Sexta-feira, 3 de abril de 2026
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O senador Edward “Ted” Kennedy, cuja influência abarcou cinco gerações de norte-americanos, faleceu no último dia 25, aos 77 anos, deixando atrás um legado político e pessoal contraditório e não menos controverso.

Ao longo de uma carreira política que se estendeu por 47 anos, apresentou 2.500 projetos de lei e teve 500 deles aprovados. No ano passado, fracassou nas tentativas de reformar o sistema de imigração e deixou para trás um plano de reforma de saúde, envolvido numa das maiores polêmicas públicas dos Estados Unidos.

Tannen Maury/EFE



Foto de arquivo mostra o senador Ted Kennedy em agosto de 2008, durante convenção do Partido Democrata

No ano passado, em plena campanha presidencial, Kennedy aliou-se ao então candidato republicano, John McCain, e apresentou um ambicioso plano de reforma migratória, que previa a concessão de vistos temporais de trabalho a imigrantes sem documentação, com família constituída nos Estados Unidos.

O projeto falhou por duas razões: McCain foi incapaz de conter as críticas dentro de seu partido e Kennedy não conseguiu convencer os imigrantes e seus ativistas de que era impossível incluir na reforma todos os ilegais vivendo no país.

Quando o então candidato Barack Obama lutava pela presidência e começou a falar da necessidade de reformar o sistema de saúde pública e criar um programa de seguro para todos, o senador Kennedy deu um passo à frente e começou a divulgar a ideia no Senado.

Estava no meio da jornada quando, em setembro de 2008, teve um colapso em sua casa de Cape Cod (estado de Massachussetts) e foi levado ao hospital central de Boston. Diagnóstico: um tumor do tamanho de uma bola de golfe havia crescido silenciosamente no cérebro e os prognósticos foram assustadores. O “Leão do Senado”, o segundo senador mais velho da Câmara Alta federal, tinha menos de seis meses de vida. Viveu quase um ano.

Para trás, deixou uma grande polêmica, que dividiu o país: a conveniência, necessidade e detalhes de um plano de saúde que Obama quer para os norte-americanos, e do qual Kennedy foi um dos principais arquitetos.

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Kennedy foi um dos políticos norte-americanos que desenvolveu sua carreira orientada para os assuntos domésticos. Nunca se interessou muito por política exterior, um terreno onde se destacou em sua batalha quase visceral contra a ditadura chilena, os esforços para melhorar as relações com a antiga União Soviética e a liderança no embargo político, econômico e militar contra o regime racista da África do Sul, nos anos 70 e 80.

Há também dois detalhes em sua vida diplomática: quando o então líder sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva foi preso em 1980, Kennedy pressionou por sua liberdade e o recebeu em Washington, depois da cadeia. Também foi o primeiro que, em pleno Senado, defendeu o fim do embargo econômico a Cuba. Apesar disso, suas relações com Fidel Castro nunca se desenvolveram, porque Kennedy também deu apoio à dissidência interna cubana.

Família

A vida do senador democrata Ted Kennedy nunca foi tranqüila. Teve momentos de profundas alegrias, mas também de grandes tristezas. Enterrou seus pais, três irmãos, um filho e um sobrinho. Viveu anos de alcoolismo e divorciou-se da mãe de seus três filhos.

Kennedy foi o filho mais novo do fundador do clã, Joe Kennedy, o ex-embaixador em Londres no início da Segunda Guerra Mundial, que fez de tudo para que um descendente seu chegasse à presidência dos Estados Unidos. O irmão mais velho, Joe P. Kennedy, estava destinado a ocupar a Casa Branca, mas em 1944, nos céus da Alemanha, um Stuka nazista acabou com o sonho, derrubando o caça que ele pilotava.

Coube a John Fitzgerald Kennedy, mais conhecido por JFK, cumprir os desejos do pai. Durante pouco tempo. Nem havia completado dois anos no posto de chefe de Estado quando foi assassinado em Dallas, Texas. Em 1968, o terceiro irmão, Robert Kennedy, também foi assassinado em São Francisco, quando apresentava sua candidatura à Casa Branca. Foi a última tentativa do clã Kennedy.

Meses depois, Ted teve um desastre de automóvel em que morreu sua secretária. No meio da noite, o senador fugiu do local, avisando a polícia apenas 24 horas depois. Com a fama de mulherengo que os Kennedy tinham, foi rapidamente acusado pela imprensa de esconder um caso extra-conjugal.

Foi nessa altura que percebeu que, se queria seguir uma carreira política, deveria permanecer no Senado, onde ingressou em 1962 e permaneceu até segunda-feira passada.

Um ícone político cheio de planos ambiciosos e agruras pessoais

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