Repórteres mexicanos vivem como correspondentes de guerra, diz fotojornalista premiado
Repórteres mexicanos vivem como correspondentes de guerra, diz fotojornalista premiado
Ameaças, sequestros e na pior das hipóteses, execuções, são perigos pelos quais centenas de jornalistas mexicanos enfrentam no dia a dia de reportagem. O risco de documentar as ações do crime organizado no México é tamanho que o país recentemente foi apontado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o mais perigoso para se exercer o jornalismo na América Latina e com riscos parecidos aos vividos em países em guerra como o Iraque e Afeganistão.
No entanto, conforme relatou em entrevista ao Opera Mundi o fotojornalista Alejandro Cossío, o México vive sim uma dolorosa e prolongada guerra, mas contra o narcotráfico. Desde 1997 ele trabalha para a respeitada revista semanal Zeta, de Tijuana e desde então teve a oportunidade de conhecer a realidade da violência no norte do México. Uma impactante série de fotografias produzida por Cossío, denominada México en el punto de quiebre (México no ponto de ruptura), ganhou o Prêmio Novo Jornalismo, criado pela FNPI (Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano) – presidida pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez – e um dos mais disputados na comunidade de língua hispânica.
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Alejandro Cossío

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Como começou a trabalhar na revista Zeta?
Durante muitos anos nem pensei em ser fotógrafo. Cheguei à Zeta quase por acaso, em 1997, e o começo foi marcante. A revista faz um jornalismo duro, valente, como poucos veículos no país, e o ano em que entrei foi justamente quando o cartel dos Arellano Félix – dono da praça de Tijuana e famoso por mergulhar corpos em soda cáustica – cometeu um atentado contra Jesús Blancornelas, fundador e diretor da revista. Atiraram quando ele chegava de carro ao trabalho. Não conseguiram matá-lo e ele, ferido, pediu ao filho que tirasse fotos dele, que documentasse o que lhe haviam feito. Esse é o espírito da Zeta. Logo em seguida em quis sair de lá, a tensão era tão forte, me deu medo. O mesmo diretor me disse tempo depois que, se eu quisesse, podia ir embora, mas ele achava que para mim seria melhor ficar. E fiquei.
Como é a rotina de trabalho na revista?
Cubro todos os temas – esportes, escândalos, espetáculos, atualidades, tudo; e isso dá a oportunidade de aprender muito, e sempre se pode tirar boas fotos. Mas eu sempre tive curiosidade pelos temas sociais, em contar histórias. Via as fotos e reportagens de grandes fotógrafos mexicanos e tive vontade de contar o que acontecia neste país. Então, em 2008, prenderam os chefes do cartel dos Arellano Félix. O grupo ficou sob o comando de um sobrinho, mas os homens mais próximos dos chefões não aceitaram a nova configuração e uma guerra explodiu entre as duas facções recém formadas. Em 2008/2009, eu cobria todos os episódios de violência dessa disputa. Não havia descanso, paz. Até 100 pessoas eram mortas por semana, e eu tinha de correr para todo lugar, dia e noite.
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A revista exigia esse esforço seu?
Não só a Zeta, pois eu também trabalhava como freelancer, mas o ponto é que eu iria documentar essa guerra – ainda que ninguém me pedisse nada. Eu pressentia a oportunidade de documentar algo, de fazer as pessoas verem o que acontecia aqui. Não é possível fazer esse trabalho se não tiver paixão, se não se importar com o que está contando. E de algum modo eu o vejo como uma espécie de missão. Como muitos colegas, tenho a oportunidade de contar o que acontece, para que nada seja esquecido, para que sejam entendidas as razões de tanta violência. Perco então todo o tempo livre, fico à espera das chamadas por ambulâncias, para então me dirigir rapidamente para o local onde alguém acaba de ser morto, ou onde o tráfico deixou um corpo enforcado ou decapitado. Soa como algo macabro, mas é nosso deve contar essas histórias.
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E você não corre o risco de se acostumar a toda essa violência? A considerá-la simples trabalho?
