Segunda parte: Pobres nem sempre tiveram a atenção necessária das equipes de resgate
Segunda parte: Pobres nem sempre tiveram a atenção necessária das equipes de resgate
Simone Bruno/Opera Mundi

Uma das questões mais delicadas ao se avaliar os estragos causados pelo terremoto no Haiti é a discrepância entre ricos e pobres. Os mais abastados de Porto Príncipe, que vivem na parte alta da cidade, mal foram afetados pelo tremor. E os mais pobres nem sempre tiveram a atenção necessária das equipes de resgate, segundo constatou a reportagem do Opera Mundi.
No alto da Montagne Noire, encontra-se o hotel Ibo Lelé. Elsa Baussan, a diretora, conta tranquila: “Nesta área, não há quase nenhum edifício afetado. E em nosso hotel, nenhum dano. Nossa despensa estava cheia e não notamos escassez de nenhum produto até agora. Mas não sei se começaremos a perceber isso mais tarde, pois não está havendo reabastecimento.”
Na parte baixa, Oscar Guevara, chefe de uma das equipes da defesa civil colombiana que participam das operações de resgate, não esconde a amargura.
“As operações de resgate coordenadas pela ONU são uma farsa. Já estive em vários desastres. Normalmente, somos designados para uma área e, com o grupo de resgate, buscamos sobreviventes em toda essa área. Visitamos os edifícios danificados, conversamos com as pessoas, usamos os cães, organizamos as escavações e salvamos gente. Aqui, tudo é ao contrário. A prioridade não são as pessoas, e sim o pessoal internacional ou os moradores dos bairros ricos. Quando cruzamos a cidade da base logística até aqui, vemos centenas de casas em ruínas, pessoas desesperadas que nos pedem ajuda, mas não podemos fazer nada, não podemos ajudá-los, não nos permitem. Veja: estamos aqui no hotel esperando, enquanto tudo aquilo acontece lá fora”.
De fato, o cenário de Centre Ville, o centro da cidade, é de completa destruição e não vemos ninguém escavando os escombros, onde o cheiro de cadáveres é cada dia mais forte.
Segundo Nicolas Martou, voluntário do Programa Mundial de Alimentos, a realidade é outra: “Não creio que a ajuda se concentre apenas em certas áreas. Sobretudo, não existe discriminação entre ricos e pobres. As equipes de resgate têm trabalhado duro para retirar o maior número possível de pessoas dos escombros. O problema é que o número de vítimas é alto demais. Sei que muitos criticam as operações de resgate e ajuda, mas é certo que nunca havíamos enfrentado uma tragédia com essas dimensões”.
Guido Bertolaso é diretor da defesa civil italiana e especialista em desastres naturais. Além de sublinhar a diferença de tratamento dos ricos e pobres na política dos resgates, ele falou sobre a organização entre os diversos grupos internacionais presentes no Haiti. “Ainda não entendi quem comanda esta grande máquina da ajuda. Depois de passar dias falando com todos – presidente da República, primeiro-ministro, responsáveis da ONU, organizações não governamentais – não se consegue saber quem comanda a organização do socorro internacional. É um sinal negativo”.
Segundo Bertolaso, este papel deveria ter sido assumido desde o primeiro dia pelas Nações Unidas, em estreita relação com o governo local e em coordenação com os grandes países, a começar pelos Estados Unidos, França, Brasil e os demais. “Pelo contrário, todos fazem coisas por conta própria, também louváveis, mas que não são coordenadas. E quem paga o preço são as pessoas que teriam de receber a ajuda.”
A desorganização é confirmada por Hector Mendez, chefe dos Topos, o histórico grupo de socorristas da Cidade do México criado após o terremoto de 1985. “Somos voluntários, ninguém nos paga para estarmos aqui. E tivemos muitos problemas com a organização dos resgates. Pessoalmente, briguei com o chefe Downey, do Condado de Dade, na Flórida, porque eles não permitiam que resgatássemos as pessoas em um bairro pobre. Porque a prioridade eram os que estavam em áreas ricas. Eu lhe disse que, como fui retirar pessoas das Torres Gêmeas sem nenhum preconceito, pretendia resgatar pessoas nos bairros onde precisavam de nós. Mas cada dia é uma briga contínua. E não nos deixam atuar à noite. Os Topos são famosos porque se metem onde ninguém se mete. Se é necessário, comemos e dormimos sob os escombros. E nada nos provoca náuseas. Somos pessoas comuns e resgatamos a todos. Aqui, no entanto, parece que não funciona assim”.
Simone Bruno/Opera Mundi

