trocamos a roupa da criança e ela melhorou. Naquela noite atendemos duzentas pessoas”.

Ele não larga o olho do celular enquanto fala. Está tentando conseguir notícias de um garoto de Alepo. Sabe que atravessou a fronteira húngara e foi detido pela polícia. Pegaram suas impressões digitais e foi levado até a delegacia. Desde então já se passaram cinco dias sem notícias dele. Sua mãe mora na Alemanha, ele viajava para se encontrar com ela. A mulher apenas queria saber se está vivo, ele nos diz.

Na Sérvia, o governo demorou para reagir algumas semanas enquanto a capital ia se enchendo de refugiados. Os voluntários começaram a agir em 5 de agosto, o dia que em 1995 chegaram ao país 250 mil sérvios expulsos da Croácia em 48 horas. Escolheram essa data pelo impacto midiático. E desde então não pararam de receber doações e puderam manter uma constante assistência.


Centenas de anônimos se juntaram as pontos de concentração de refugiados para doar alimentos, produtos de higiente pessoal e até dinheiro

Belgrado

A não ser pelas barracas que estão nos parques, facilitadas pelas ONGs, e as que foram colocadas pelo governo e por militares para que os refugiados possam se proteger da chuva, nas proximidades da estação de ônibus de Belgrado, daria para dizer que parece um bairro sírio. Muitos pontos comerciais trazem placas nesse idioma, especialmente os cabeleireiros. Não há incidentes de nenhum tipo. Há até o caso de um homem que veio da Alemanha para abrir um restaurante sírio, conta Maša rindo.

Quando o primeiro-ministro sérvio, Aleksandar Vučić, decidiu fazer algo, foi para os parques tirar fotos com as crianças. Desde esse dia, chegaram alguns médicos e ambulâncias e foram abertos centros oficiais, apesar de os refugiados não quererem pedir asilo neste país, pois sabem muito bem que não há trabalho.

O ministro de Assuntos Sociais, Aleksandar Vulin, foi mais longe e manifestou nos meios de comunicação que a Sérvia não era “um campo de concentração” e que não impediria que os refugiados entrassem e saíssem do país. Quando a Hungria fechou sua fronteira, apareceu lá exigindo que fosse aberta, não se sabe se em um gesto mais oportunista do que oportuno, porque quando os refugiados foram em massa para a Croácia, o governo de Zagreb fechou todas as fronteiras durante dias e começou um gesto de guerra comercial com a Sérvia que deixou filas quilométricas de caminhões nas estradas.

Finalmente, muitos refugiados conseguiram seguir adiante para a Alemanha, Holanda ou outros países através da Croácia e Eslovênia, não sem incidentes nos trens com o confinamento de muitos em improvisados campos de refugiados, até em cemitérios. Porém os que não querem ficar na região dos Bálcãs querem seguir adiante. Segundo os dados de Maša, apenas dez pediram asilo político na Sérvia, por onde passaram mais de duzentas mil pessoas em poucos meses. Um vídeo que se tornou viral na Eslovênia, comentando com altas doses de humor deste país, situava novamente cada um em seu lugar. Um repórter se aproximava da janela de um trem e lhe perguntava a uma refugiada por que ela não queria ficar na Eslovênia. A mulher respondeu com toda a sinceridade: “Porque vocês são um país pobre”.

Tradução: Mari-Jô Zilveti

Publicado originalmente em Jot Down