Sábado, 28 de março de 2026
APOIE
Menu


“O desafio que o Mercosul enfrenta hoje é preservar a unidade política para que não sejam destruídas as tentativas de unir nossas matrizes produtivas nacionais”. Assim, a chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, respondeu ao ser questionada sobre o futuro da integração regional após a eleição de Maurício Macri na Argentina.

Em entrevista a Camila Vollenweider, Rodríguez aborda diversos temas relativos à relação de seu país com a região. Ela comenta também as críticas recentes do secretário-geral da OEA, Luis Almagro, contra a Venezuela: “o tempo e a história se encarregarão de desvelar quais são as reais intenções de sua postura pessoal como inimigo da Venezuela”. Apesar do cenário regional, Delcy se mostra otimista: “a correlação de forças ainda é favorável às forças progressistas, às forças que buscam a unidade política de nossos países”.

Agência Efe

Delcy e o vice-presidente 
Aristobulo Isturiz

Confira a entrevista:

Como descreveria a nova estratégia ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela após o avanço da direita na Assembleia Nacional?
Essa ofensiva é uma perseguição contra a Venezuela. O presidente Maduro demonstrou à comunidade internacional como, por meio das agressões de outra índole, busca-se cercar a Venezuela e, obviamente, exercer assim um impacto sobre a região. Sem dúvida alguma, isto se deve àquilo que a Venezuela representa hoje para a região e ao que representa a Revolução Bolivariana com sua mensagem de estabilidade, de paz, a tudo o que significaram os problemas de cooperação, por exemplo a Petrocaribe. É preciso considerar seriamente o que significaria para o Caribe, por exemplo, um governo que trouxesse políticas neoliberais. Já sabemos que, conforme denunciado pelo presidente [do Equador Rafael] Correa, há uma tentativa de restauração conservadora na região e, ainda que tenham conseguido avançar em alguns países, a correlação de forças ainda é favorável às forças progressistas, às forças que buscam a unidade política de nossos países, baseadas em identidades próprias e que respondem ao projeto histórico de união da Pátria Grande, da América Grande.

O que você responderia ao Secretário Geral da OEA, o uruguaio Luis Almagro, após a declaração de que, diante do recente parecer do Tribunal Supremo de Justiça, que declarou nulos os atos da Assembleia, a Carta Democrática Interamericana lhe daria autoridade para atuar na Venezuela?
Não vou sequer me focar na posição do Secretário Geral como Secretário Geral, porque ele, obviamente, está violando todos os regulamentos internos que regulam e supõe seu enquadramento como Secretário Geral. Ele desconhece todo tipo de normativa da Organização e se posicionou como um inimigo da Venezuela; um inimigo com uma terrível obsessão contra a Venezuela. Em última instância, a carta, que ele recentemente publicou, mostra uma profunda ignorância sobre o marco constitucional da Venezuela, sobre o marco jurídico e legal da Venezuela. Uma profunda ignorância. Por que tomou esta posição? Porque é a posição de um inimigo obcecado da Venezuela que sem dúvida alguma está servindo aos interesses imperialistas dos Estados Unidos. E eu imagino também que haja uma agenda própria de posicionamento. Dizem que há interesses particulares em seu próprio país. O tempo e a história se encarregarão de desvelar quais são as reais intenções de sua postura pessoal como inimigo da Venezuela.

Qual é a situação e a perspectiva da ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) nesses momentos difíceis pelos quais a região está passando?
Muito importante. A ALBA significa a unidade latino-americana e caribenha, com uma mensagem baseada no projeto histórico de unidade entre nossos países. Significa, para a região, uma aliança consolidada no âmbito político, ideológico; é um modelo que buscam destruir os centros imperiais. O que é que se busca com essa contra-ofensiva conservadora? Buscam destruir essa unidade política e o que ela significou em nossos países, porque é um modelo que trouxe progresso para nossos povos, que trouxe benefícios. Mas, sobretudo e principalmente, sua concepção de união política de países que defendem sua soberania e sua independência.

Mesmo com as recentes derrotas eleitorais na região, Delcy Rodríguez se mostra otimista: 'correlação de forças ainda é favorável às forças progressistas que buscam a unidade política de nossos países'

NULL

NULL


No próximo dia 27 de janeiro haverá uma nova conferência da Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Com que expectativas a Venezuela vai ao encontro?
Em primeiro lugar, iremos com nossa perspectiva histórica, e com um grande orgulho latino-americano e caribenho, porque sabemos que a Celac que existe hoje, este mecanismo de união, de integração, de cooperação, deve-se ao [ex-presidente] Comandante [Hugo] Chávez. É claro, vamos com os desafios de nossa região. Demos passos importantes no sentido da redução da pobreza, da diminuição das desigualdades, mas ainda temos desafios a serem superados neste sentido. E quanto ao tema central, que será a desigualdade social, nós vamos com um panorama muito amplo, que é o que a Venezuela tem a esse respeito, com missões sociais que foram uma experiência inédita no mundo. Isso é o que buscam destruir: a unidade política, para impedir os avanços sociais. Para impedir um modelo econômico que beneficie identitariamente nossos povos. Por isso estamos aqui, para travar nossa batalha e resistir ao ataque imperialista, que busca destruir este modelo, não apenas na Venezuela, como na região toda.

O triunfo de Macri deu início a novas tensões no Mercosul, rompendo com a sintonia dos últimos anos. Como você vê o futuro do bloco daqui para frente? Qual é a postura da Venezuela diante do possível acordo comercial do Mercosul com a União Europeia e uma eventual aproximação da Aliança do Pacífico?
Nós não participamos do acordo com a União Europeia porque cremos profundamente que, primeiramente, devemos conslidar a união de nossas plataformas produtivas na região, para só então talvez pensar em outros caminhos. Temos muito o que conversar entre nós mesmos, por exemplo sobre a forma como nos relacionamos com o Caribe, outras zonas econômicas da região, especialmente sobre a relação entre o Mercosul e o Caribe. Nós acreditamos profundamente neste tipo de unidade onde se busca preservar as plataformas produtivas de nossas nações sul-americanas. O desafio que o Mercosul enfrenta hoje é preservar a unidade política para que não sejam destruídas as tentativas de unir nossas matrizes produtivas nacionais. No entanto, eu sou otimista. Nós estamos vendo o que está ocorrendo na Argentina. E, com todo o respeito, estamos vendo o que está ocorrendo com os avanços importantes em matéria de Direitos Humanos, econômicos, sociais, políticos e de liberdade de expressão obtidos nos últimos anos. E, assim como nós estamos vendo tudo isso, os povos da região também estão. Esse é o modelo que quer retornar; um modelo a serviço dos grandes capitais, a serviço das transnacionais da comunicação, do capital financeiro. A serviço de interesses e centros políticos imperiais e a despeito de nossa soberania. Esses são os dois grandes modelos que estão colocados, contrapostos e em colisão. E nós somos otimistas quanto a que os povos saberão preservar esta unidade política.

**

Publicado originalmente em espanhol pela Celag

** Tradução: Henrique Mendes