Quarta-feira, 8 de abril de 2026
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Na tentativa de encontrar um caminho para as reformas, a classe dirigente de Cuba tem olhado para outros regimes socialistas do mundo que sobreviveram à derrocada de 1989 tentando equilibrar justiça social e liberdades de iniciativa. Entre os modelos, destacam-se a gigante China – cujo crescimento acelerado dos últimos anos elevou-a ao nível de superpotência – e o pequeno Vietnã, que também adotou mudanças estruturais em direção ao “socialismo de mercado”, mas sem os ônus da repressão política interna. Na parte final da entrevista, a pesquisadora Janette Habel comenta a relação de Cuba com estes países, com outros da América Latina e com o histórico vizinho inimigo: os Estados Unidos.

Nos últimos anos, assistimos a uma aproximação com os dirigentes chineses e vietnamitas. Isso é o sinal de uma vontade de seguir o modelo de transição desses paises?

O certo é que os cubanos estão mais interessados no modelo vietnamita que no chinês. Eles são fascinados pelo sucesso econômico do Vietnã. O regime estuda cuidadosamente os outros processos de reforma porque está consciente de que as mudanças terão um custo social. O caso do Vietnã mostra que a transição de uma economia planificada para uma “economia de mercado socialista” (como é chamada pelos líderes vietnamitas) pode ocorrer sem causar instabilidade política. Aliás, a prioridade dada à agricultura, a repartição de terras produtivas para os camponeses, os investimentos estrangeiros (que acabam de ser permitidos em Cuba, para o setor do açúcar), e as adaptações previstas das taxas de câmbio para pôr fim à dualidade monetária, são todas reformas inspiradas na experiência do Vietnã.

A transposição destes modelos para a ilha é possível?

O problema é que Cuba não é comparável à China e ao Vietnã, nem pela situação geopolítica, nem tamanho, recursos econômicos, história ou cultura. Muitas autoridades cubanas sublinham que este famoso “socialismo de mercado” que foi introduzido nestes países é na verdade um “capitalismo selvagem” protegido pelo Estado e pelo Partido. O comportamento das empresas chinesas é tão predatório quanto o das transnacionais do norte. Além disso, as desigualdades que este “capitalismo de partido” implica podem ser toleradas em Pequim e Hanói, mas elas seriam mal aceitas em Havana, onde a cultura igualitária e de redistribuição é forte.

O que mudou com a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos?

A administração do presidente Obama anunciou uma flexibilização do embargo, com a promessa de liberalizar as remessas e as viagens dos familiares de cubanos à ilha, que foram drasticamente limitadas por George W. Bush. Mas é importante notar que não são os EUA que sinalizam a mudança. Ao contrário: eles estão se adaptando ao resto do mundo, já que Cuba já conseguiu há alguns anos sair do isolamento internacional. Podemos lembrar a visita do comissário europeu para o Desenvolvimento, Louis Michel, e o levantamento das sanções aplicadas pela União Europeia desde 2003. Por outro lado, a China reforçou seus laços com a visita do presidente chinês, Hu Jintao, e com a assinatura de dez acordos bilaterais (incluindo a compra do açúcar e do níquel cubanos) e a reestruturação da dívida de Cuba. Pequim é agora o segundo maior parceiro comercial da ilha, atrás da Venezuela. O presidente russo, Dmitri Medvedev, também visitou a ilha em 2008, enquanto a Rússia participava de manobras militares no Caribe com a Venezuela. Para Moscou, desenvolver relações com Caracas e Havana é uma maneira de reagir aos planos dos EUA de instalar escudos antimísseis na Polônia e na República Tcheca.

E, na América Latina, Cuba conseguiu construir laços importantes?

Mais do que nunca, já que o regime tem o apoio dos presidentes mais importantes da região. Evidentemente, é o caso de Hugo Chávez, mas também do presidente Lula. Além disso, outros líderes latino-americanos se aproximam de Cuba, aproveitando para marcar distância de Washington. Em 16 de dezembro de 2008, uma reunião no Brasil comemorou a reintegração de Cuba no Grupo do Rio, e 33 países da América Latina e do Caribe reafirmaram sua condenação às sanções americanas contra a ilha. Depois da viagem de Lula, em 2008, Havana foi visitada em 2009 pelos presidentes da Argentina, do Chile, do Equador, da Guatemala, de Honduras, da República Dominicana e da Venezuela. O presidente mexicano, Felipe Calderón, também anunciou uma visita. Na Cúpula das Américas, realizada em Trinidad e Tobago em abril de 2009, na presença de Obama, os líderes latino-americanos exigiram do presidente norte-americano a normalização das relações com Cuba.

Os EUA estão preparados para esta normalização, especificamente a suspensão do embargo?

A flexibilização prometida pelo governo Obama avança com passos muito lentos, devido ao poder do lobby cubano-americano. Mas as negociações e as conversas informais são muito importantes. Ambos os lados sabem que a normalização tem de ser organizada com prudência. Do lado norte-americano, as barreiras legislativas e políticas são importantes. Em Cuba, o desafio é organizar a transição de meio século de conflito e de confronto para uma nova relação que permitiria a Cuba salvaguardar sua independência e as principais conquistas sociais.

Leia primeira parte:

Cuba vive desafio de reformar sem desestabilizar

Leia segunda parte:

Mudanças dependem de jogo de forças na sociedade cubana

Terceira parte: Reformistas em Cuba tomam Vietnã como modelo, apesar de diferenças

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