Terça-feira, 9 de junho de 2026
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A ultradireita encontrou entre os mais jovens um importante nicho ao qual se dirigir com resultados eficientes. O descontentamento da juventude com relação ao sistema neoliberal se veicula em dois caminhos opostos: a reacionária, que busca um líder forte e de ruptura que solucione a falta de aspirações de forma imediata; e outra, emancipadora, através da integração de movimentos sociais. Steven Forti, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e autor de Extrema derecha 2.0. Qué es y cómo combatirla (em tradução livre para o português, Extrema-direita 2.0. O que é e como combatê-la. Editora Siglo XXI, 2021), disseca a relação entre o eleitorado mais jovem e o fenômeno global da ultradireita, assim como a importância de não taxá-la de fascista. 

Em seu livro, você aborda o tipo de conexão que os jovens mantêm com a política. Segundo um estudo da Universidade de Cambridge em 2020, os millennials (nascidos entre 1987 e 1996) são a geração mais descontente com a democracia. A que se deve esse fato? 

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Teria que analisar o por que desse “não”. O ponto chave que eu vejo aqui é que não estão contentes com “esta” democracia. Também partimos da premissa de que, historicamente, na juventude sempre se encontraram críticas ao sistema vigente nas democracias liberais.

A questão se entrelaça com a crise generalizada destas democracias liberais. Para muitos jovens, é difícil ver seus sonhos e objetivos não sendo cumpridos devido ao sistema econômico reinante nas últimas quatro décadas, o neoliberalismo. A isso se soma o desprestígio e a desconfiança com relação às formações políticas tradicionais: se nas décadas dos 50, 60, 70 e 80 não era uma exceção que um ou uma jovem pudesse se filiar a um desses partidos, agora é muito mais raro que aconteça.

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Menos de 30% dos millennials espanhóis estão satisfeitos com a democracia atualmente.

No caso da Espanha, tudo o que aconteceu depois de 2008 influencia muito. Não é coincidência que justamente na última década tenha morrido o bipartidarismo e tenham entrado em cena novos atores. Fendas foram se abrindo num modelo que parecia muito estável, o chamado regime de 78, ainda que eu não goste muito da expressão. Isso sim é característico da Espanha, mas o fenômeno se nutre de dinâmicas em que grandes traços são compartilhados pela maioria dos países ocidentais.

Segundo um levantamento, metade dos jovens italianos defende a necessidade de um líder forte e apoiaria uma democracia sem partidos políticos. Aos jovens, a priori, não lhes interessa a política, mas fazem destas ideias suas. Por quê? 

A insatisfação ao não ter oportunidades laborais e de que a realização pessoal é quase inexistente se une com ideias e visões simplistas, como se a política não servisse para nada. Às vezes, essas críticas são corretas, como quando denunciam que a política institucional não realiza mudanças rápidas sobre questões e problemas que são urgentes. Claro, em um regime autoritário, como é uma empresa, não há nenhum tipo de debate. Neles alguém decide o que fazer, esse suposto líder forte, e tudo é muito mais rápido, mas a democracia acarreta em uma série de tempos mais lentos, ainda que não diga que em alguns casos deveria acelerar.

Por outro lado, muitos jovens começam sua vida política formando parte de movimentos sociais como Fridays for Future e organizações feministas. O que faz com que a moeda caia de um lado ou outro, que um jovem engrosse as filas reacionárias ou emancipatórias?

É algo difícil de saber porque depende do contexto em que se encontre, além do próprio interesse e curiosidade sobre determinadas condições que ele tiver.

Historiador, autor de 'Extrema-direita 2.0. O que é e como combatê-la', disseca a relação entre o eleitorado mais jovem e o fenômeno global da ultradireita

Reprodução

Forti: Taxar de fascista um líder das novas formações de extrema direita ‘não faz sentido’

Os estudos nos oferecem uma leitura dupla do fenômeno. Por um lado, ultimamente têm surgido diferentes movimentos sociais como os mencionados protagonizados por muitos jovens. Se você combinar essas duas visões, voltamos à tese de que esta parcela da população mostra mais seu descontentamento com “esta” democracia do que com a democracia em si. 

Em outros casos, o aborrecimento leva a votar em opções que se apresentam como de ruptura, que são essas novas extremas direitas, sobretudo quando buscam o voto dos jovens nas redes sociais. Assim aconteceu com Marine Le Pen na França, Salvini na Itália, também com o Vox na Espanha, já que a nível de retórica e discurso jogam muito com o mundo online, onde milhares de jovens se informam e acompanham os acontecimentos atuais.

A ultradireita também se aproveita de eleitores jovens que não simpatizavam com seus dogmas antes. É possível distinguir os líderes dos eleitores rasos?

É uma questão interessante, mas essa pergunta vale para qualquer partido político. No caso concreto de Vox, é verdade que há um voto de convencimento ideológico, mas também outro de protesto, e outro, inclusive, que se realiza pelo mero interesse pessoal, assim que é possível sim distingui-los. É verdade que o Vox tem muitos eleitores novos, mas é que no caso dos jovens, a maioria votou pela primeira ou segunda vez, tendo em conta que o partido apareceu praticamente em 2018.

Continuando com os eleitores, você acha que taxar de fascista qualquer pessoa que vote na extrema direita é uma boa estratégia para combatê-la ou polariza o cenário ainda mais?

Não acho que seja uma boa estratégia, além de que se trata de um erro a nível conceitual. O fascismo foi uma ideologia e um movimento político que existiu nos anos de entre guerras, assim que taxar de fascista um líder dessas formações de extrema direita não tem sentido. 

Dizer que qualquer um de seus eleitores é um ultradireitista não é útil se o objetivo é evitar que essas formações aumentem seu consenso na população. De fato, isso acaba polarizando o cenário muito mais e temos que lembrar que esses partidos jogam muito com o vitimismo. Se você define como fascista qualquer pessoa que vote neles, o que você vai conseguir é que essa pessoa se veja reforçada pela acusação. 

A nível eleitoral, não creio que falar do perigo fascista seja uma estratégia correta. Agora, isso não quer dizer que as novas extremas direitas não sejam um perigo: para mim são a principal ameaça às democracias, mas chamá-las de fascistas não tem sentido e é contraproducente.

Falando em estratégias, de que maneira a extrema-direita se aproxima dos mais jovens? 

Já vimos líderes políticos como Salvini e partidos como o Vox que, além de usar Twitter, Facebook e Instagram, têm contas no TikTok, uma rede social direcionada para adolescentes. Nesse sentido, o formato também é importante. A Liga Norte [partido de extrema direita italiano], direcionando para quais perfis vão chegar suas mensagens no Facebook, produziu propaganda dirigida explicitamente a menores de idade, pensada para adolescentes e crianças que, por meio de desenhos animados, veiculam suas mensagens. A memeficação da política é outra de suas ferramentas, como o uso do tom irônico.

Embora em muitos casos nos movamos entre hipóteses, estas formações exploram muito a crítica ao politicamente correto e ao que denominam como a ditadura progressista.

Se o descontentamento dos jovens é um fato, o que poderiam fazer para que sua insatisfação com “esta” democracia servisse para melhorá-la?

Participar da vida pública, da “res publica”. Os jovens, ainda que sejam críticos à realidade, deveriam pensar que se não fazem nada, as coisas também não mudarão. Participar da vida associativa, dos movimentos sociais, pode ser uma boa ideia.