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O contraste entre a barulhenta e superpopulosa Porto Príncipe e Titayenne, localidade no litoral do Haiti, começa a ser delineado na Route Nationale 1, estrada de terra esburacada e cheia de caminhões transportando água e gasolina. No local, as numerosas barracas, montadas com a ajuda de organizações internacionais, complementam a paisagem árida, compreendida entre o campo e o mar. Poderia ser mais uma das muitas cidades empobrecidas do Haiti, mas foi em Titayenne que a maioria dos mortos do trágico terremoto de 12 de janeiro de 2010 foi enterrada. Titayenne é conhecida como a cidade das valas comuns.   

Federico Mastrogiovanni



Valas comuns na cidade haitiana de Titayenne, usadas agora para os mortos pela cólera

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Atrás de uma colina, longe do mar, há a um pequeno vale escondido. No topo do terreno, é inevitável ser acometido pela sensação de náusea e mal estar profundo: misturado à umidade provocada pelo forte calor, o cheiro dos milhares de cadáveres impregna o ar rapidamente. O grande cemitério em Titayenne, forrado por dezenas de cruzes brancas fincadas no chão, começou a ser formado logo após o terremoto, quando caminhões e carros depositaram sem parar corpos no local.

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“É muito triste pensar naqueles dias”, contou Charles, um camponês que fazia reparos em sua barraca, com novas lonas enviadas pela ONU (Organização das Nações Unidas). “Eu trabalhava aqui e tive de deixar o campo para ajudar a enterrar os corpos. Eram centenas de cadáveres”, lembrou o haitiano.

Atualmente, além das cruzes, há pequenos amontoados de terra que lembram que o local está repleto de corpos. Nas últimas semanas, contudo, surgiram novos montes no vale de Titayenne. Com a epidemia de cólera, que já vitimou quase três mil pessoas, o lugar “voltou à ativa”.

Federico Mastrogiovanni

No campo aberto, uma das valas está aberta. Dentro, cerca de dez corpos, em sacos plásticos, esperam a chegada de outros mortos para que o buraco possa ser coberto com a terra vermelha de Titayenne. Perto da cova, há outras recém-fechadas, formando um pequeno conjunto de montes. O lugar é solitário, embora perto da estrada. “Os corpos não recebem nenhum cuidado”, afirmou Charles. “Chegam aqui de caminhão e são descarregados. Se não fossem os Médicos Sem Fronteiras, que ao menos os colocam em sacos plásticos, eles estariam expostos como animais.”

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A necessidade de Titayenne

A vala de Titayenne é apenas uma das muitas abertas depois do terremoto, e a falta de cuidado sanitário ajuda a agravar a epidemia de cólera. Dados do Ministério da Saúde Pública e da População do Haiti mostram que desde 19 de outubro de 2010, quando os casos começaram no Haiti, mais de 135 mil pessoas foram afetadas.

“Parece uma brutalidade amontoar os corpos nessas valas, sem nome, todos juntos, sem um enterro digno”, admitiu Anne Marie, enfermeira haitiana formada pela Escola de Medicina de Cuba. “Mas há também uma necessidade objetiva, a urgência de enterrá-los em lugares afastados. Em muitos casos o problema é que as autoridades não conseguem descobrir a identidade de alguns mortos. Qual é a alternativa em casos como esses? É fundamental tirá-los da cidade, afastá-los dos demais, para que o cólera não se espalhe.”

Federico Mastrogiovanni

É necessário afastar os cadáveres, mas “é quase inútil afastar os corpos se continuam expostos às moscas”, respondeu Ihomar López, especialista em higiene epidemiológica da Brigada Médica Cubana presente na ilha. “As moscas são um dos transmissores indiretos da cólera e é extremamente importante proteger todas as regiões sob risco. É fundamental dar atenção aos mortos, da mesma forma que os vivos, para evitar que a epidemia continue se espalhando. As valas comuns devem ser bem cuidadas, e não abandonadas à própria sorte, como no caso de Titayenne”, concluiu.

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Valas comuns para vítimas de terremoto no Haiti agora recebem mortos da cólera

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