Segunda parte: Relação entre governos e fotógrafos mudou depois da guerra do Vietnã
Segunda parte: Relação entre governos e fotógrafos mudou depois da guerra do Vietnã
Leia a segunda e última parte da entrevista com o fotógrafo italiano Francesco Zizola, em que ele fala da censura a que os profissionais da imagem foram submetidos na Guerra do Iraque, em 2003.
Depois da guerra do Vietnã, em que a fotografia foi fundamental para tirar o apoio da opinião pública norte-americana, como os governos lidaram com o poder da imagem?
Nos Estados Unidos, mudou profundamente a relação com os fotógrafos. Durante a segunda Guerra do Golfo, por exemplo, os únicos jornalistas que receberam autorização do exército americano para trabalhar tiveram que assinar um contrato no qual concordavam em submeter suas fotos à censura do Pentágono. Claro que eu nunca aceitei, e tive que dar um jeito de entrar no Iraque sozinho, com todos os perigos que isso supõe. Não sou o único, mas somos poucos. A grande maioria dos jornalistas topou. Também foi proibido publicar nos Estados Unidos imagens de soldados feridos ou mortos. Aos americanos, é negada parte da realidade. Isso nos lembra que a censura da imagem é muito superior à do texto, porque tem uma relação muito forte com a verdade. Intelectualmente, sabemos que a fotografia é somente uma representação, mas a aceitamos como a realidade. Basta ver os documentos de identidade: no mundo inteiro, é a foto que comprova a identidade.
Com a foto digital, esta relação com a verdade vai permanecer?
A manipulação não é uma coisa recente, principalmente nas mãos das autoridades. Todos os presidentes a usaram. Por exemplo, há uma foto de Stalin com seus companheiros que foi publicada em três épocas distintas. Cada vez, um dos presentes some da foto: tinha virado inimigo político. Só que naquela época, você precisava de um bom artesão para fazer o trabalho. Agora, manipular uma foto na pós-produção é muito fácil. Por exemplo, as mulheres das revistas são sempre perfeitas…
As novas tecnologias desnaturalizam a fotografia?
Não quero dar a impressão de que acho estas tecnologias negativas. É também uma fonte de democratização, como já falei, com a divulgação de informações vindas de regiões menos visíveis, onde a censura não deixava nada sair. As fotos que tivemos das torturas na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, foram tiradas pelos próprios torturadores e escaparam à censura do exército… Em geral, eu sou de natureza pessimista. Mas ainda acho que há mais motivos para comemorar nas novas tecnologias.
Este problema da censura e do controle por parte dos governos piorou?
Na Europa, não há dúvida. O exemplo da França é eloquente. Ironicamente, foi neste país que nasceram a fotografia e o fotojornalismo. Mas a fotografia, como representação da verdade, provoca medo. Este medo foi neutralizado por uma legislação muito restritiva, em nome do direito à privacidade. Hoje, na França, a única forma de fotografar é ter o consentimento dos fotografados, mesmo se eles são ilustres desconhecidos na rua. O trabalho que fez Robert Doisneau nas ruas de Paris seria impossível hoje. É uma grande perda para o país, porque a imagem é também memória e documentação. A fotografia mais banal, ao longo do tempo, toma uma dimensão histórica e permite a transmissão de informações sobre tempos que esquecemos. A memória visível da França vai até o início dos anos 90. Há uma década que não acumulamos mais documentação real.
O que o senhor fala aos jovens que querem ser fotógrafos?
Confesso que não sei mais o que dizer para eles. Para a minha geração, existem ainda algumas oportunidades de trabalho, porque temos um nome. Mas para os aspirantes, é muito difícil. Alguns querem se dedicar ao fotojornalismo porque ainda acham que é uma forma de denunciar a injustiça, vendo na foto um instrumento de mudança social. Mas na realidade, para pagar as contas, eles tem que fazer cada vez mais publicidade ou trabalho institucional para empresas.
Quais são as perspectiva para eles?
Eles têm que esperar a próxima mudança tecnológica com a generalização da internet, que é uma plataforma muito mais democrática, já que a estrutura de controle é horizontal, não vertical. Também surgirão outros produtos, para responder à demanda de uma audiência que quer algo diferente de um jornal e da televisão, produtos mais interativos. Os editores vão ter que inventar diferentes formas de linguagem, a partir do que existe. No caso do fotojornalismo, já existem experiências de pós-produção, usando o movimento de uma câmara dentro da foto, a inserção de sons, uma música, uma testemunha. É uma coisa híbrida, nova. Agências como Magnum já estão propondo novos produtos com esta tendência.
Mas precisa-se de mais recursos humanos e financeiros para desenvolver estes novos produtos….
Exatamente. Tudo isso tem custos de pós-produção que não existiam originalmente na fotografia. Este modelo não pode funcionar com internet gratuita. Aliás, eu considero que internet gratuita é o fim da informação. Acho que pode, e deve, fornecer conteúdos de utilidade pública de maneira gratuita, estimulando o interesse em outros produtos, destinados a serem pagos. Por exemplo, mostrar as cinco primeiras linhas de um artigo, ou uma seleção de imagens de dois minutos de um documentário. Se a pessoa tiver interesse, tem que pagar. Porque aceitamos pagar para assistir ao futebol na televisão e não para ter acesso a uma informação de qualidade?
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