Segunda-feira, 30 de março de 2026
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Caru Ribeiro/Minc

“Projeto Paisagem”, obra de Vik Muniz realizada com material reciclado, exibida na Rio+20, em julho de 2012

Mais conhecido como PET, o plástico politereftalato de etileno virou há tempos a forma mais comum de engarrafar refrigerantes, água e sucos. Porém, o melhor é que reciclado ele pode ser usado desde para embalagens de produtos de limpeza, de alimentos, materiais de uso escolar como réguas, relógios, porta lápis e canetas, até em edredons, travesseiros, tapetes e carpetes. Ele pode virar ainda bichos de pelúcia, tinta e até fazer parte de um telefone celular. Todos esses fins são mais nobres do que descartá-lo para sempre em um aterro sanitário.

“O PET é o ‘filé mignon’ da indústria da reciclagem no Brasil”, diz Edson Freitas, presidente da Associação de Recicladores de Embalagens PET (Abrepet). Entretanto, apesar de ser uma matéria-prima valiosa, as indústrias de reciclagem têm funcionado com apenas 30% de sua capacidade.

“Nos últimos cinco anos, se pagou R$ 125 milhões para aterrar 1,5 bi de embalagens PET que poderiam ser recicladas”, afirmou Freitas. O ex-catador e hoje empresário conversou com nossa reportagem durante o seminário Gestão Integrada de Resíduos Sólidos – Como transformar lixo em dinheiro, realizado no Rio de Janeiro em março de 2014.

Decadência
Com amplo potencial de crescimento, a indústria da reciclagem no Brasil está “em colapso”, disse Freitas. “Hoje a matéria-prima virgem é 20% mais barata que a reciclada. É praticado um sistema tributário injusto.”

Ao vender PET usado em outro estado paga-se um ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) de 12%. Já na hora de importar uma matéria-prima virgem, esta vem mais barata com incentivo de 9%.

O Brasil consome, em média, 600 mil toneladas de PET por ano. Per capita, essa conta dá aproximadamente 19 kg de plástico – para comparar, 20 garrafas PET de dois litros somam um quilo.

Segundo o 9º Censo da Reciclagem do PET, no Brasil, em 2012, a reciclagem deste material atingiu 331 mil toneladas (12,5% a mais do que 2011), um índice de 60% de reciclagem, que gera um faturamento perto de R$ 1,2 bilhão.

Contudo, o desânimo que tomou conta da cadeia de reciclagem é causado pela alta carga tributária que ela suporta. “Nós pagamos 42,5% de imposto sobre uma matéria-prima que já teve seu imposto pago. O reciclador paga sem ter crédito para compensar o tributo”, diz Freitas. Na opinião do presidente da Abrepet é possível alcançar o patamar de 100% de reciclagem de PET, caso a carga tributária retire essa distorção, pois, feito um cálculo sem ela, o processo de reciclagem de embalagens plásticas para bebidas é mais barato, demanda um terço da energia necessária para a produção de matéria-prima virgem.

Outro gargalo está nas dificuldades para fazer a chamada logística reversa. A falta de informação sobre pontos de coleta e onde o morador das cidades pode devolver a garrafa após consumir o produto é grande. “Faltam opções para dar destinação às garrafas PET”, disse.

Uma experiência que tem dado certo é um projeto iniciado em 2011 pela Light, empresa distribuidora de luz no Rio de Janeiro. Ela implantou em 10 favelas da zona sul, como Santa Marta, Rocinha e Chapéu Mangueira, troca de lixo por desconto na conta de luz. “As pessoas levam a garrafa e recebem desconto na conta de R$1,20 por quilo de PET. Este é um projeto que já poderia ter sido espalhado para vários lugares da cidade”, disse Freitas, que integrou a iniciativa.

Divulgação

Edson Freitas na Brasil Pet: “Incentivo à coleta seletiva, à logística reversa e ao catador são necessários”


De catador a empresário legalizado
Aos 47 anos, Freitas tem uma história de sucesso. Começou como catador na comunidade de Jorge Turco, em Coelho Neto, no subúrbio carioca. Hoje, é um empresário, fundador da Brasil Pet, que recolhe 50 milhões de garrafas PET por mês em praticamente todas as comunidades pobres da capital fluminense e do Estado.

“Comecei como catador. Estava desempregado e tinha 32 anos. Vivi uma enchente no rio Acari por causa das garrafas PET. Há 15 anos resolvi cuidar do meu ambiente e tirar as garrafas dos rios”, disse. Ele também recolhia papelão e latinha para vender e complementar a renda.

Freitas começou na informalidade, mas formalizou a empresa e, hoje, a Brasil Pet emprega 70 pessoas e recolhe cerca de 800 toneladas de PET. Seu humor piora quando admite que desde que legalizou a empresa, em 2008, os lucros desapareceram sob a alta carga de impostos. “Se todo mundo sair da informalidade, a cadeia quebra”, disse.

Há dois anos como integrante da coordenação técnica da Frente Parlamentar da Reciclagem em Brasília, Edson Freitas viu de perto a dificuldade de falar com o governo: “Os governos não são sensíveis à reciclagem”. O empresário faz com frequência uma peregrinação em Brasília pelos ministérios do Desenvolvimento Indústria e Comércio, do Meio Ambiente e da Fazenda.

Para aumentar o percentual reciclado, Freitas defende três políticas necessárias: incentivo à coleta seletiva, à logística reversa e ao catador. Em segundo, a desoneração tributária da cadeia produtiva; e, por fim, o uso obrigatório da matéria-prima reciclada.


Texto originalmente publicado em ((o))eco,  portal de notícias ambientais sediado no Rio de Janeiro.

Edson Freitas, presidente da Associação de Recicladores de Embalagens PET, relata as dificuldades por que passa o setor

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