Show em Havana evidencia racha entre gerações cubano-americanas em Miami
Show em Havana evidencia racha entre gerações cubano-americanas em Miami
O concerto pela paz do cantor colombiano Juanes teve uma repercussão única em Miami: trouxe à tona a profunda divisão existente entre as distintas gerações do exílio cubano.
Em uma cena inédita nos 50 anos de exílio cubano, enquanto Juanes e outros 14 artistas se apresentavam em Havana, um grupo de jovens cubano-americanos enfrentou uma manifestação promovida por antigos exilados, conhecidos militantes da extrema-direita local, e conseguiu tomar o controle da rua.
O incidente aconteceu em pleno coração da Pequena Havana, diante do restaurante Versailles, mais conhecido em ambientes políticos como o “Pentagonito”, pelas décadas de tentativas de conspirações anticastristas realizadas ali.
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A manifestação contra o show foi convocada dias antes pela organização Vigília Mambisa, que anunciou que destruiria na calçada discos de todos os músicos que foram a Havana. O ato foi marcado para as 18h e perto do horário, um grupo de exilados começou a se reunir na esquina em frente ao “Pentagonito” com palavras de ordem como “Fora Juanes e os comunistas que foram cantar para o tirano” e “Abaixo Juanes, comandante das Farc castristas”, numa menção à guerrilha colombiana.
Tudo seguia calmo até que, pouco a pouco, começaram a chegar jovens com cartazes de apoio ao concerto. Primeiro houve um diálogo azedo, depois um tapa e logo em seguida, um empurrão. Ali começou o pandemônio. A policia interveio, pediu reforços e começou a prender os desordeiros, a maior parte entre os manifestantes anti-Juanes.
Acalmados os ânimos, os jornalistas no local constataram que os cerca de 500 jovens haviam conseguido expulsar por volta de 50 opositores para o outro lado da rua, num gesto absolutamente novo na política da cidade. Pela primeira vez na história do exílio, uma geração mais nova tomou o controle do espaço diante do “Pentagonito”, até então um espaço exclusivo da direita exilada.
“Eu não gosto do Fidel, não tenho nenhum problema em dizer ‘abaixo o Fidel’, mas também grito ‘viva Juanes’, porque ele levou cinco horas de alegria ao meu povo”, disse ao Opera Mundi Yadira Martinez, uma jovem cubana de 23 anos, que chegou ao sul da Flórida há três anos.
“Isto foi o melhor que aconteceu ao povo cubano”, afirmou Orlando Myares, o namorado da jovem, referindo-se ao concerto.
Do outro lado da rua os manifestantes organizados pela Vigília Mambisa respondiam apelidando os jovens de “comunistas”, com gritos de “Juanes, al carajo” e dando vivas “aos presos políticos cubanos” e a “Cuba Livre”.
Visivelmente histérico, o presidente de Vigília Mambisa, o eletricista Miguel Saavedra, chegou a acusar os policiais de “agentes de Fidel Castro”, porque impediam o grupo de “recuperar” o controle do Pentagonito. “Isto é uma vergonha nacional. Essa polícia foi mandada aqui por Obama para defender os comunistas, os castristas. Isto é o que está acontecendo agora na América, estamos indo rumo ao comunismo”, gritou Saavedra, aos jornalistas.
Segundo ele, o fato de que “quatro ou cinco artistas comunistas” foram cantar em Havana, “não muda nada, porque toda mudança em Cuba só vai acontecer quando o povo quiser”.
EFE (20/9/2009)

Público assiste ao show de Juanes em Havana
Momento histórico
“Ontem vivemos nesta cidade um momento histórico, o momento em que esta comunidade começou a perceber que esteve enganada durante muitos anos”, comentou ao Opera Mundi Raul Martinez, o antigo prefeito da cidade de Hialeah, o maior núcleo habitacional de cubanos, da área metropolitana de Miami.
Segundo o analista da Universidade Internacional da Florida, Daniel Alvarez, “foi um momento único em Miami” porque representa “o início de uma evolução” dentro do exílio cubano.
“O que quero dizer é que de Miami veremos ser ampliada uma esquerda exilada, real, que ao mesmo tempo em que transmite uma mensagem muito mais positiva, também admite que há coisas em Cuba que devem ser assinaladas, como é o caso dos presos políticos ou o difícil acesso ao exterior, cuja existência não se percebe”, sublinhou ao Opera Mundi.
“As pessoas devem perceber que há uma divergência de gerações e já temos toda uma geração que não se deixa convencer facilmente por uma linguagem de Guerra Fria, totalmente fora da realidade”, acrescentou Alvarez.
Meios de comunicação
A indignação dos jovens não foi vista apenas nas ruas. O show foi transmitido por quatro canais hispânicos de Miami, porém, a música foi muitas vezes sobreposta pelos comentários políticos dos apresentadores nos estúdios, o que incomodou muita gente na cidade.
A pressão foi tão intensa, refletida por meio de emails e telefonemas com queixas, que os canais acabaram interrompendo as narrações. Outra situação inédita em Miami, onde nunca um canal de televisão tinha interrompido comentários anticastristas por pressão do público.
Ontem à noite, o cubano Alexis Valdés, um dos mais populares apresentadores e atores de televisão de Miami, não escondeu da audiência sua opinião sobre o que aconteceu domingo na Praça da Revolução em Havana. “A praça é um lugar onde sempre se falou de sacrifícios e guerras. O fato de que alguém tenha levantado o tema da paz, das transformações e a necessidade de uma Cuba livre, me parece extraordinário e saúdo Juanes por isso”, disse.
Valdés continuou: “Não sejamos idiotas, Juanes foi a primeira pessoa que em 50 anos foi àpraça pedir liberdade para todos os presos do mundo. Além disso, proporcionou um momento de alegria ao meu povo e só por isso eu sou eternamente grato”.
Assista a um trecho do show de Juanes, do site notascongabi.com:
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