Troca de acusações contamina campanha eleitoral no Uruguai
Troca de acusações contamina campanha eleitoral no Uruguai
A pouco mais de um mês das eleições nacionais, marcadas para 25 de outubro, os candidatos à presidência uruguaia estão envolvidos numa intensa troca de acusações. Enquanto a maioria dos eleitores pede discussões sobre a gestão do futuro governo e as políticas que serão aplicadas no próximo período, os discursos dos políticos com mais chances de triunfo, José Mujica (Frente Ampla) e Luis Alberto Lacalle (Partido Nacional), têm palavras como “bêbado”, “agressor de mulheres”, “assassino” e “sequestrador”.
Contudo, como acontece habitualmente – não somente durante as campanhas eleitorais – o início da corrida presidencial foi tomado por expressões de boa vontade. “Não costumo me dedicar ao passado”, afirmou em junho o candidato da coalizão de esquerda governista, José Mujica, ao assegurar que não faria referência em sua campanha aos episódios de corrupção da administração de seu rival, o ex-presidente Lacalle, líder do opositor Partido Nacional.
Na mesma linha, Lacalle convocou em agosto, durante o ato de lançamento da campanha, todos a uma disputa eleitoral “sem queixas, sem desenterrar o passado, sem faltar o respeito com ninguém”.
Mas o clima de paz durou pouco tempo. O fim da trégua foi incentivado pelo lançamento da última pesquisa de intenção de votos da empresa Cifra, no começo de setembro, que registrou uma subida constante da Frente Ampla nos últimos meses (chegando a 46%) e uma queda de quatro pontos do Partido Nacional, que está com 32% das intenções. Com esse resultado, a Frente tem grandes chances de ganhar as eleições já no primeiro turno, o que obrigou a oposição a mudar de estratégia.
No dia 6 de setembro, durante um ato proselitista, Lacalle se referiu indiretamente à ação da guerrilha Tupamaro – que teve Mujica como líder – nos anos 1970, comparando-a com as revoluções do Partido Nacional no final do século 19 e começo do 20. “As revoluções do Partido Nacional não sequestraram nem enterraram ninguém. Nem derrubaram governos legitimamente eleitos, e sim agiram para poder votar e eleger”, afirmou.
Três dias antes, Mujica havia acusado Lacalle de desonesto através de seu blog “Pepe tal cual es”. O candidato oposicionista governou o país entre 1990 e 1994, e alguns hierarcas de sua administração foram processados por abuso de poder. Mujica assegurou que o governo da Frente Ampla, o primeiro de esquerda na história do Uruguai, é honesto porque não tolera a corrupção. “Desde março estou esperando escutar essa mesma frase, só que atribuída ao governo de Lacalle”, provocou.
Mas o nível máximo de polarização nesta campanha foi atingido essa semana, a partir da publicação de uma entrevista ao diário argentino La Nación, em que Mujica afirma que, em matéria de violações de direitos humanos, prefere a verdade à justiça, porque essa “cheira a vingança”. Apesar de em várias passagens da entrevista Mujica enviar sinais ao centro do espectro político, imediatamente a oposição o acusou de não respeitar a justiça e de não acreditar na democracia. Lacalle chegou a dizer, em um evento universitário, que os tupamaros continuavam sendo “assassinos, torturadores e sequestradores”. Mujica rebateu, acusando o adversário de bêbado e sugerindo que este batia na mulher.
Voz aos eleitores
“Dou pouca atenção a eles, pois já estou farto”, disse José Morelli ao Opera Mundi. O professor, de 59 anos, considera que a campanha deveria se centrar “menos em resgates do passado e mais nas políticas do futuro”. Apesar de ser simpatizante do Partido Nacional, não o preocupa o passado de Mujica, porque “este país é muito pacífico”. Morelli acredita que a Frente Ampla está fazendo “um bom governo, favorecendo as classes baixas”.
Para Vanessa Soria, de 22 anos, produtora rural do norte do Uruguai, Mujica “tem um passado sem segredos, não o esconde”. Ela prefere falar das conquistas do governo atual, que reativou o cultivo da cana de açúcar em Bella Unión, o estado onde vive. Enquanto conta “como o governo contribuiu para a promoção de projetos sociais”, ao seu lado, uma mulher de idade avançada acena positivamente com a cabeça.
Nenhum dos entrevistados pelo Opera Mundi conseguiu se lembrar sequer de uma das frases ditas por Mujica e Lacalle nas últimas semanas.
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