Retorno dos milionários bônus bancários gera polêmica no Reino Unido
Retorno dos milionários bônus bancários gera polêmica no Reino Unido
No centro de Londres, ao lado do metrô e de um cartaz com uma loira deslumbrante, ergue-se o Spearmint Rhino, um dos clubes de striptease mais exclusivos da cidade. Há dois anos, em meio à crise financeira mundial, o clube amargava prejuízos milionários e ameaçava fechar, mas agora tudo mudou. “O movimento disparou, sobretudo desde janeiro, por causa do rush de clientes da City que recebem seus bônus. Outro dia, um deles desembolsou oito mil dólares em meia hora e um grupo de quatro amigos gastou 50 mil dólares com champanhe e com o show. Aqui, a recessão é coisa do passado”, disse ao Opera Mundi John Specht, gerente do estabelecimento.
Os megabônus sem dúvida voltaram à moda no setor financeiro londrino, sobretudo nos bancos, que, nos últimos dias, repartiram bilhões de dólares entre seus diretores. O mais recente foi o Royal Bank of Scotland (RBS), que decidiu pagar 950 milhões de libras esterlinas (1,5 bilhão de dólares) em bônus apesar de ter sofrido um prejuízo de 1,1 bilhão de dólares no ano passado e estar sob intervenção do Estado, que detém uma fatia de 84% da instituição.
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A nova Manhattan londrina, Canary Wharf, vista a partir da Cabot Square
Nos bares de Canary Wharf, a nova City de Londres, uma espécie de mini-Manhattan encravada no leste da cidade, banqueiros e corretores festejam com luxo o fim das vacas magras com champanhe Cristal a 300 dólares a garrafa e vinhos Chateau Lafite Rothschild. Muitos se aproximam das concessionárias de carros de luxo para conferir os últimos modelos. Os vendedores estão proibidos de falar com a imprensa, mas um funcionário da loja da BMW que preferiu não ser identificado afirmou que “os bons tempos voltaram”, acrescentando que dois colegas demitidos no ano passado foram recontratados.
Tudo isso provocou um escândalo no Reino Unido – o ministro de Negócios, Vince Cable, qualificou recentemente os bônus de “ofensivos”) – onde muita gente considera os bancos responsáveis por uma crise que reluta em desaparecer. A economia recuou 0,6% no quatro trimestre de 2010 e o desemprego se mantém alto, com 2,5 milhões de desocupados (7,9% da população ativa).
No fim de semana retrasado, grupos de manifestantes ocuparam mais de 40 agências bancárias em Londres e as transformaram em salas de aula, teatros e creches para protestar contra a suspensão de serviços adotada para que o governo pudesse apoiar o setor financeiro. A isso somam-se manifestações quase diárias em assembleias municipais londrinas por parte de cidadãos furiosos com os cortes.
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Os quatro grandes bancos do país – Barclays, HSBC, RBS e Lloyds Banking Group, os últimos dois resgatados pelo governo -, assim como a filial britânica do banco espanhol Santander, tentaram acalmar os ânimos prometendo, pouco antes de anunciar os bônus, que tornarão públicas as remunerações de seus sete principais dirigentes. Além disso, garantiram que o total dos bônus será “inferior” ao de 2009, insistindo que é fundamental mantê-los, pois do contrário seus melhores funcionários sairiam para trabalhar em outras instituições no exterior.
Como parte do acordo com o governo britânico, chamado Projeto Merlin, os bancos também prometeram emprestar neste ano 190 bilhões de libras (310 bilhões de dólares) às empresas do país supervisionados pelo Banco da Inglaterra, ante 179 bilhões (292 bilhões de dólares) concedidos no ano passado. Destes, 76 bilhões (124 bilhões de dólares) seriam empréstimos a pequenas e médias empresas, 15% a mais que em 2010.
'X' da questão
Isso tudo é suficiente? Não para a Federação das Pequenas Empresas (FSB, na sigla em inglês), que reúne 210 mil empresas no Reino Unido e é a maior do país. A entidade denuncia que o problema não é a quantidade de dinheiro disponível, e sim o custo do financiamento, e assegura que 84% de suas filiadas já nem sequer recorrem aos bancos, por ter sido rejeitadas ou porque as taxas pedidas são exageradas.
Efe

Bancos como o HSBC tentaram acalmar os ânimos prometendo que tornarão públicas as remunerações dos dirigentes
“Alguns membros nos contam que os bancos estão exigindo muito mais que 10% de juros para empréstimos, às vezes até 20%, quando a taxa oficial é de apenas 0,5%”, afirmou ao Opera Mundi Holly Conway, representante da FSB, para quem o problema de fundo é a falta de competitividade no mercado, dominado pelos quatro grandes bancos.
“Por isso, eles têm de pedir dinheiro a parentes e amigos ou endividar-se com o cartão de crédito para continuar operando, o que é insustentável no longo prazo. Se isso não for resolvido, empresas viáveis poderão ser forçadas a despedir funcionários e até encerrar suas operações. É preciso fazer algo.”
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Angela Knight, conselheira executiva da todo-poderosa Associação dos Banqueiros Britânicos (BBA, na sigla em inglês), ficou na defensiva quando indagada sobre as taxas que os bancos cobram dos clientes. “Estamos no processo de lançar um programa de ajuda às pequenas e médias empresas. As taxas oferecidas pelos bancos são competitivas, sem dúvida menores que 10%”, afirmou Knight. No entanto, quando lhe perguntei qual era a taxa média oferecida, ela admitiu não ter a cifra.
As palavras de Knight não conseguem tranquilizar empresários como Peter Reeve, dono de uma firma de encarregados de obras da construção civil em Bedford, 100 quilômetros ao norte de Londres. Reeve, que emprega sete profissionais e precisa de financiamento bancário porque espera um ano e meio para cobrar por seus serviços, reclama que os bancos chegaram a lhe exigir 15% para um empréstimo. Ele conta que, por isso, foi obrigado a deter sua expansão e recusar projetos, endividando-se com o cartão de crédito.
“Eu poderia ter contratado mais quatro pessoas, mas não há como”, afirmou Reeve. “Os bancos impõem cada vez mais condições, apesar de sermos uma empresa viável. A situação está pior do que nos anos 1980”, disse ele, acrescentando esperar que o quadro piore quando as taxas de juros referenciais subirem, algo iminente por causa do recente aumento da inflação. “Estou furioso. Os bancos daqui são tão poderosos que fazem o que querem. O Projeto Merlin é uma dissimulação grosseira. Ameaçam ir para o exterior se o governo realmente se voltar contra eles, e nos mantêm encurralados.”
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