'Retórica de Obama contrasta com intervenção militar na Líbia', diz nova secretária de Relações Internacionais do PT
'Retórica de Obama contrasta com intervenção militar na Líbia', diz nova secretária de Relações Internacionais do PT
O discurso proferido pelo presidente
dos Estados Unidos, Barack Obama, no Theatro Municipal do Rio de
Janeiro arrancou gargalhadas da plateia. Apesar de não ter transmitido
nenhuma mensagem concreta de interesse dos brasileiros, foi esse o tom
de sua primeira visita ao Brasil. A simpatia do norte-americano,
contudo, contrastou com o fato de ele ter autorizado, de Brasília, o
início da intervenção de seu país na Líbia, avaliou a nova secretária
de Relações Internacionais do PT (Partido dos Trabalhadores) Iole
Ilíada Lopes.
A
agenda diplomática esteve repleta de compromissos e havia a preocupação
em aprofundar as relações bilaterais, sem frustrar as expectativas
daqueles que cobram independência em relação aos Estados Unidos. Para
Iole, o discurso de aproximação com os EUA deve ser visto com cautela,
porque o Brasil conquistou um nível de soberania inédito.
Bacharel
em Geografia, mestre e doutora em Geografia Humana pela USP
(Universidade de São Paulo), Iole é especialista em política nacional e
externa. Em 10 de fevereiro deste ano, foi eleita pelo Diretório
Nacional do partido para ocupar o cargo de secretária de Relações
Institucionais, substituindo a deputada federal Iriny Lopes (PT-ES).
Iole
já foi diretora do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de
Ensino Superior (2004-2006) e é diretora responsável pela Cooperação
Internacional da Fundação Perseu Abramo. No PT, foi membro da Comissão
de Ética do Diretório Estadual de São Paulo (2002-2005) e da Comissão
de Ética do Diretório Nacional (2006-2007). Já foi também assessora da
Secretaria Nacional de Formação Política (2007). Em entrevista ao Opera Mundi, ela analisou a visita de Obama, a intervenção militar estrangeira na Líbia e as ambições da diplomacia brasileira.
Durante os preparativos da visita
de Obama ao Brasil, muito se falava de um “encontro de importância
estratégica para aproximação entre os dois países”. Em sua avaliação,
houve de fato uma aproximação entre Brasil e EUA?
Antes de mais nada, seria necessário discutir melhor o que seria
“aproximar o Brasil dos EUA” e, em que medida – e por quem – essa
“aproximação” é desejada. Setores da grande mídia brasileira, por
exemplo, aproveitaram a visita para disseminar a tese de que o governo
anterior teria se afastado dos EUA. O que houve, na verdade, foi uma
afirmação crescente de nossa independência e de nossa soberania perante
este país norte-americano, paralela a uma diversificação de nossas
relações políticas e comerciais, da qual uma das consequências mais
palpáveis foi a conversão da China em nosso principal parceiro
comercial.
A pergunta é: isso é bom ou ruim para o Brasil? Aliás, quando
falamos em “aproximação” com os EUA, é inevitável lembrarmos da
histórica frase: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos
Estados Unidos!”. Ainda que, no caso mexicano, haja o agravante de uma
proximidade física, de fronteiras, a frase não deixa de oferecer uma
boa metáfora para essa discussão.
Ficaram assuntos pendentes entre
Dilma e Obama? Como por exemplo a falta de apoio explícito dos EUA ao
Brasil para conquista de um assento permanente no Conselho de Segurança
da ONU?
Tirante acordos comerciais, cujos resultados concretos ainda terão
que ser medidos, mas que neste momento são mais vitais para os EUA que
para o Brasil, a visita parece ter sido uma tentativa, da parte do
presidente Obama, de melhorar sua imagem e a de seu país no Brasil e na
América Latina em geral. Mas toda sua simpática retórica foi
contrastada pelo seu ato de, daqui mesmo do território brasileiro,
autorizar mais uma intervenção militar em um país soberano, desta vez
na Líbia. Sobre o apoio à entrada do Brasil no Conselho de Segurança,
como já se esperava, não houve nenhum avanço, a não ser uma
manifestação de “apreço” pelo pleito, o que em diplomacia quer dizer
pouca coisa.
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FPA
A Secretária de Relações Internacionais do PT, Iole Lopes, considera a intervenção na Líbia uma 'tragédia anunciada'.
Na
manhã de sábado (19/03), na cúpula de negócios Brasil-EUA, empresários
e integrantes do governo brasileiro foram surpreendidos com o forte
esquema de segurança da comitiva de Obama. O constrangimento foi
tamanho que os ministros Guido Mantega (Fazenda), Edison Lobão (Minas e
Energia), Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) e Fernando Pimentel
(Comércio e Indústria) desistiram de participar do encontro. Como a
senhora avalia o fato de os EUA exigirem uma revista tão rigorosa dos
políticos brasileiros, a ponto de solicitar que alguns deles tirassem
os sapatos?
Os governantes norte-americanos colhem os frutos da política que
implementam e que busca subordinar o mundo a seus interesses. Assim,
costumam não se sentir seguros, nem no exterior e nem em seu próprio
país, porque sabem que há razões de sobra para serem tratados com
hostilidade. Agora, é claro que revistar as pessoas que faziam parte da
delegação brasileira foi um absurdo. E é inevitável que muitos se
perguntem se o governo brasileiro não deveria ter se recusado a aceitar
isso. Maior absurdo ainda foi a detenção de um grupo de pessoas que
protestavam contra a visita de Obama – essa perpetrada pela própria
Justiça brasileira.
