Sábado, 28 de março de 2026
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Vitor Vogel

Uma das fotografias presentes na exposição “Devaneios Portucalenses”

O fotógrafo Vitor Vogel inaugura nesta quinta-feira a exposição “Devaneios Portucalenses” no Centro de Artes da UFF (Universidade Federal Fluminense). Com curadoria de Paulo Máttar, Vogel apresenta 27 fotografias em preto e branco produzidas numa pequena escala de 12 horas, rapidamente convertida numa viagem de 15 dias pelas ruas do Porto, Coimbra e Lisboa.
 
Segundo o curador, “o fotógrafo assume as influências de Alexander Rodchenko – o olhar que procura ângulos inusitados, o 'movimento incessante da arquitetura' – e Henri Cartier-Bresson – 'buscar o outro, entender o outro', se aproximar do seu cotidiano. As duas abordagens transparecem em diversas imagens, mas também é possível perceber nelas a busca pela construção de sua própria identidade, do seu próprio olhar. “
 
Veja na galeria a seguir algumas das fotografias presentes na exposição:

Vitor Vogel mostra suas fotografias das ruas de Porto, Coimbra e Lisboa em exposição no Centro de Artes da UFF

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A exposição ficará aberta por um mês no Espaço UFF de Fotografia, no hall do Cine Arte UFF. Ela poderá ser visitada entre 10 e 21h em qualquer dia da semana. O Espaço UFF de Fotografia fica no Centro de Artes UFF, prédio da reitoria da Universidade Federal Fluminense, em Icaraí, Niterói.

Leia a seguir o texto curatorial de Paulo Máttar para a exposição Devaneios Portucalenses:

Observando a série de fotografias de Vogel feitas em Portugal, vem à memória a relação de Caetano com São Paulo na antológica Sampa. Ao contrário do compositor, o fotógrafo acha belo o que não é espelho, é seduzido, se comove, se entrega ao primeiro contato. Vendo estas imagens, também é impossível não pensar de imediato em fotógrafos que ficaram marcados por sua íntima relação com uma cidade ou uma região: o romeno Brassai e sua Paris noturna do início dos anos 30; a Paris multifacetada de Robert Doisneau, dos subúrbios proletários à urbe romântica dos anos 50; Cristiano Mascaro e sua São Paulo gráfica; o chileno Sergio Larraín e a Valparaíso de 1963, entre tantos outros. A diferença que é esses fotógrafos dedicaram um tempo considerável aos seus projetos, ao passo que Vogel circulou por Lisboa, Porto e Coimbra por apenas duas semanas, na escala de outra viagem. Quase impossível não ser superficial, não ceder aos clichês, não ultrapassar o olhar meramente turístico. Com a providencial ajuda de uma lista fornecida pelo embaixador brasileiro em São Tomé e Príncipe, “com boas dicas de locais para além dos roteiros tradicionais”, e muita disposição para o contato e convívio com os portugueses, Vogel superou as armadilhas com sucesso.

O fotógrafo assume as influências de Rodchenko – o olhar que procura ângulos inusitados, o “movimento incessante da arquitetura” – e Cartier­Bresson – “buscar o outro, entender o outro”, se aproximar do seu cotidiano. As duas abordagens transparecem em diversas imagens, mas também é possível perceber nelas a busca pela construção de sua própria identidade, do seu próprio olhar. A habilidade para rapidamente conquistar confiança fica clara em alguns dos retratos, já que muitos levariam bastante tempo para chegar ao resultado alcançado. Mas é nos autorretratos e nas fotografias menos “clássicas” que Vogel atinge uma expressão mais pessoal. Se em algumas imagens urbanas temos um olhar mais gráfico e nos retratos fica evidente o afeto do fotógrafo por aquelas pessoas (também presente na série realizada em São Tomé e Príncipe), é nos autorretratos que Vitor Vogel se permite a liberdade plena, o devaneio. Se Narciso acha feio o que não é espelho, Vogel, por oposição, se permite a imersão em lugares que não conhece, em sons e odores inéditos, num passado que não viveu, se encanta com rostos e histórias e se vale do outro – um outro país, um outro povo – para se revelar.