Quarta-feira, 15 de abril de 2026
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Maribel Rodríguez vive há doze anos no populoso bairro de Zacamil, uma zona residencial situada no município de Mejicanos, três quilômetros a noroeste da capital de El Salvador, San Salvador. A mãe solteira de 42 anos teve que se mudar por motivos econômicos e, apesar de ter reduzido seus gastos, agora enfrenta os constantes delitos cometidos no local, que tem registrado nos últimos anos elevados níveis de insegurança e delinqüência.

Como Maribel, seis milhões de salvadorenhos vivem em meio a uma onda de crimes e insegurança, alimentada pela ação de grupos criminosos. Eles esperam que a operação militar recém-lançada pelo presidente Mauricio Funes tire do país o rótulo de mais violento da América Central, atribuído pelas Nações Unidas.

Nas paredes dos edifícios da cidade, destaca-se uma série de grafites com símbolos próprios das gangues criminosas conhecidas como “maras”, indicando que a denominada “18” domina o território e que, portanto, sua rival, a “Mara Salvatrucha” (MS), não pode entrar.

Assista à reportagem do Los Angeles Times sobre o filme

“La Vida es Loca”, que aborda as maras salvadorenhas:

Nas zonas dominadas pelas maras, seus membros tendem a consumir e comercializar drogas, extorquir pequenos e grandes comerciantes, cometer crimes e, quando acham necessário, impor toques de recolher, sem que, até agora, a polícia tenha qualquer controle.

“O que faço é me manter ilhada com meu filho, para evitar qualquer situação de perigo. Além disso, saímos do apartamento somente quando é extremamente necessário”, disse Maribel ao Opera Mundi.

Ela lamenta que o filho Daniel, de 9 anos, não possa sair na rua para se divertir com outras crianças de sua idade, por temer que os membros das gangues lhe causem qualquer dano. Por isso, o pequeno precisa se entreter com jogos de tabuleiro em casa. “Queria me mudar daqui, mas não tenho dinheiro suficiente para poder fazer isso”, afirmou.

Cifras do CAT (Centro Antigangues Transnacional) indicam que em El Salvador existem mais de 30 mil “mareros”. As maras foram importadas dos Estados Unidos no final da guerra civil salvadorenha (1980-1992), quando jovens imigrantes com histórico de delinqüência foram deportados, trazendo consigo o modo de vida violento. As maras evoluíram até se converter em estruturas bem organizadas e hoje mantêm o controle de numerosas cidades, principalmente na periferia de San Salvador.

A PNC (polícia civil) indica que a maioria dos homicídios e outros casos de violência é registrada em sete dos 14 departamentos (estados) do país: San Salvador, Santa Ana, La Libertad, Sonsonate, San Miguel, Usulután e La Paz.Veja mapa abaixo.

O relatórioAbrir Espaços para a Segurança Cidadã e o Desenvolvimento Humano 2009-2010, elaborado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), mostra que El Salvador, comparado com o resto dos países da América Central, é o mais violento.

No final de 2006, El Salvador registrou um total de 65 homicídios para cada 100 mil habitantes, seguido da Guatemala com 47 e de Honduras, com 46 homicídios. De acordo com o relatório, a América Central se tornou a região com os maiores níveis de violência por crimes comuns, não motivados por guerras. Cerca de 79 mil pessoas foram assassinadas nos últimos seis anos.

Operação militar

Desde a primeira semana de novembro, numerosos militares patrulham ao lado da polícia as zonas mais perigosas do território, como parte de um plano de segurança do presidente Funes.

Oscar Rivera

“Considero muito boa a medida estabelecida por Funes, tomara que os lugares deixem de ser perigosos, como aqui em Zacamil”, expressou cheia de expectativas, Maribel Rodríguez.

O plano de segurança prevê que 2.500 militares apóiem, em operações de registro de pessoas e veículos, a detenção de delinqüentes em casos de flagrante, o resguardo das zonas fronteiriças e garantam a segurança na parte externa dos centros penais e centros de menores.

O dispositivo de segurança se entenderá  pelos próximos seis meses. Ao final do prazo, Funes terá de informar a Assembléia Legislativa sobre a evolução da ação. “O problema não se resolve somente aumentando o envolvimento das forças armadas, dando apoio institucional à polícia. O problema se resolve envolvendo toda a institucionalidade do Estado”, declarou o mandatário.

Funes pediu o apoio de todos os setores do país para “enfrentar” o problema. “Estou absolutamente convencido de que a magnitude do monstro que enfrentamos nos obriga a nos unir”, disse.

Uma recente pesquisa realizada pela consultora Cid Gallup indica que 83% dos salvadorenhos avalia positivamente o uso de militares por razões de segurança.

“Se a medida funcionar, significaria muito para mim, já que poderia deixar meu filho brincar no parque ou fora do edifício”, disse, esperançosa, Maribel.


Leia a segunda parte:

Gangues usam extorsão para intimidar comerciantes

Veja mapa do país tirado do Google Earth.


Um país tomado pela delinquência

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