Quarta-feira, 20 de maio de 2026
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Alegria, esperança e algumas preocupações: estes são os sentimentos de
muitos políticos árabes que torceram durante anos por mudanças na
região, mesmo considerando a possibilidade de nunca presenciá-la.

É o caso do deputado marroquino Khalid Hariry, membro da União
Socialista das Forças Populares (USFP), principal partido de esquerda
do Marrocos, aliado eventual do governo, e também vice-presidente da
comissão de finanças no parlamento daquele país. Para ele, é pouco
provável que o Marrocos registre uma revolução comparável à da Tunísia
e do Egito, pois a reivindicação pela queda do rei Mohamed VI não é o
foco das frustrações.

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Ele explica ao Opera Mundi as especificidades do caso marroquino,
lembrando, ao mesmo tempo, de muitas semelhanças entre os países:
pobreza, desemprego da juventude, corrupção das elites e forte
desigualdade na distribuição de renda.

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Divulgação



O deputado Khalid Hariry critica posturas da França e dos EUA durante os protestos do mundo árabe

Hariry considera que uma democratização do mundo árabe não implica
automaticamente em um tsunami islâmico. Ele cobra, porém, uma reforma
rápida e profunda dos partidos políticos, especialmente de esquerda,
para que voltem a canalizar as esperanças da população.

Como foram percebidas no Marrocos as quedas de Zine El Abidine Ben Ali na Tunísia e de Hosni Mubarak no Egito?

Há uma forte dimensão psicológica, uma sensação de orgulho e emoção. Os
povos e países árabes finalmente conseguiram uma vitória. E que
vitória! Durante décadas, só registramos derrotas, até acabamos as
considerando como fatalidades.

E finalmente, em menos de um mês, dois
grandes eventos, um após o outro, devolvem toda a esperança. Há também
preocupações: será que eles vão conseguir organizar uma transição para
a democracia? Em quanto tempo? A que custo? No Egito, o exército está
ainda no poder.  E quais serão os outros países da região que os
seguirão?

O senhor esperava esta aceleração da história?

Ninguém aqui imaginou que fosse possível, inclusive eu. Aqueles que
estiveram recentemente na Tunísia e no Egito falavam que a situação não
podia continuar, que algo precisava mudar. Mas nunca imaginamos que
pudesse ir tão rápido e tão longe, com a queda dos presidentes.

Qual foi a atitude da sociedade civil marroquina e dos partidos em relação aos acontecimentos nos dois países?

As revoluções provocaram certo desconforto entre os partidos políticos.
Alguns apoiaram desde o inicio o desejo de mudança democrática,
especialmente no caso da oposição,  que são ao mesmo tempo de esquerda
e islâmicos.  Outros partidos foram pressionados pelos seus militantes,
e manifestaram apoio, ainda que tardia e timidamente.

É o caso dos partidos de esquerda associados ao governo. Outros
preferiram aguardar a posição oficial do Marrocos antes de falar: ou
seja, o governo e a oposição de direita. Estas diferenças de posturas
refletem o efeito de surpresa, mas também o grau de autonomia dos
partidos em relação ao Executivo.

Na sociedade civil, diversas organizações de direitos humanos e
anti-globalização, próximas da esquerda radical, se expressaram a favor
das mudanças desde o início e fizeram manifestações, especialmente após
a saída de Mubarak. Alguns responsáveis dos dois principais movimentos
islâmicos também participaram destes eventos. É preciso não esquecer a
efervescência que tomou conta da internet, ainda que seja difícil medir
seu impacto real.

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Muitos analistas asseguram que o
Marrocos é mais calmo e estável, e que pode escapar da turbulência que
ameaça os regimes árabes. Qual é sua percepção?

Temos que ser muito modestos com nossa capacidade de previsão. A crise
econômica de 2008 e os eventos na Tunísia e Egito estão aqui para nos
lembrar disso. Meu sentimento pessoal, porém, é que o Marrocos não
deverá conhecer eventos semelhantes. Teremos manifestações relevantes
com reivindicações bem específicas. Por exemplo: greves, protestos
contra o desemprego, a corrupção e o alto custo de vida. Também teremos
pedidos por reformas constitucionais e políticas, em defesa dos
direitos humanos e pela liberdade de expressão.

A explicação normalmente aceita da “exceção marroquina” é que a
monarquia é baseada na legitimidade religiosa – o rei é um descendente
do profeta Maomé -, e que existe uma maior abertura democrática, como o
fato de os partidos islâmicos poderem participar das eleições. O senhor
concorda com esta leitura?

A legitimação religiosa da monarquia é importante, mas não é a única.
Há também uma legitimidade histórica, constitucional, e até popular. As
pessoas que questionam o sistema monárquico são uma minoria ínfima.

Entretanto, gostaria de precisar alguns aspectos da legitimidade
religiosa. Há uma tendência no ocidente em vê-la negativamente. Não é o
caso no Marrocos. A legitimidade foi destacada pelo rei para liderar
uma das reformas mais progressistas nos últimos anos: a reforma do
Código da Família, que é o estatuto das mulheres. Elas passaram a ter
direitos equivalentes aos dos homens.

