Terça-feira, 7 de abril de 2026
APOIE
Menu

Por trás do debate sobre a suposta corrida armamentista na América do Sul, está a discussão sobre o grau real de tensão que existe em um continente comumente chamado de pacífico.

A pesquisadora argentina Carina Solmirano, do Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Suécia), diz que o órgão prefere não usar o termo “corrida armamentista”. “Isso implicaria que a renovação militar dos países teria que ser competitiva e dirigida contra vizinhos ameaçadores. Há poucas evidências disso na América do Sul”, diz.

Mas na opinião do coronel Geraldo Cavagnari, membro-fundador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp (Universidade de Campinas), há muitos conflitos no continente, envolvendo especialmente disputas por território.

“Você pensa que é calma a América do Sul? Tem contencioso da Bolívia com o Peru, do Paraguai com o Chile, porque a Bolívia é a grande perdedora, perdeu terras para todos esses países e inclusive a saída ao mar. Tem problemas entre Chile e Argentina, na disputa pelo canal de Beagle… E a Venezuela é o inimigo número 1 da Colômbia e vice-versa. Por isso, não se engane: as bases norte-americanas estão aí por isso mesmo. É uma segurança para a Colômbia”.

Cavagnari aponta para um reordenamento de forças no continente depois do enfraquecimento da influência americana nos últimos anos. “As relações militares dos EUA não são as mesmas de antes com qualquer um dos países sul-americanos. Durante o século passado havia a potência hegemônica que era de certo modo pacificadora na região. E havia um inimigo comum. Não quero dizer que a estabilidade venha a desaparecer, mas não vai ser mais tão tranquilo quanto foi na guerra fria”, diz.

Brasil em alta

Nesse contexto, o Brasil surge naturalmente como nova potência regional. Para Cavagnari, as recentes compras de armas seriam apenas o “pontapé inicial”.

“O Brasil quer outro status e outro perfil no cenário mundial. Então não é só recuperar o que se perdeu, modernizar o que tinha, mas acrescentar ainda mais poderio bélico”. Um exemplo, segundo ele, seria a instalação de uma força aérea estratégica, capaz de atuar fora do território brasileiro.

EFE/Fernando Nahuel



Exercício militar no Chile na semana passada, envolvendo caças de Brasil, Argentina, EUA e França, além do país anfitrião

“Temos que ter uma força aérea em todo o Atlântico Sul e no Pacífico Sul”, diz ele, explicando que as novas aquisições de aviões não têm essa capacidade e podem atuar somente dentro do território.

“O Brasil aspira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas para isso tem que ser uma potência militar, e o Brasil não é. E, sem ser potência militar, não vai ser potência coisa nenhuma”, afirma o coronel.

Cavagnari chama atenção para o que seria uma “resposta” dos EUA às pretensões brasileiras. Para ele, tanto a reativação da Quarta Frota – um comando operacional naval de apoio a missões nas Américas do Sul e Central que esteve desativado desde a Segunda Guerra – quanto as novas bases militares têm um endereço certo: dar o recado ao Brasil.

“Quando os EUA perceberam que o Brasil estava olhando para o Atlântico Sul de uma maneira militar, eles reagiram. Querem mostrar que nos assuntos hemisféricos eles ainda mandam”, explica.

Maurício Cárdenas concorda. “Se os EUA vão deixar outros ocuparem o espaço deixado por eles, ainda estamos por ver. Mas o fato é que os países que estão aspirando a essa posição requerem maior capacidade militar. E outros países da região resistem à idéia de um novo poder hegemônico. Isso é o que leva à escalada das compras de armas”, resume.

 

‘Golden market’

Prosperidade econômica, arsenais obsoletos e ambiente de segurança volátil são as características que fazem da América do Sul um dos mercados mais interessantes para a indústria de armamentos mundial.

“As empresas estão mais pró-ativas para diversificar seus mercados, e isso inclui a América do Sul”, diz Carina Solmirano, do Sipri. “Há um lobby maior porque as nações sul-americanas estão decidindo entre fornecedores diferentes. Um bom exemplo é a disputa para fornecer 36 caças ao Brasil que envolve três países pelo contrato milionário”. França, Suécia e EUA estão concorrendo pela preferência do governo brasileiro.

No geral, governos e empresas de armamentos têm buscado atrair o mercado sul-americano com ofertas de linhas de crédito, transferência de tecnologia e a possibilidade de produção conjunta de equipamentos.

É o caso do acordo fechado entre Brasil e França para a compra de 50 helicópteros militares EC-725, que prevê transferência de tecnologia em até 12 anos e o fornecimento por empresas brasileiras de peças para a empresa francesa Eurocopter.

“Um fator decisivo para as empresas de armamentos europeias e norte-americanas tem sido a crise mundial. Elas estão buscando novos mercados, o que explica o interesse na América do Sul, por causa das necessidades militares do continente”, diz o pesquisador Guy Anderson, da consultoria britânica Janes Defence, especializada na indústria de defesa.

Anderson coordenou um estudo publicado no ano passado, segundo o qual o Brasil é um dos cinco golden markets para as empresas de armamentos. O estudo, destinado a empresários do ramo, afirma que juntos os mercados dourados – que incluem Austrália, Coréia do Sul, Taiwan e Arábia Saudita – devem ter um crescimento de 140 bilhões de dólares até 2010.

No caso do Brasil, a Janes Defence aponta a economia estável, a descoberta das reservas do pré-sal e os altos investimentos militares da vizinha Venezuela como fatores determinantes para a ampliação do mercado. De acordo com a consultoria, a melhor estratégia para empresas do ramo seria arrumar parcerias com empresas brasileiras, oferecendo apoio tecnológico ou de design, em vez de vender equipamentos diretamente.


Moscou no Sul

Os Estados Unidos ainda são o maior fornecedor de armamentos da região, mas, segundo o Sipri, as vendas de equipamentos russos tiveram um aumento de 900% entre 1999/2003 e 2004/2008. A maioria das vendas foi para a Venezuela, mas a Rússia também é fornecedora para outros países do continente.

Para Guy Anderson, há duas razões por trás do interesse de Moscou na América do Sul. “Primeiro, a Rússia exportava muito para Índia e China. Enquanto a China tem crescentemente aumentado seu próprio arsenal, a Índia tem buscado diversificar seus fornecedores. E, segundo, a Rússia tem interesse em usar as vendas militares para obter acesso a reservas de energia”.

Adam Isacson lembra que o Brasil também tem aumentado seu papel como fornecedor de armas na região. “A indústria aérea tem vendido muito, com empresas como a Embraer procurando novos mercados”.

Segundo ele, um dos principais produtos da Embraer são os aviões de combate leves, os Super Tucanos, comprados por países como Chile, Equador e Guatemala. “Cabem perfeitamente no orçamento dos países vizinhos e podem ser usados em situações nas fronteiras, por exemplo. São bem mais úteis que os tanques russos que a Venezuela tem comprado”.

Segunda parte: especialistas avaliam relevância dos contenciosos na região

NULL

NULL

NULL