Escombro obstrui passagem em rua da capital haitiana: muito peso e pouca qualidade
Prédios frágeis e pesados
Noves fora as divergências sobre o resgate, o fato é que haveria menos vítimas se as construções fossem decentes. “O concreto? Veja, este hotel caiu graças ao próprio peso, as pessoas não tiveram tempo nem de tentar escapar”, mostra Oscar Guevara. “As colunas não têm aço suficiente e o cimento é muito frágil e pesado. Com um terremoto, elas podem trincar, mas aqui caíram, e o piso desmoronou andar sobre andar, como se fossem panquecas”.
Realmente, a impressão que se tem observando o modo como ruíram os edifícios em toda Porto Príncipe confirma a hipótese de Oscar. Parecem caídos como se não tivessem colunas, esmagando tudo o que havia no meio, inclusive as pessoas. “O concreto das edificações falhou e, ao que parece, as operações de resgate também”, continua Oscar. Os socorristas colombianos trabalham no hotel Montana, o mais luxuoso da cidade: tinha piscinas, SPAs, arquitetura arrojada e era sede do Rotary Club. O prédio se transformou em uma armadilha mortal para os hóspedes.
Eduardo Fierro, um dos primeiros engenheiros especializados em terremotos a chegar ao Haiti, vindo dos Estados Unidos, diz: “Um dos princípios básicos da arquitetura é o de criar as estruturas mais leves possíveis. Estas são muito pesadas. Aparentemente, é assim que se constrói por aqui. E os reforços de ferro são frágeis. É pouco para suportar o peso dos edifícios. Além disso, as colunas que apoiavam os andares mais altos não eram reforçadas com concreto armado. O fato é que só os edifícios dos mais ricos são construídos com critério. A maioria da cidade é malfeita. E não creio que a situação vá melhorar, porque as casas que começam a ser reconstruídas são feitas da mesma maneira.”
Diante das cenas dos grandes barcos que deixam o Haiti cheios de pobres desesperados que perderam tudo, surge outra pergunta, menos óbvia: aonde foi parar a classe endinheirada do Haiti depois do terremoto de 12 de janeiro? Pode-se responder, em parte, percorrendo os hotéis de luxo da avenida George Washington de Santo Domingo, o Malecón, na República Dominicana.
Grande parte dos ricos haitianos, que em muitos casos nem perderam suas casas, pois foram bem construídas, tomou um avião para os Estados Unidos, a Europa e outras partes do mundo, mas há também muitos que preferem permanecer perto de seu país destruído. Para eles, o lugar ideal parece ser a vizinha República Dominicana. Desde o dia 12 de janeiro, tornou-se comum encontrar cidadãos haitianos caminhando pelos corredores de hotéis como o Hilton do Malecón Center e outros centros similares desta via.
“Mas não de trata de haitianos humildes, e sim de gente muito refinada, incluindo os brancos, loiros e de olhos azuis que só se identificam como haitianos pelo sotaque e o modo de falar espanhol”, comentou uma jovem que limpa os quartos do hotel Hilton de Santo Domingo, pedindo para não ser identificada.
Federico Mastrogiovanni/Opera Mundi

Os pisos dos prédios ruíram como se fossem panquecas
Leia a primeira parte:
A poucos minutos dos escombros, champanhe a 150 dólares
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