Segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
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Milhares de estudantes participam do encontro com juízes que analisam crimes cometidos pelo Khmer Vermelho

Saiba o que mais foi publicado no Dossiê #04: Comissão da Verdade

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Em uma quinta-feira de janeiro de 2010, uma sala de aula cheia de professores do ensino médio, na província de Takeo, organizou-se em grupos de cinco pessoas e compartilhou recordações de sobreviventes de atrocidades do século XX.

Em um dos grupos, o primeiro professor a falar proferiu um discurso de cinco minutos sobre o Holocausto, estruturado sobre o relato de um judeu que fugiu do gueto de Horochow, na Polônia, buscando abrigo na floresta. “É algo incrível”, disse o professor, lendo diretamente do relato do sobrevivente. “Quando se está faminto e completamente desmoralizado, você se torna inventivo. Quando eu digo isso, eu mesmo não posso acreditar — eu comi vermes, comi insetos, comi qualquer coisa que pudesse colocar em minha boca. E, às vezes, ficava muito doente.”

Um outro professor falou ao grupo sobre a campanha do governo iraquiano contra os curdos, em 1988, lendo em voz alta o relato de um trabalhador que quase foi enterrado vivo em uma cova coletiva. “Quando me sentei, fui atingido na parte de trás da cabeça”, leu. “Eu caí dentro do buraco. Eu vi um dos companheiros dentro do buraco e perdi a consciência.”

Depois, foi a vez de Yeb Dodon. O professor de 55 anos de idade, natural de Kep, foi incumbido de contar uma breve história sobre o regime do Khmer Vermelho. Essa história era o foco do programa de treinamento, organizado pelo Centro de Documentação do Camboja, do qual os professores estavam participando havia duas semanas.

O processo de treinamento foi um dos seis organizados em novembro e dezembro de 2009 para cobrir a primeira cartilha sancionada pelo governo sobre o regime do Khmer Vermelho: Uma História da Kampuchea Democrática. Até o fim de 2010, os 186 professores que participaram do processo tinham como objetivo treinar 3 mil outros colegas de profissão. O Centro de Documentação do Camboja espera que, mais de três décadas após a queda do regime, o currículo possa ajudar o Camboja na dificultosa estrada rumo à reconciliação nacional.

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Legado do regime

Começando sua apresentação, Yeb Dodon disse: “Khmer Vermelho foi o nome dado pelo rei a seus oponentes comunistas, nos anos 60. Em 17 de abril de 1975, terminaram cinco anos de intervenções estrangeiras, bombardeios e guerra civil no Camboja. Nesse dia, Phnom Penh foi conquistada pelas forças comunistas. Mas na Kampuchea Democrática, toda a população foi privada de seus direitos mais básicos”.

Ele continuou a partir daí, interrompendo a narrativa do sobrevivente que lhe havia sido dada e, no lugar dela, citando fatos sobre a estrutura da liderança do Khmer Vermelho, seu plano de quatro anos, de 1977, e seus projetos de construção. Ele mencionou o apoio de Norodom Sihanouk ao regime, além de falar sobre como o rei foi mais tarde capturado no complexo do Palácio Real. Mas assim que ele começou a falar sobre a abolição da religião, Christopher Dearing, que estava ajudando a coordenar o treinamento para o Centro de Documentação do Camboja, disse aos professores que o tempo havia acabado. Yeb Dodon fechou seu livro e riu. “Acho que é muita coisa”, disse.

Escrito pelo pesquisador Khamboly Dy, do Centro de Documentação do Camboja, e publicado em 2007, Uma História da Kampuchea Democrática oferece um relato objetivo sobre a ascensão e o legado do regime, embora exclua vários pontos conflituosos, como, por exemplo, se a chegada dos vietnamitas em 1979 foi uma liberação ou uma invasão.

A cartilha dos professores foi ainda mais controversa. Durante o processo de aprovação, membros de um conselho de revisão do Ministério da Educação ocasionalmente confrontaram a equipe do Centro de Documentação do Camboja sobre como o material deveria ser ensinado, objetando algumas das aulas mais interativas.

A cartilha sugere, entre outras coisas, palestras em classe ministradas por sobreviventes do regime, entrevistas com um antigo oficial e uma encenação na qual os alunos fingem ser tanto vítimas quanto perpetradores de crimes do regime. Os professores que participaram do treinamento em Takeo disseram estar apreensivos a respeito das atividades interativas e daquelas organizadas em grupos pequenos, muitas das quais diferem marcadamente do método tradicional de ensino, ao estilo de uma palestra, comumente empregado no Camboja.

Muitos disseram, na verdade, que estavam muito mais preocupados com o formato das aulas do que com seu conteúdo. “Dividir a classe em grupos é uma novidade para mim, nunca fiz isso antes”, disse Sam Rethy, de 55 anos.

“Normalmente, eu apenas faço com que meus alunos leiam e respondam perguntas, sem qualquer outra atividade.”

Cartilha específica

Youk Chhang, diretor do Centro de Documentação do Camboja, defendeu os métodos interativos de ensino, citando como exemplo um exercício em história comparativa que, segundo ele, contextualizaria os anos do Khmer Vermelho para os estudantes pouco familiarizados com os crimes de massa em outros países.

“Quero mostrar que, sim, esses são crimes contra a humanidade, mas nós não somos as únicas vítimas”, disse ele.

Como o Ministério da Educação nunca havia divulgado antes uma cartilha específica a respeito do Khmer Vermelho, a pouca instrução recebida pelos estudantes em sala de aula até o momento era informal, frequentemente apoiada sobre as experiências pessoais dos professores — ou, nos casos em que o professor em questão é muito jovem, de seus pais — em vez de utilizar material acadêmico devidamente revisado.

Comissão da verdade

Youk Chhang está convencido de que ensinar a história do Khmer Vermelho pode promover a reconciliação nacional — na cartilha dos professores, ele chega a afirmar que o Projeto Educacional sobre o Genocídio “se tornou a comissão da verdade do Camboja”.

Embora as feridas do regime estejam muito longe de se cicatrizarem, aqueles que organizaram o treinamento em Takeo disseram acreditar que, até o fim, os professores serão capazes de apresentar o período de uma maneira que diminua a culpa individual, limitando assim o potencial para que incidentes similares se repitam.

* Texto publicado originalmente no jornal cambojano The Phnom Penh Post

Camboja cria aulas para revisar os anos de sangue do Khmer Vermelho

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