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O governo do presidente norte-americano George W. Bush não tinha simpatia pelas opções de política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É a conclusão tirada por dois despachos divulgados neste domingo (06/03) pelo site WikiLeaks, que  revelam conversas de integrantes da embaixada norte-americana no Brasil com políticos e diplomatas ligados ao PSDB a respeito do segundo turno das eleições presidenciais de 2006. Os documentos revelam uma preferência do embaixador pela vitória de Geraldo Alckmin.

As datas dos despachos são 26 e 27 de outubro daquele ano, quando o segundo turno da disputa foi realizado no dia 29. Lula acabou reeleito com uma diferença de vinte pontos percentuais sobre o rival tucano.

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No primeiro documento, assinado pelo embaixador Clifford Sobel, que havia chegado ao Brasil apenas em agosto,  aponta que uma vitória de Alckmin seria mais benéfica aos interesses dos EUA, embora fosse praticamente inviável àquela altura.

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Leia o documento original na íntegra.



Sobel mostra desconforto com as opções políticas externas de Lula e descreve uma séria de críticas feitas por opositores, como Arthur Virgílio, Tasso Jereissatti e os ex-embaixadores Sérgio Amaral e Rubens Barbosa, ligados à campanha tucana, que teceram várias críticas às posturas do Itamaraty, afirmando que o Brasil perdeu sua tradicional postura de neutralidade e havia perdido influência na região, além de não conseguir acelerar tratados bilaterais de livre comércio.

O segundo documento foi assinado pelo observador político da embaixada, Dennis Hearne. Ele apostava que, assim que Lula fosse reeleito, o que era muito possível, sofreria enormes pressões devido a escândalos de corrupção, problemas judiciais e problemas para obter maioria no Senado, cuja maior bancada tinha ficado nas mãos do então PFL (atual DEM).

Leia o documento original na íntegra



Segue abaixo um resumo dos dois despachos.

Sobel

No despacho de Clifford Sobel,  o embaixador ressaltou as críticas feitas por Alckmin à política externa de Lula, que teria priorizado “ideologias em detrimento aos interesses nacionais”. O tucano fazia referência ao “fracasso do Brasil em obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, à 'fraca resposta' à nacionalização de bases da Petrobras na Bolívia e a prioridade para as relações Sul-Sul, 'em detrimento a nações mais desenvolvidas, como EUA e Europa'”.

Nesse sentido, Alckmin, segundo a opinião do embaixador, ecoaria as visões críticas de “boa parte da classe mais educada do país, opinião que era refletida pela mídia [local]”. A conclusão seria que a política externa de Alckmin divergiria radicalmente da de Lula. Para Sobel, o candidato tucano adotaria uma direção “mais tradicional”,  “orientada aos EUA”. 

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Entretanto, o diplomata lembrou que seria possível desenvolver com Lula, em um segundo mandato, diversas relações de interesses bilaterais, como políticas de biocombustível, negócios, investimentos e programas para as regiões mais pobres do país. O problema, segundo Sobel , estaria no fato de que ele não encontrava sinais de que a política externa do petista mudaria dramaticamente de direção nos anos seguintes.

Após a análise, Sobel relatou uma conversa realizada em outubro daquele ano com o ex-porta-voz do governo de Fernando Henrique Cardoso e ex-embaixador do Brasil na França durante o governo Lula, Sérgio Amaral – que, segundo o diplomata, estaria altamente cotado para ocupar a chefia do Itamaraty em caso de vitória tucana.

Wikimedia Commons



Geraldo Alckmin, atual governador de São Paulo, contava com simpatia da embaixada norte-americana.



Amaral criticava o fato de a política externa brasileira sempre ter adotado, por tradição, uma postura neutra. Enquanto que, durante o governo petista, ela escolhia lados – citando os presidentes Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Néstor Kirchner (Argentina). Essa postura também teria, segundo Amaral na versão de Sobel, “um sabor de terceiro mundo”, por “abrir tantas embaixadas na África”.

Ao embaixador, Amaral teria ponderado que a política externa teria uma tendência mais à esquerda para contrabalançar a ortodoxia econômica interna. Esta seria uma razão da recusa do governo brasileiro em se aliar à Alca (Acordo de Livre Comércio das Américas). Outras críticas feitas pelo diplomata seriam a falta de acordos bilaterais e a perda de influência do Brasil na América do Sul, que teria ficado muito fragmentada.

