Rosário Balustra: 34 anos depois, o encontro com a justiça em Córdoba
Rosário Balustra: 34 anos depois, o encontro com a justiça em Córdoba
Argentina, 24 de março de 1976. Em uma visita íntima na prisão, momento raro daqueles meses em que seu marido, Pablo Alberto Balustra, estava na cadeia, Rosário se lembra de quando, depois da meia-noite, escutaram um sussurro: “Companheiro! Companheiro!”, chamava a voz vinda da cela ao lado.
Pablo arrastou uma mesa até a porta de ferro, onde subiu para chegar à janelinha que permitia que alguns raios de luz entrassem na cela. O prisioneiro trazia a notícia de que o exército tinha assumido o controle da unidade penitenciária, antes a cargo de carcereiros. O casal ligou o rádio e entendeu: naquela madrugada, o país viveu o golpe militar que derrocou o governo constitucional de María Estela Martínez de Perón (1974-1976) e transferiu o controle do país às Forças Armadas.
Luciana Taddeo/Opera Mundi
Rosário aponta para foto do marido, Pablo Alberto Balustra, integrante dos Montoneros e da Juventude Peronista
Imediatamente, Pablo se dirigiu ao militar em comando e pediu que as mulheres visitantes pudessem sair da prisão. Rosário Rodríguez Balustra pôde voltar para casa, onde a mãe a esperava com a filha Henriqueta, de dois meses e meio, e o filho Pablo, de quatro anos.
“Esta foi a última vez que fizemos amor. E foi a última vez que vi meu marido inteiro”, contou, em entrevista ao Opera Mundi, na sede da Associação de Familiares de Desaparecidos e Presos por Razões Políticas de Córdoba. Rosário foi uma das querelantes do julgamento que resultou em uma condenação, nesta quarta-feira (22/12) à prisão perpétua de Jorge Rafael Videla, primeiro presidente da ditadura militar da Argentina, que deixou um saldo estimado de 30 mil mortos e desaparecidos, entre 1976 e 1983.
O ex-ditador esteve no banco dos réus ao lado de outros 29 militares e policiais, por assassinatos e torturas na Unidade Penitenciária No 1 de Córdoba, crimes cometidos entre abril e outubro de 1976. Entre os julgados, além de Videla, 15 foram condenados à prisão perpétua. Uma das vítimas destes repressores, assassinada aos 33 anos, é Pablo Alberto Balustra.
Pablo, então presidente dos delegados sindicais dos funcionários de obras sanitárias e integrante do movimento guerrilheiro Montoneros e da Juventude Peronista, foi preso com três companheiros em 17 de julho de 1975, na saída do trabalho e passou 13 dias desaparecido. Somente após duas semanas de procura, Rosário soube que ele havia passado pela prisão clandestina do centro de informações da polícia de Córdoba, antes de ser transferido para a UP1.
Calvário de Pablo e Rosário
Após o golpe, todos os benefícios aos presos políticos foram cortados. Já não podiam escutar rádio, ler livros e, raras vezes, lhes permitiam receber visitas. Em uma das poucas que pôde realizar após o golpe militar, Rosário escutou do marido que ele morreria na prisão: “Vão me matar. Você construa a sua vida, cuide dos nossos filhos, mande-os à escola. Explique que eu não os abandonei porque quero, e que eu amo muito os dois”, disse Pablo.
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Segundo ela e relatos de testemunhas que passaram pela UP1, os prisioneiros políticos sabiam que seriam assassinados. “Às vezes chamavam um deles em uma sala e avisavam que matariam cinco naquele dia. Outras vezes avisavam a própria pessoa, meses antes, para que ela convivesse com a certeza da morte. Era uma tortura psicológica”, explicou.
“Nas vezes seguintes em que o vi, ele estava muito machucado, com os testículos, gengivas e a pele entre os dedos super inflamados”, lembrou ela, que a cada dia enfrentava as filas da prisão e via o marido sempre que os militares permitiam. “As filas só cresciam, com famílias que iam visitar os presos, ou que estavam buscando parentes desaparecidos. A extensão da fila aumentava a cada dia”, contou.
Uma das recordações que a argentina mostra mais dificuldade para relatar, e o faz com lágrimas nos olhos e voz mais fraca e entrecortada, é quando soube por familiares de outros prisioneiros que o marido estava em estágio paraplégico, no hospital, após alguns meses do golpe. Um ato de violência dos militares, meses antes, já o tinha deixado em coma, mas ao se recuperar a ponto de poder voltar para a prisão, voltou a apanhar.
No dia, Rosário se dirigiu ao centro de urgências com a mãe. “Ele estava muito sujo e machucado. Estava com a boca torta, não podia mexer as mãos, tinha grandes feridas na perna, cheias de sarna e estava com muito barro no rosto. Não tínhamos como dar banho nele, porque estava com o braço acorrentado na cama. Ao seu lado, havia um prisioneiro comum, que também tinha apanhado, mas que estava somente com algemas. Limpamos com um pano as fezes que há dias estavam grudadas nos testículos. Você não sabe o cheiro que tinha neste quarto…”, descreveu, ainda abalada.
