"Sarkozy recusa diálogo social", afirma deputado socialista francês
"Sarkozy recusa diálogo social", afirma deputado socialista francês
O deputado da região Ile de France, Eduardo Cypel, é franco-brasileiro. Chegou na França aos 10 anos de idade com os pais e vive em Paris há mais de 20 anos. Em 2002, a derrota do candidato socialista, Lionel Jospin, nas eleições presidenciais e o choque de ter o representante da direita, Jean-Marie Le Pen, como candidato no segundo turno dessas eleições, fez com que Cypel entrasse na vida política.
“O fracasso de 2002 explica-se pela dissociação entre partido e suas bases populares. Havia uma necessidade de reconstruir uma base de confiança para o eleitorado poder aderir ao projeto socialista”.
A sociedade francesa vive hoje um outro momento, uma crise social, em que o sentimento de injustiça prevalece. Os socialistas franceses já afirmaram que, se ganharem as eleições presidenciais em 2012, vão tentar mudar a atual reforma da Previdência, que foi aprovada no último dia 27 pelo Senado francês. Cypel conversou com o Opera Mundi sobre a situação atual e as perspectivas para a sociedade francesa.
Com as manifestações desses mês, a mensagem é que os franceses não querem pagar a conta dessa crise. Em sua opinião, quem seria o culpado?
Acho interessante essa aproximação entre a crise e o movimento social. O que está acontecendo na França é simples. A mobilização é enorme, não víamos isto há muito tempo. Desde o começo de setembro, mais de 3 milhões de pessoas foram às ruas em passeatas. As pesquisas mostram que 7 em cada 10 franceses acha que essa reforma da previdência, aumentar a idade mínima para a aposentadoria de 60 para 62 anos e elevar a aposentadoria integral de 65 para 67 anos, é injusta. Ela fragiliza ainda mais as pessoas com baixos salários. O que a reforma propõe é que 95% dos esforços venham da parte dos empregados e não do capital. A crise financeira passou por aqui, quem salvou as dívidas dos bancos foram os Estados europeus com dinheiro público. Por isso, o sentimento de injustiça é enorme. Poderia haver uma repartição mais justa entre os diferentes setores da sociedade (salarial, patronal e capital financeiro) para o pagamento das aposentadorias no futuro.
Qual é a solução proposta pelo Partido Socialista?
Propomos uma maneira mais equilibrada de reformar a previdência, baseada na justiça e na solidariedade. A reforma é necessária. Nossa proposta é manter a possibilidade de se aposentar a partir de 60 anos, principalmente para as pessoas que começaram a trabalhar muito cedo e têm em média 40 anos de contribuição. A partir de 2013, esse tempo vai passar para 42 anos.
O segundo ponto é garantir uma boa vida aos aposentados. Sem financiamento sólido, isso não é possível. E por fim, deve ser levado em conta a diferença entre as profissões. Um operário, quando se aposenta aos 60 anos, tem uma esperança de vida de mais 9 anos. Um diretor de empresa tem uma esperança de 18.
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O governo acusa a oposição e os sindicatos de manipularem os jovens para que esses se manifestem.
Os jovens estão indignados, Sarkozy afirmou que a reforma da previdência era a favor deles, mas não é o que vemos. Atualmente, 25% dos jovens em idade de trabalhar estão desempregados. É o dobro da média da população ativa. É muito difícil para um jovem entrar no mercado de trabalho. Um quinto deles vive abaixo do nível de pobreza. Outro dado importante é que mais de 75% dos jovens afirmam ter medo do futuro. Todo mundo acredita que o futuro desta juventude não será tão bom quanto foi o futuro dos pais. Existe uma injustiça social entre gerações. Os jovens vão as ruas para lutar pelos próprios direitos.
Os franceses estão cansados dos últimos quatro anos de governo. Como a situação política e social chegou a esse ponto?
A sociedade francesa vai mal, porque o governo se recusa a escutar as reivindicações de milhões de pessoas. Sarkozy recusa o diálogo social. Ele quer um troféu de guerra, propõe uma reforma da previdência que é ineficaz, porque aumentar os anos de contribuição não resolve o problema do financiamento. Além disso, é injusta, além de estar dividindo a sociedade francesa. É possível fazer uma reforma diferente, mas o governo deveria abrir espaço para o diálogo social e rever vários pontos. Ele está fazendo uma reforma de classes, e quem ganha são os mais privilegiados.
As manifestações são mais seguidas pelo setor público ou privado?
Existem dois tipos de passeatas: as que acontecem nos dias da semana, essas são mais seguidas pelo setor público, e as que ocorrem no final de semana. Aos sábado, vemos mais famílias. É mais complicado para um empregado de uma empresa pequena fazer greve. Eles participam mais das manifestações no final de semana. De qualquer maneira, segundo pesquisa do jornal Libération, 79% dos franceses pedem a abertura das negociações com os sindicatos, 67% apoiam as manifestações e 57% acham que os sindicatos estão fazendo um bom trabalho.
Pode-se dizer que essas manifestações são uma maneira de fortalecer o movimento sindical francês?
Ainda é muito cedo para dizer. O paradoxo francês é a fraqueza e a divisão das organizações sindicais. Somente 8% dos trabalhadores são sindicalizados. Porém, a França produz manifestações sociais que ultrapassam o movimento sindical. Desde setembro, foram organizados 6 dias de passeatas. Além disso, milhares de pessoas participam todos os dias de greves e de ações de bloqueio pelos grevistas de refinarias, de depósitos de ônibus, paralização de aeroportos em todo o país.
Para você, quem seria o melhor candidato do PS nas eleições presidenciais de 2012?
Criamos um sistema muito similar ao modelo norte-americano para eleger o novo candidato. Todo cidadão pode votar, não precisa ser militante do partido. É só pagar 1 ou 2 euros. Esperamos a participação de 2 milhões de pessoas. Começaremos esse plebiscito em junho. Isso dará um apoio popular imediato à candidata ou candidato escolhido. A previsão é que em outubro de 2011 já tenhamos um nome.
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