Em outra conversa de Sobel, desta vez com Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos EUA e conselheiro do PSDB, foram delineadas algumas tendências do que seria a política externa de um governo Alckmin: a volta da postura neutra; os “interesses nacionais” em prioridade às “ideologias”; haveria um  forte foco regional baseado na integração latino-americana, porém, a atenção principal seria dedicada às relações com países mais desenvolvidos; avanço nas negociações da Alca, que por sua vez deveria ser mais “light”.

Em relação à Venezuela, não haveria nenhuma relação além das formalidades necessárias, assim como Fidel Castro em Cuba. Já em relação à Bolívia, o tucano teria uma linha mais dura, sem que Barbosa especificasse mais detalhes.

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O embaixador também chegou a se encontrar com os líderes tucanos Tasso Jereissatti, então presidente do partido, e Arthur Virgílio, que era líder do peessedebista no Senado. Os dois teriam igualmente criticado o Itamaraty no primeiro mandato de Lula. Jereissatti teria sugerido até que Lula adotaria um caminho populista, se distanciando ainda mais dos EUA.

Conclusão do embaixador

A conclusão final de Sobel era que Lula dificilmente mudaria sua política externa, especialmente porque continuaria influenciado por pessoas como o [ex-ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência e Secretário-Geral do Itamaraty] embaixador Samuel Pinheiro Guimarães [atual Alto Representante-Geral do Mercosul], a quem Sobel se refere como antiamericano radical, e Marco Aurélio Garcia, conselheiro político para assuntos exteriores e “um esquerdista de fato”.

Entretanto, Sobel afirma que os EUA não devem temer a visão tucana de que Lula partiria para um caminho populista na política externa: “Lula preza sua imagem assim como sua influência regional moderada, e isto é algo que devemos encorajar nele ”. O petista ainda teria muitos projetos comerciais para desenvolver em conjunto com os americanos.

Sobel considerou, porém, que uma mudança de política externa de fato favorável aos EUA só ocorreria com a vitória de Alckmin. “Para que ocorresse uma mudança 'no oceano', com a maré remando para o nosso lado, seria necessária a vitória de Alckmin, o que, com três dias para o final da eleição [de primeiro turno], parece uma possibilidade remota”.

Conselheiro político



O despacho do dia seguinte (27 de outubro de 2006) foi assinado pelo conselheiro político da embaixada, Dennis Hearne, que  já previa uma derrota tucana por larga margem. O consultor afirma que o fato de Lula ter associado Alckmin e seu partido às privatizações surtiu efeito, mas a causa principal da vitória petista teria sido o auxílio dos programas sociais do governo à parcela mais carente da população. Hearne comparou Lula com o ex-presidente Getúlio Vargas, e à sua alcunha de “pai dos pobres”.

O conselheiro revela que, na conversa com Tasso Jereissatti, o presidente do PSDB criticou Alckmin por ter adotado uma posição defensiva a respeito das privatizações, e que este deveria ressaltar o sucesso do plano nacional de desestatização, especialmente no setor de telecomunicações.

Jereissatti e Virgílio teriam, em suas conversas privadas, traçado dois cenários futuros caso a vitória de Lula viesse a se concretizar, os quais Hearne considerou como “muito viáveis”: no primeiro, a aliança de PSDB e PFL não forçaria uma crise, e cooperaria com o governo em um mínimo de questões de interesse nacional, enquanto apontaria para o desgaste cada vez maior do governo. Assim, se prepararia para a eleição de 2010.

O segundo seria adotar uma estratégia muito mais agressiva, criticando a administração Lula e forçando por uma maior rapidez nas investigações de escândalos administrativos. A oposição não recuaria como teria feito durante a crise institucional de 2005 [a crise que ganhou o nome de “mensalão”]. Esse caminho dependeria muito do rumo que tomariam os escândalos adicionais após as eleições, segundo acreditavam os tucanos.

Em sua conclusão, Hearne apostou no segundo cenário. Ele chamou as iniciativas do PSDB e do PFL de “golpe branco”, pressionando Lula através do legislativo, do Judiciário e de investigações, para assim desqualificar sua imagem e, talvez, obter um impeachment. Portanto, segundo Hearne, a vitória de Lula seria certa, mas “apagada”, e seu segundo mandato se tornaria problemático logo no dia seguinte à vitória.

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Wikileaks revela preferência da embaixada norte-americana pela vitória de Alckmin contra Lula em 2006

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