É uma possibilidade, mas por isso é preciso ter claro, a todo momento, a razão pela qual esse trabalho é feito. Por que se fica horrorizado com as coisas que acontecem no país, ou no mundo em que vive. E sente que não pode ficar de braços cruzados. Só assim se consegue aguentar toda essa violência. Se não, você cai no abismo. Não se pode fazer mais nada por trabalho, é preciso convicção, e é preciso ser o mais objetivo possível. Claro que enfoque pessoal e opinião são presentes, mas também é necessário ser objetivo. Como diz a jornalista mexicana Carmen Aristegui, não posso me dar ao luxo de ter preferências.
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O que significa fazer esse trabalho em um contexto arriscado como o de Tijuana?
Há de se ressaltar que Tijuana não é um local tão perigoso como outros também dominados pelo narcotráfico, como Ciudad Juárez e Reynosa. Claro, é preciso tomar muito cuidados nas coberturas, mas os fotógrafos frequentemente trabalham em grupos e apesar de tudo, tivemos poucos problemas com os cartéis. Trabalhar em grupo se tornou uma opção também porque não concorremos uns com os outros – é mais difícil ser objetivo com competição. Sabemos muito bem onde podemos chegar. Há alguns anos, em 2008/2009, a cidade era terreno de guerra, havia tiroteios todos os dias. Não era incomum se ver no local errado na hora errada.
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Os jornalistas em Tijuana utilizam alguma proteção especial para reportar?
Na maioria das vezes, não. Em outros lugares do país, como Culiacán, alguns jornais entregam aos profissionais coletes à prova de balas. Não imagino trabalhar assim, tendo de carregar as câmeras e lentes e todo o material que se exige para um fotógrafo. Direi algo que pode parecer estranho, mas em Tijuana temos uma boa relação com o exército. Em outras localidades no México os soldados são normalmente hostis e além de não ajudar os jornalistas, impõem obstáculos. Em geral, as forças policiais não defendem os jornalistas, e para aqueles que são corruptos, o fato de estarmos trabalhando e investigando não lhes agrada. Muitos são inclusive cúmplices do tráfico. Mas em Tijuana a relação não é tão ruim. Se há alguma operação do exército, por exemplo, frequentemente somos chamados. Isso também porque os soldados agem como “divas”, adoram ser fotografados e posam para as câmeras.
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Logo, quem são os jornalistas que correm mais perigo?
Os que mais se arriscam em Tijuana são os repórteres investigativos, aqueles que escrevem as histórias e explicam a complexa estrutura do narcotráfico mexicano. São eles que recebem ameaças, sofrem sequestros e às vezes, execuções. Normalmente, esses profissionais trabalham sozinhos e expõem em suas reportagens a engrenagem corrupta do crime organizado, explicam as redes de poder. E por isso correm mais riscos, pois estão mais expostos. Em estados como Tamaulipas e Chihuahua já não é possível trabalhar, por imposição dos cartéis e não há forma de se opor a essa violência. O controle do território nessas zonas é tão profundo que a única opção para muitos colegas é a autocensura. Em nosso país, jornalistas combatem uma verdadeira guerra civil, como correspondentes de guerra, e em certos locais, mesmo com muita coragem, não é possível documentar o que acontece, não se pode revelar a verdadeira cara do narcotráfico.
Em sua opinião, porque a série de fotografias foi premiada?
Desde o início, acreditei estar fazendo um trabalho importante. Não sabia se era bom, mas sabia que era importante. Creio que foi premiada a vontade de narrar acontecimentos tão importantes e violentos no México. E estou feliz não só com o prêmio, mas também porque a visibilidade recebida concede um maior poder de divulgação para o trabalho, para que se tenha mais consciência do que acontece neste país. E acredito que, como diz o título de meu trabalho, o México realmente está em um ponto de ruptura. Estamos em um momento em que o narcotráfico é tão forte que pode sequestrar qualquer pessoa e matá-la, sem que ninguém possa fazer nada. E nós, fotógrafos e jornalistas, somos grupos de pressão social, temos uma responsabilidade. Já não se trata de ser um rock star do jornalismo, mas sim de fazer o que nos corresponde para contar a verdade.
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