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A multinacional farmacêutica Pfizer negociou em abril de 2009 com o governo da Nigéria um acordo para evitar ser processada pela morte de 11 crianças e pelas sequelas provocadas em dezenas de outras, após testar um medicamento chamado Trovan, usado no tratamento da meningite. O fato foi revelado por um documento vazado pelo Wikileaks nesta quinta-feira (09/12).

Em 1996, cerca de 200 famílias de Kano, estado no norte da Nigéria, garantiram que seus filhos receberam o medicamento de forma experimental e, após a morte de 11 crianças, a companhia norte-americana pagou indenizações aos pais das vítimas para evitar um julgamento.

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Despachos da Embaixada dos Estados Unidos em Abuja revelaram como a Pfizer conquistou esse acordo, usando detetives para coletar provas contra membro do judiciário nigeriano e publicá-las na imprensa. De acordo com os documentos, o plano deu certo e o procurador-geral do país, Michael Aondoakaa, acusado de corrupção, abandonou o caso.

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Um dos documentos mostra uma conversa entre um diplomata norte-americano e o responsável pela Pfizer na Nigéria, Enrico Liggeri. “Ele disse que os detetives da Pfizer passaram as informações aos jornais locais […] Uma série de reportagens detalhando os supostos laços de Aondoakaa com casos de corrupção foram publicados em fevereiro e março”, afirmam diplomatas norte-americanos. “Liggeri garantiu que a Pfizer tinha mais informações contra Aondoakaa e que seus colegas o pressionaram para que deixasse o assunto”.

Os diplomatas relatam no mesmo despacho um encontro entre a embaixadora norte-americana Robin Renee Sanders e os advogados da farmacêutica, Joe Petrosinelli e Atiba Adams. Quase dois meses antes de o acordo se tornar público, os advogados contam à embaixadora que a negociação está praticamente concluída e que pagarão ao todo 75 milhões de dólares: “10 em custos legais, 30 para o governo do estado de Kano e 35 para os que participaram [dos testes] e suas famílias”.

Petrosinelli e Adams afirmam que o ex-presidente nigeriano Yakubu Gowon estava envolvido na negociação, pois conseguiu convencer o governador de Kano Mallam Ibrahim Shekaru, para que intercedesse e abaixasse o pedidos de indenização de 150 milhões para 75. 

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Medicamento

As suspeitas quanto aos testes do Trovan aconteceram dentro da própria Pfizer. Juan Walterspiel, um dos médicos da empresa, entrou em contato com a direção para denunciar a violação de normas éticas na Nigéria.  Ele foi despedido, mas segundo a Pfizer, por outros motivos. O Trovan foi depois aprovado na Europa e EUA, para o tratamento de infecções muito severas. Porém, posteriormente a União Europeia o retirou de circulação, porque causava problemas hepáticos.

E foi justamente com a denúncia de Walterspiel que o caso saiu momentaneamente do controle da Pfizer. Diversas manifestações aconteceram por cidades nigerianas e o governo se viu obrigado a processar a Pfizer. O resultado foi o acordo de 75 milhões de dólares.

A Pfizer sempre se declarou inocente, e diz que o Trovan salvou vidas durante a epidemia de cólera e meningite de 1996 na Nigéria, que matou 12 mil pessoas. 


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Wikileaks: multinacional farmacêutica conspirou para evitar julgamento na Nigéria

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