Cortina de Fumaça
Com 1.500 carros novos nas ruas por dia, Nova Déli vem perdendo a luta contra a poluição
Andrew Grey
Carros no centro de Nova Déli: transporte público deficitário e movimento na construção civil agravam poluição
Por que Nova Déli está perdendo a batalha contra a poluição?
• Déli ganha cerca de 1.500 novos carros por dia. A cidade tinha 7,7 milhões de veículos circulando entre 2012 e 2013, de acordo com estatísticas do governo, enquanto Pequim tinha pouco mais de 5 milhões.
• O que torna a situação ainda pior é a alta porcentagem de consumo de diesel neste segmento, chegando a quase 40%.
• A rede de transporte público é inadequada e irregular. A ausência de conectividade nos trajetos dos usuários torna o transporte ainda pior em grande parte da cidade.
• A construção frenética gera poeira e os fornos usados na construção civil aumentam ainda mais a quantidade de material particulado suspenso no ar.
Os crescentes níveis de poluição de Nova Déli não poderiam contar com um símbolo mais poderoso do que o próprio ministro-chefe da cidade, Arvind Kejriwal. Visto frequentemente com um cachecol ao redor da cabeça, enquanto tenta segurar ataques de tosse, o ministro-chefe sofre de bronquite aguda, uma condição que sempre piora, para os habitantes da cidade, durante o inverno, quando o clima com menos ventos impede a difusão do ar e mantém a massa de material particulado flutuando em camadas mais baixas. A noite que Kejriwal passou a céu aberto, durante seu “dharna” [forma de protesto comum na Índia, em que se jejua diante da residência do acusado], em janeiro, acabou por conduzi-lo ao hospital no dia seguinte, tossindo sem parar. O ar de Nova Déli é realmente tão hostil?
Sim, infelizmente. E foi neste inverno [final de 2013 e início de 2014] que os níveis alarmantes de poluição da capital indiana voltaram ao noticiário, especialmente após a publicação do Índice de Desempenho Ambiental da Universidade de Yale, com referências para 2014, que colocou a Índia entre um dos países mais poluídos do mundo. O que chocou muitas pessoas foi o fato de que, tendo como critério a exposição média da população a PM2,5 (material particulado suspenso no ar com 2,5 micrômetros ou menos de tamanho), Yale colocou a Índia na 177ª posição, dentre os 178 países avaliados. Nos termos de um critério ligeiramente diferente, chamado PM2,5 — isto é, a porcentagem da população exposta a níveis PM2,5 de 10, 15, 25 e 35 microgramas por metro cúbico —, nele saímo-nos apenas um pouco melhor, ocupando a 174ª posição. A posição chinesa em cada um dos dois critérios foi, respectivamente, 178 e 174. A ligação com a China, amplamente retratada como um dos países mais poluídos do mundo, foi suficiente para dar início a uma conversa fiada do governo indiano, que negou e se defendeu.
Jean-Etienne Minh-Duy Poirrier
Nova Déli e a cortina de fumaça: indianos que vivem em cidades grandes e médias respiram ar impróprio
Está no ar
O que é indiscutível, no entanto, é que os indianos que vivem em cidades grandes e médias respiram um ar que não deveriam e que a capital da Índia, assim como muitas outras cidades, apresenta um problema crescente com a poluição.
Usando dados coletados pelo Comitê de Controle da Poluição referentes aos 123 dias transcorridos entre 1º de outubro de 2013 e 31 de janeiro de 2014, o Centro para a Ciência e o Meio Ambiente de Nova Déli afirmou recentemente que houve apenas três dias em que os níveis PM2,5 foram inferiores ao limite de 60 microgramas por metro cúbico. Durante 41 desses dias (33%), ele foi cinco vezes superior ao limite e, durante 17 dias (14%), atingiu mais do que 350 microgramas por metro cúbico. Se os padrões de classificação da qualidade do ar americanos ou chineses fossem aplicados, diz Anumita Roychowdhury, chefe da equipe de controle da poluição do ar do centro, a cidade estaria passando por uma “emergência ambiental” neste inverno.
Na verdade, sua colega e diretora geral do centro, Sunita Narain, arrisca dizer que os ganhos obtidos pelo uso de GNV (gás natural veicular) já foram superados. “Podemos dizer, oficialmente, que perdemos”, afirma, referino-se à campanha iniciada por volta de 2000 para a utilização do GNV. Um dos principais fatores que contribuem com o problema é o aumento drástico no número de carros — cerca de 1.500 novos a cada dia — e o fato de que 40% dos carros da capital funcionam com diesel, cujas emissões são muito mais perigosas e até mesmo carcinogênicas. É uma reviravolta deprimente para uma cidade que havia melhorado os números relativos à poluição na última década. “Não estamos progredindo no controle da poluição em Nova Déli no ritmo e na escala em que deveríamos”, diz Narain.