Os atos contra a visita do Obama
foram outro aspecto polêmico da visita. Além da prisão do grupo de
manifestantes no Rio de Janeiro, houve uma nota emitida pelo presidente
do PT fluminense, Jorge Florêncio, desautorizando esses protestos
contrários. Em sua opinião, a atitude de Florêncio contraria os
fundamentos do partido, como alegaram alguns militantes?
Como Secretária de Relações Internacionais, não me cabe emitir
opinião sobre resoluções de instâncias do PT de que não participo. Mas,
como militante do partido, posso dizer que achei a nota despropositada.
Ela me parece fruto de uma incompreensão dos diferentes papéis que
devem ser cumpridos pelo governo, pelo partido e pelos movimentos
sociais.
Ao primeiro, claro, cabe receber o presidente de um país com quem
possuímos relações diplomáticas estabelecidas. Ao último, decidir
autonomamente sua forma de manifestar-se diante da visita. E ao
partido, registrar suas opiniões políticas sobre a visita e sobre os
temas que envolvem a relação Brasil-EUA. O partido, nessas
circunstâncias, nem deve subordinar-se ao governo, nem muito menos
tentar subordinar os movimentos sociais. Aqueles que prezam o fato de
que vivemos em uma democracia deveriam compreender que tal separação de
papéis é essencial.
De que
maneira avalia a intervenção militar estrangeira na Líbia? Como a
senhora mesmo lembrou, autorizada por Obama enquanto ele estava no
Brasil?
Como uma tragédia anunciada.
Havia espaço para um diálogo entre oposição e governo na Líbia, sem intervenção internacional?
Há uma disputa política em curso na Libia (como, de resto, em
vários países do mundo árabe), e o desejável é que ela seja resolvida
pelos próprio líbios. Dado o grau de acirramento da disputa, é difícil
dizer se, naquele momento [antes do início da “Odisseia da Alvorada”],
havia “espaço para diálogo”. Mas convenhamos que não deveria ser papel
dos organismos internacionais intervir em Estados soberanos quando há
“ausência de diálogo” entre duas facções políticas, ainda que estejamos
falando de um conflito político-militar. Essa é uma forma de ingerência
na vida interna de outras sociedades.
É claro que, nos casos em que existir o uso da força do Estado
contra a população civil, os organismos internacionais devem buscar
agir para garantir a vida e a integridade dessa população. Mas devem
fazer isso sempre, e não só nos casos que interessem aos países que
detêm maioria no Conselho de Segurança. E devem evitar o uso da força
militar para isso, porque, em geral, as consequências são ainda mais
catastróficas, em termos de perda de vidas humanas.
Na quinta-feira, o Conselho e
Segurança aprovou a adoção de uma zona de exclusão aérea na Líbia. Dez
membros votaram a favor, nenhum contra. Outros cinco integrantes se
abstiveram, entre eles o Brasil. Em sua avaliação a diplomacia
brasileira agiu corretamente ao se abster?
Em minha opinião, o governo brasileiro agiu corretamente ao não
votar a favor de uma proposta de resolução que autoriza o uso da força
contra um país soberano. A abstenção foi a forma encontrada para isso.
Se foi a melhor, aí só quem pode responder é quem participou do
processo, que em geral envolve muita conversa e negociação. Registre-se
que a posição do Brasil foi a mesma da Alemanha, Índia, China e Rússia.
Mas a
abstenção foi criticada, apontada como uma decisão que pode enfraquecer
as pretensões da política externa de conquistar um assento permanente
no Conselho de Segurança. A senhora acredita que há essa possibilidade
de prejudicar a diplomacia brasileira futuramente?
Não creio. Veja: reivindicamos nossa participação no Conselho de
Segurança justamente porque queremos democratizá-lo. Ou seja, queremos
que outros países, com visões distintas do mundo e da política
internacional, possam também ter voz e poder de decisão. Mas para que
integrarmos o Conselho se não for para termos o direito de divergir e
dissentir? Assim, o Brasil ter mantido uma posição autônoma nesta
votação, a meu juízo, reforça os argumentos em prol de seu pleito.
Ademais, lembremos que ele não votou sozinho, mas com Alemanha, Índia,
Rússia e China.
Por que o PT ainda não emitiu uma resolução oficial nem sobre a visita de Obama nem sobre a agressão contra a Líbia?
Como Secretária de Relações Internacionais propus e defendi, na
reunião da Comissão Executiva Nacional de 17/03, que o PT aprovasse uma
nota a respeito da vinda do Obama ao Brasil. Em linhas gerais, a nota
destacava a visita como uma oportunidade para o governo brasileiro
reafirmar suas posições em favor de uma nova ordem mundial, baseada no
desenvolvimento, na paz, nos direitos humanos e no respeito à
autodeterminação dos povos. E como oportunidade para o Obama saber o
que pensam os setores organizados da sociedade brasileira.
Nesse sentido, o texto reafirmava as posições do PT acerca de temas
que envolvem as políticas do governo norte-americano – posições essas
que são amplamente conhecidas e podem ser encontradas nos documentos e
resoluções do partido. Falávamos, pois, de nossa defesa do imediato
fechamento da prisão em Guantánamo, da suspensão do bloqueio contra
Cuba e da revisão das leis de imigração nos Estados Unidos, que tanto
prejudicam os imigrantes que buscam aquele país por melhores condições
de vida. E reiterávamos nossa oposição às guerras no Afeganistão e no
Iraque, bem como às ameaças de invasão da Líbia
A Executiva, no entanto, ao debater o assunto, decidiu que não era necessário aprovar nenhuma resolução a respeito.
Sobre os ataques à Líbia, que só ocorreram posteriormente a essa reunião, deveremos nos pronunciar em breve.
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