Luciana Taddeo/Opera Mundi
Trinta e quatro anos após o último encontro com Pablo, Rosário se
emociona com a condenação de repressores em Córdoba
Em outubro de 76, em uma das várias tentativas de ver o marido, que tinha regressado à Unidade Penitenciária, foi comunicada pelos militares de que Pablo havia sido transferido. Após recorrer distintas delegacias, quartéis e hospitais, Rosário soube que Pablo havia morrido. “Fui ao necrotério e me disseram que ele não estava lá. Depois, voltei com uma ordem para retirar o corpo, e tiveram que me receber”, contou.
Ao entrar na sala que dava para a câmara frigorífica, uma cena de horror: corpos e corpos empilhados em um canto da sala e ao lado, cinco cadáveres dos presos que tinham sido transferidos com seu marido, cobertos com lençóis. Pablo era um deles. “Por que vocês não vêm logo retirar estes corpos? Estão todos apodrecendo, não tem mais espaço! Só aqui tem 25”, disse o encarregado de entregar os defuntos às famílias, apontando para o amontoamento de pés entrelaçados. “Não vou abrir a câmara para você não se assustar, mas isso aqui está cheio”, esbravejou.
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Após velar o corpo e protegê-lo no panteão da família, contrariando os militares que insistiam para que o deixasse no depósito do cemitério, Rosário comunicou a alguns familiares de presos que os corpos esperavam ser identificados. Ao dirigirem-se ao necrotério, alguns familiares de desaparecidos foram sequestrados, torturados e interrogados pelos militares, que queriam saber como os parentes de presos se organizavam e se comunicavam.
“Nesse momento tive muito medo, porque eu estava em contato com eles, éramos muito solidários uns com os outros. Às vezes os presos comuns passavam mensagens, em papel de enrolar cigarro, sobre os presos políticos que apanhavam, eram transferidos ou que foram assassinados, e seus parentes nos avisavam. Fiquei tão assustada que nem queria sair no pátio da minha casa”, afirmou “Negra”, como ficou conhecida entre os companheiros de luta – que evitavam pronunciar nomes -, e como é chamada até hoje pelos amigos.
Vivendo com inimigos
Meses depois, Rosário começou a frequentar a praça San Martín, no centro da cidade de Córdoba, onde se reunia com outros familiares de presos e desaparecidos. Apesar das tentativas de repressão por militares e policiais, que avançavam com cavalos, soltavam cachorros policiais, batiam e cuspiam nos manifestantes, os familiares passaram a se reunir em bares, pontes, e até mesmo na própria praça, sentados de dois em dois nos bancos, e depois intercambiavam informações.
Efe (22/12/2010)

Em Córdoba, familiares de presos políticos celebram julgamento de repressores do período de ditadura militar
Os familiares também iam à a igreja do arcebispo da cidade, Raúl Primatesta (1919-2006), que, segundo ela se negava a receber pessoas que procuravam por parentes. Ao chegar ao altar para receber a hóstia, perguntavam-lhe: “onde estão os desaparecidos?”. “Ele ficava verde de tanta raiva”, relatou Negra.
As atividades promovidas por familiares foram o embrião da criação da Associação de Familiares de Desaparecidos e Presos por Razões Políticas de Córdoba, que, ao lado da organização H.I.J.O.S. (Filhos pela Identidade e Justiça, contra o esquecimento e o silêncio), conseguiram, décadas depois, que os repressores que atuaram nesta prisão chegassem ao banco dos réus.
Em maio de 2009, a associação foi recebida na Casa Rosada, sede do governo argentino, ocasião em que solicitou dedicação à causa do fuzilamento dos presos políticos. “Não sou Kirchnerista, nem peronista. Sou ‘Cristinista’. Néstor e Cristina Kirchner foram os únicos presidentes que abriram as portas para nós e encararam os direitos humanos como política de governo e acabaram com as leis de impunidade e com a anistia de repressores”, afirmou.
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“Os governos anteriores a Kirchner nunca fizeram nada para por os militares no lugar em que deveriam estar: na cadeia”, reclamou, lamentando que mora no mesmo bairro de muitos repressores.
Depois de muitos anos, Negra descobriu que sua filha era companheira de escola de um dos policiais que atuavam em uma das prisões em que seu marido foi mais torturado. E que o armazém em que comprava pão era da família de outro que está no banco de réus, cuja esposa costumava participar do grupo de corrida formado pelas mulheres do bairro: “Quando descobri que fazia ginástica com a mulher de um deles, passei a cumprimentá-la somente de longe. E eu punha na mesa dos meus filhos o pão que a família deste repressor vendia, pão feito com mãos manchadas de sangue. Você não sabe a dor que isso me provoca”, lamentou.
Durante o julgamento do ex-ditador, que teve início em julho deste ano, a declaração de uma testemunha revelou as últimas palavras de Pablo Balustra, que até então eram desconhecidas por Negra: “Diga para minha mulher que eu morrerei dignamente. Viva Perón, caralho!”, disse a um companheiro, antes de ser fuzilado com um tiro na testa.
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