Bip Bip: Símbolo da cultura e da esquerda carioca
<br><br>Quem frequenta o reduto do Alfredinho, no Rio, já sabe que por lá música tem prioridade e vai para ouvir o melhor do samba, choro e bossa-nova

Alfredinho comanda há quase 30 anos o Bip Bip, ponto de encontro de músicos brasileiros e estrangeiros
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No dia 13 de dezembro de 1968, enquanto era promulgado o AI-5 (Ato Institucional nº 5) — o mais duro golpe da ditadura brasileira —, em Copacabana, na discreta Rua Almirante Gonçalves, surgia um dos maiores símbolos da resistência política-cultural carioca: o Bip Bip.
O comandante do Bip há quase 30 anos, Alfredo Melo, Alfredinho, fugia da ditadura quando, por acaso, se deparou com os fogos da inauguração do bar.
Anos depois, Alfredo comprou o ponto comercial e se tornou um anfitrião que deixa todos à vontade para escutar boa música, pegar sua própria cerveja, e dizer, no final da noite, o total que deve pagar.
Diariamente é possível ouvir o melhor do samba, choro e bossa-nova, em uma roda democrática, em que os músicos sentam ao redor da mesa e os frequentadores colaboram fazendo o coro das canções.
Já para quem deseja conversar, o próprio Alfredinho recomenda o bar da frente. “Aqui a prioridade é a música, todos tocam sem receber cachê, pagando sua própria cerveja, o mínimo que devemos é respeitar e fazer silêncio”, costuma pedir em seus famosos “esporros”, que já viraram aplicativo em redes sociais.
Quem nunca ouviu um esporro do Alfredinho, diz a lenda, nunca esteve no Bip Bip. Na realidade, as repreensões de longe passam por grosserias.
A aparência ranzinza é apenas fachada: Alfredo é doce e sensível, admirador da música popular brasileira, envolvido em diversos projetos sociais, como a distribuição de 200 cestas básicas para famílias do Pavão-Pavãozinho, Cantagalo e Rocinha.
[Na foto, o anfitrião Alfredo Melo, o Alfredinho]
Desta forma, as famosas broncas costumam ser voltadas para a necessidade da doação de sangue, do engajamento político e social, além, claro, do clássico pedido de silêncio.
Histórias
No entanto, enquanto a música não toma conta do bar de 18 metros quadrados, é possível aproveitar para ouvir as histórias do Alfredinho.
Ele destaca grandes artistas da música brasileira que ajudaram a construir as noites musicais do Bip, como Elton Medeiros e Cristina Buarque, sua grande amiga. “A Cristina é uma pessoa ímpar, uma dignidade, humildade e amizade incríveis”, elogia.
Além disso, no lugar que já recebeu Tom Jobim, é possível cruzar com Carlos Malta, Paulinho da Viola e Geraldo Azevedo.
“No mês passado, o Milton Nascimento veio ouvir o nosso samba. Então, não era pra tocar música em sua homenagem, pois ele queria escutar a música do Bip. Esqueci de falar isso e alguém puxou uma canção do Bituca”, conta.
Alfredinho se refere à noite comandada pela nova turma do Bip, jovens de 20 a 30 anos que marcam ponto toda quinta-feira e já se apresentam em outros locais, como a cantora Marina Íris, músicos do Samba da Ouvidor e do Samba Sem Alvará.
A vida de Alfredinho se confunde com a história do Bip. No bar, as paredes são repletas de fotos de compositores e amigos, caricaturas, desenhos e escudos do Botafogo, seu time de coração.
A política também tem espaço cativo nos murais do Bip: é possível encontrar panfletos do PT, fotos do Lula e da presidenta Dilma Rousseff , além de adesivos das candidaturas passadas dos parlamentares Marcelo Freixo e Eliomar Coelho, ambos do PSOL, uma mistura que simboliza a democracia local.
Ponto turístico
Com acolhimento e personalidade, Alfredinho transformou o bar, comprado com metade do pagamento em doses de uísque, em ponto turístico.
Assim, os frequentadores assíduos, que batem ponto para dar um simples beijo — ali os homens se cumprimentam com beijo no rosto — no dono do bar, convivem com turistas de diversos lugares.
Muitos chegam para conhecer e tirar uma foto ao lado do mítico Alfredinho. “Eu mal falo português, mas gosto de saber de qual lugar são os gringos. Assim, eu falo 'eu: Brasil, você'? Todos entendem e respondem”, afirma.
“Tem um amigo que diz que o Bip parece reunião da ONU. Já teve dias que o idioma menos falado por aqui era o português”, se diverte Alfredinho.
Como afirma o jornalista e frequentador do reduto cultural Emiliano Tolivia, “em tempos de megaeventos no Rio de Janeiro, o único local que já está pronto para receber atletas, turistas e jornalistas é o Bip”.
* Texto publicado originalmente no Brasil de Fato























