Domingo, 5 de abril de 2026
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O choque da crise financeira na economia mexicana não é sentido somente entre a população mais pobre. A falta de emprego afeta a classe média. Na casa de penhora Monte Piedad, na Cidade do México, está sendo percebida uma mudança do público.

“Nosso universo de usuários se concentra nas classes populares, ou seja, as pessoas com uma renda inferior a 10 dólares por dia”, explica Gustavo Mendez Tapia, porta-voz do Monte de Piedad. “Mas temos também clientes da classe média, e estamos dispostos a ajudar cada vez mais, se eles precisarem”, completa.

Luis Sanchez é um representante dessa nova clientela. Aos 50 anos, o arquiteto não encontra mais trabalho. “Esse ano, com a crise, o mercado parou totalmente. Não há nada para ninguém”, afirma, tocando nervosamente sua barba cinza. Ele trouxe três relógios. Apesar de possuir uma conta bancária – ao contrário da realidade de 75% dos mexicanos – Luis não hesitou na hora de procurar ajuda. “Os juros são de 4% – os mais baixos do mercado. É muito melhor do que os do cheque especial ou até mesmo do cartão de crédito”, assegura.

Para o arquiteto, o destino dos lucros do Monte de Piedad é também um forte argumento para a escolha. “Claro que eles ganham com a gente, mas pelo menos o dinheiro vai para os mais necessitados, ao contrário do que fazem os bancos”, diz. Ele se refere às 500 obras assistenciais financiadas pelo organismo, que recebem a totalidade dos lucros após o pagamento dos 3 mil funcionários, segundo seus gestores. Em 2008, o Monte de Piedad reuniu 2,3 bilhões de pesos (312 milhões de reais).

“Meus relógios não podem ser roubados aqui”, acrescenta Luis. O raciocínio seduz muitas pessoas. “Antes das férias, vemos chegar famílias ricas para penhorar diamantes ou casacos de pele. Sabem que aqui, com todas as câmeras e guardas, é bem mais seguro do que em suas casas”, confirma Alberto Alvarez Santana, funcionário da instituição e responsável pelas visitas turísticas.

Vergonha

O argumento permite também a Tapia esconder a vergonha que sente. Ele recusa o pedido de foto com um sorriso amável, mas firme. É o único homem da fila. “Em geral, eles vêm e aguardam do lado de fora as mulheres, para não parecer que estão pedindo dinheiro. É assim. Esse país ficou muito machista”, lamenta Santana.

O mercado da miséria atrai outros atores: novas empresas abriram nos últimos anos para emprestar aos mais pobres, com taxas por vezes exorbitantes. O centenário Monte de Piedad não parece temer a concorrência. “Nossos usuários sabem exatamente quanto vão pagar, não há comissões extra, que aparecem e fazem crescer a dívida. É uma lógica de confiança”, explica Tapia.

Queda no padrão de vida faz classe média frequentar casa de penhores mexicana Monte de Piedad

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