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Sarau Elo da Corrente / Facebook

Evento do Sarau Elo da Corrente em abril de 2014

Dezenas de pesquisadores de instituições acadêmicas da América Latina, América do Norte e Europa estarão reunidos em Paris (França) e em Oxford (Inglaterra) para participarem do IV Colóquio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea. Em movimento crescente nas periferias brasileiras, a representação social e a produção literária dos saraus terão espaço garantido na edição.

O colóquio começou na última quarta-feira (14), na capital francesa, e segue a partir do dia 19, em Oxford. Ele pretende discutir as obras da literatura brasileira produzidas a partir de 2000. O recorte cronológico condiz com o momento de amadurecimento e expansão de saraus e, consequentemente, da produção literária nas periferias do país, especialmente em São Paulo.

Embora majoritariamente formado por acadêmicos, a discussão da produção cultural na periferia ficará a cargo do escritor Michel Yakini, co-fundador do Sarau Elo da Corrente, realizado em Pirituba, Zona Oeste da capital paulista. Ontem (15), ele coordenou a mesa “Literatura marginal/periférica: páginas, versos e vozes de um movimento”, na qual discutiu um panorama de toda esta efervescência, além de refletir sobre sua consolidação a partir do cenário cultural e social.

Em atividades organizadas pelos pesquisados do colóquio, a produção periférica nunca passou despercebida. No entanto, fazer a interlocução entre quem pensa e quem faz a literatura nas periferias é um dos pontos exaltados por uma das organizadoras da atividade neste ano, a professora titular de literatura brasileira da Universidade de Brasília (UnB), Regina Dalcastagnè.

“Como analisamos essa produção do lado de fora da periferia, alguns até do lado de fora do país, é essencial ouvir o que pensa quem está dentro. Tenho certeza de que esse diálogo será muito produtivo para o nosso trabalho, e espero que ele se amplie cada vez mais”, diz.

Encontro realizado em Paris e em Oxford debate panorama literário do país nos anos 2000 e dedica mesa ao tema; produção literária das periferias do país desperta cada vez mais interesse de escritores e pesquisadores em todo o mundo

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Hoje, apenas na cidade de São Paulo, segundo estatísticas de aparelhos culturais, há, pelo menos, 100 saraus distribuídos pela cidade, que interferem no cotidiano de suas comunidades e arredores, além de produzir e inovar esteticamente a forma de fazer literatura no Brasil. Para Regina, “há uma demanda muito grande de informação e de reflexão sobre essa produção que, acredito, é o que há de mais instigante em termos literários no Brasil hoje”.

O número de pessoas interessadas e de pesquisadores que tem se debruçado pela produção da literatura nas periferias de São Paulo é crescente não só no Brasil, mas no exterior. Prova disso, destaca o escritor Michel Yakini, são as participações, no ano passado, de escritores paulistas durante a 40° Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, na Argentina; e na 21ª edição da Feira Internacional de Livros em Zócalo, o centro histórico e marco zero da Cidade do México.

Em ambos os momentos os poetas puderam conhecer projetos culturais de bairros afastados do centro e fazer um intercâmbio com as experiências de projetos culturais em cada país. “Há alguns anos era praticamente nula nossa produção nesses espaços e o reconhecimento tem crescido”, destaca Yakini.

No entanto, o escritor avalia que tamanha efervescência pode trazer distorções e oportunidades de interlocução como as proporcionadas pelo colóquio são essenciais. “O que me preocupa são alguns enfoques que desviam o olhar sobre nossa literatura e destacam somente nosso fazer social, ativista, como que se justificasse a produção artística pela ação comunitária e coletiva. Todo esse fazer é importante e deve ser valorizado, mas é fundamental discutir as obras que produzimos, os textos, a trajetória e o fazer criativo de cada autor e autora”, avalia.

 

Matéria original publicada no site do jornal Brasil de Fato.