Domingo, 19 de abril de 2026
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O futuro embaixador dos Estados Unidos no Brasil, que ainda aguarda ser recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para lhe entregar as credenciais e assumir o cargo, é um caso raro dentro da atual diplomacia norte-americana. A nomeação de Thomas Shannon Jr. parece ser resultado de um sutil trabalho de Brasília que contou com o empenho pessoal de Lula, mas também é um exemplo da política do presidente Barack Obama de não se desfazer de funcionários experientes do governo anterior.

Durante os dois últimos mandatos do Partido Republicano, Lula conseguiu manter um diálogo pessoal e fluido com o então presidente, George W. Bush. No princípio, alguns observadores tiveram dificuldade para entender o gesto. Mas à medida que Lula continuou viajando para Washington e conseguindo acalmar as preocupações da Casa Branca, as dúvidas desapareceram. Trabalhando naquilo que os unia e não no que os separava, o presidente conseguiu algum apoio de Bush para o desenvolvimento dos biocombustíveis e manteve os EUA abertos ao mercado aeronáutico brasileiro.

Lula sempre teve o cuidado de interpretar para os norte-americanos a realidade da região, num momento em que Washington tinha dificuldades para entendê-la e virou as costas. Por exemplo, foi ele quem acalmou as preocupações dos norte-americanos sobre as verdadeiras intenções de presidentes como o venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa.

Um dos poucos diplomatas em Washington que entendeu as intenções de Lula e o escutou com atenção foi justamente Thomas Shannon, então secretário de Estado assistente para o Hemisfério Ocidental (ou seja, o responsável pelas Américas), homem cosmopolita que domina português e espanhol, e conseguiu atrair a atenção do presidente brasileiro com uma linguagem simples e compreensível.

A cada preocupação brasileira, Shannon respondia abrindo as portas do governo republicano e, por debaixo da porta, deixava a mensagem de consenso brasileira. Sua relação com Lula e seus bons contatos com o Itamaraty – que, em certos níveis, não esconde uma preferência pelo norte-americano – permitiram que o presidente brasileiro fosse o primeiro chefe-de-Estado a visitar Obama na Casa Branca, em março de 2009.

Shannon, de 49 anos, é graduado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, pertenceu ao Conselho de Segurança de Bush, no qual se encarregou das relações com a América Latina, foi embaixador na OEA (Organização dos Estados Americanos) e esteve destacado nas embaixadas norte-americanas em Caracas, Guatemala, Gabão e África do Sul. Entre 1989 e 1992, foi assessor especial do embaixador norte-americano em Brasília. A fase mais importante de sua carreira foi vivida à sombra de governos republicanos num momento em que estes não gozavam de muita popularidade no mundo.

Profissionalismo

Para Shannon, manter uma boa interlocução com o Brasil não foi difícil. Os que o conheceram ao longo de 25 anos no Departamento de Estado dizem que é um diplomata nato. Ele só parece lamentar, acrescentam, a incapacidade de conseguir uma relação amistosa entre Chávez e Bush.

Mas a verdade é que também houve um momento em que – com exceção da Colômbia – o Brasil era o único dos grandes países da região que atendiam os telefonemas de Shannon. O resto não perdia tempo com ele.

Para o analista Brandon Bloch, do Conselho de Assuntos Hemisféricos, o diplomata “combina um senso de profissionalismo com um interesse professo em estimular as instituições democráticas na região, mas também a promoção do desenvolvimento econômico”.

E justamente um dos poucos terrenos onde Shannon não avançou muito foi a cooperação econômica regional. Ele chega a Brasília sem ter conseguido a aprovação do tratado de livre-comércio com a Colômbia, um de seus objetivos nos últimos anos. Agora é impossível, porque a nova adminsitração da Casa Branca se opõe.

Contra a corrente



Mesmo assim, segundo estudo publicado por Brandon Bloch, “desde o início no posto [de subsecretário], Shannon rejeitou a aproximação demagógica e de enfrentamento para com a América Latina, conduzida pelos antecessores, [Otto] Reich e [Roger] Noriega, e desenvolveu um estilo de diplomacia não ideológico e racional”.

“Quando as relações entre os EUA e a América Latina ficaram tensas nos últimos oito anos, Shannon foi capaz de aproximar-se dos líderes democráticos da esquerda continental ao enfatizar a áreas de interesse mútuo quando um conflito parecia inevitável”, acrescentou o analista.

Foi uma época em que Shannon nadou contra a corrente. Tanto Chávez quanto Morales criticaram constantemente os EUA. Mas as críticas eram dirigidas diretamente à Casa Branca. Em poucas ocasiões, o diplomata foi alvo pessoalmente.

Nesse período, tanto Caracas quanto La Paz chegaram ao ponto de expulsar os embaixadores norte-americanos. Para horror de Lula, Evo Morales apareceu numa reunião de cúpula em Salvador, Bahia, pedindo que todos os países da região expulsassem os embaixadores dos EUA.

 Alem da retórica e das trocas de acusações, nenhum dos grandes sobressaltos bilaterais teve a ver diretamente com o Departamento de Estado, nem houve corte de relações. O pior que aconteceu nesse período foi a expulsão da representação da DEA (agência anti-drogas dos EUA) da Venezuela e da Bolívia e o fim da cooperação militar, que dependia do Pentágono.

Leia a segunda parte:

Longe dos coquetéis, a diplomacia dos churrasquinhos

Thomas Shannon: a opção pelo diálogo

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