A China baniu de imediato a venda de carros a diesel em Pequim, limitando o número de carros a serem vendidos na capital anualmente para 1,5 milhão. Após 2008, as medidas antipoluição na Índia tornaram-se tíbias. Algumas medidas foram amplamente mencionadas como cruciais na prevenção de uma recaída, incluindo a adoção de padrões de emissão mais altos (como os níveis Euro V ou Euro VI), mantendo o preço do GNV — um combustível muito mais limpo — inferior ao do diesel, desincentivando o uso de veículos com maior tendência a estacionar nas ruas e aplicando multas mais altas para violações de leis de trânsito.
Andrew Turner
Panorama de Hong Kong, China: crescimento alarmante da poluição não é exclusivo das cidades indianas
Programas retrógrados
O transporte público também precisa ser aperfeiçoado: a despeito da rapidez do metrô de Nova Déli, as vantagens são perdidas quando se leva em consideração a falta de conectividade ao final dos trajetos, já que a cidade precisa de muito mais ônibus do que tem. Em 2001, a Suprema Corte ordenou que cerca de 11 mil ônibus deveriam circular pela cidade, mas o número ainda é inferior a 6.000. A interconectividade entre vizinhanças suburbanas, como Noida e Gurgaon, ainda é muito limitada.
A verificação da emissão de poluentes em veículos também é uma mera formalidade, com muitas pessoas simplesmente não realizando o procedimento e subornando policiais quando são paradas. As unidades de teste que certificam os veículos frequentemente têm equipamentos precários. “Em certa medida, isso é completamente sem sentido”, diz Prashant Rajankar, gerente de programas sênior da organização de proteção ambiental Toxic Link.
Outro aspecto ignorado do problema da poluição são os dados inadequados ou pouco confiáveis que são gerados em todo o país — por exemplo, Gurgaon, um distrito suburbano superlotado e em crescimento, possui apenas uma estação de monitoramento; Noida, por sua vez, não tem nenhuma — além da inexistência de padrões de qualidade do ar. Também falta um sistema de alarme. Estes aspectos ainda estão sendo discutidos, mesmo que um estudo do governo em 2012 já tenha descoberto que um terço das crianças da capital indiana apresentam problemas nos pulmões e quatro vezes a quantidade de células do sistema imunológico (macrófagos) contaminadas com ferro do que aquelas advindas de ambientes menos poluídos.
Mesmo no caso de uma cidade tão poluída como Nova Déli, as autoridades chegaram a estabelecer programas retrógrados, como usinas de incineração de lixo para a geração de energia. “Isto não apenas tira o ganha-pão daqueles que vivem de coletar e reciclar lixo, como a fumaça dos resíduos queimados libera dioxinas e outras substâncias que causam câncer”, diz Chitra Mukherjee, que trabalha com o Chintan, organização que trabalha com recicladores de material sediado em Nova Déli. Uma usina operacional em Sukhdev Vihar, no sudeste de Nova Déli, foi duramente criticada pelos moradores e catadores de lixo durante anos, apesar de ter recebido créditos de carbono.
Mas será que a situação está realmente tão ruim em Nova Déli que precisaremos replicar medidas radicais chinesas, como limitar o número de veículos ou permitir que apenas carros com placas de números ímpares ou pares circulem em determinados dias da semana? “Não iremos tão longe, a ponto de dizer que precisamos de tais medidas agora, mas se outras medidas não forem adotadas rapidamente, precisaremos passar para essas”, diz Narain.
A história de um crescimento alarmante da poluição não é exclusiva de Nova Déli. Cidades de todo o país estão crescendo de maneira caótica, replicando o mesmo desastre urbano, ainda que em dimensões menores. “Há cidades menores que hoje estão em situação ainda pior do que a da capital”, complementa Roy¬chowdhury, do Comitê de Controle da Poluição. Isto inclui lugares como Gwalior e Raipur, que possuem níveis de NO2 e PM10 ainda mais altos. “A luta não precisa ser entre nós e Pequim; precisamos ter isso em mente”.
Tradução Henrique Mendes
Texto originalmente publicado em Outlook India, revista semanal nas versões impresassa e eletrônica publicada na índia, em inglês, com matérias sobre política e assuntos de interesse geral.
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