Foi assumindo o papel de “comandante dos crentes”,
como o rei é tradicionalmente chamado, que ele apresentou e justificou
esta reforma frente ao Parlamento. Estas mesmas medidas, apresentadas
há alguns anos pelo governo sem a ajuda da legitimidade religiosa,
foram rejeitadas por uma parte da sociedade marroquina, especialmente
suas franjas mais conservadoras.

Foi também a legitimidade religiosa que apoiou a proibição do uso da
religião na atividade político-partidária durante a elaboração da lei
sobre os partidos políticos. Esta é uma medida muito progressista.

O que diferencia o Marrocos da Tunísia e do Egito e que os assemelha?

A contestação na Tunísia e no Egito é focada na rejeição aos chefes de
Estado como símbolo das frustrações. Outra diferença é um grau maior de
abertura. Mais importante ainda é a existência de instituições
intermediárias entre o cidadão e o Poder Executivo: partidos políticos,
parlamento, sindicatos, ONGs, mídia… Essas instituições, com todos os
defeitos e limitações, são um espaço de liberdade e de expressão muito
mais vivo.

Ainda assim, a dinâmica e a credibilidade de muitas dessas instituições
está em declínio nos últimos anos. Os partidos não se renovaram. Seus
líderes, idéias e programas não estão em sintonia com as necessidades
da sociedade, especialmente os jovens. As alianças políticas não seguem
uma lógica compreensível pelos eleitores. O Parlamento mal se impõe
como ferramenta de controle do Executivo por falta de recursos e de
vontade política.

A falta de liberdade de expressão também foi bastante criticada nos últimos anos.

É verdade, ela tem diminuído. A auto-censura, os interesses financeiros
e ações judiciais do governo contra alguns jornais, contribuíram para
esta redução. Os meios de comunicação públicos, especialmente a
televisão, contribuem para o declínio da credibilidade. Eles oferecem
pouco espaço para o debate político, uma cobertura seletiva muitas
vezes preconceituosa da notícia, e incentivam os marroquinos a procurar
outras fontes de informação, como internet e canais por satélites.

Mas a principal semelhança com seus vizinhos é a questão do
desenvolvimento econômico e social: a pobreza elevada, as disparidades
de renda, o desemprego dos jovens, especialmente aqueles que receberam
educação secundária e superior pouco adaptadas às necessidades da
economia, a degradação dos serviços públicos que afeta principalmente
as classes pobre e média baixa.

A gestão econômica está enfraquecida, a
corrupção desencoraja o investimento produtivo. Os pontos de semelhança
são, infelizmente, numerosos.

Divulgação


Reformas políticas no mundo árabe não podem ocorrer dissociadas de melhorias sociais, diz Hariry

Depois dos acontecimentos na Tunísia e no Egito, o senhor espera novas medidas de abertura do regime?

Junto com medidas econômicas e sociais, as reformas políticas são
essenciais. Elas podem ser resumidas em duas ideias principais:
reforçar o papel das instituições e dar mais credibilidade ao processo
de formação delas. Diversos partidos propuseram reformas
constitucionais e políticas. O problema é como fazer. A maior chance de
sucesso no contexto marroquino parece ser consenso entre os diferentes
atores. Espero que os recentes acontecimentos provoquem um entendimento
em todos os níveis sobre a necessidade de acelerar o processo.

Os principais motivos para a revolta nos países árabes são políticos ou
econômicos? Esta onda de protestos que corre o mundo árabe é diferente
dos movimentos passados?

Eu não sei se o desejo de dignidade deve ser classificado como
político, econômico ou social, mas acho que este é o principal motor da
revolta. Há um limite do cidadão em aceitar humilhações políticas,
econômicas ou sociais. Este limite foi ultrapassado na Tunísia e no
Egito.

Estas frustrações já provocaram explosões sociais e políticas no
passado. A diferença desta vez é que elas foram canalizadas e
coordenadas por uma nova geração de militantes e ativistas. Jovens,
fora dos partidos tradicionais, dominando técnicas de comunicação e de
ativismo na internet, apoiados por meios não-tradicionais, como
Facebook, ou a Al Jazeera.

Pela primeira vez, a justificativa usada pelos regimes autoritários –
“não somos democráticos, mas somos a última fortaleza contra os
islâmicos” – parece não funcionar. O senhor acha que esta estratégia do
medo já é ultrapassada?

As situações são diferentes segundo os países. No Marrocos, uma parcela
importante do movimento islâmico, o PJD (Partido Justiça e
Desenvolvimento), integra o sistema político há quase 20 anos. Hoje, já
tem prefeitos em algumas grandes cidades, e é a  segunda força política
no Parlamento desde as últimas eleições em 2007. Seus representantes
têm evoluído bastante e, para muitos atores políticos, eles se tornaram
adversários ou aliados como os outros. Não são mais infrequentaveis.

Outra parte do movimento islâmico ainda se recusa a reconhecer o
sistema político, contestando suas fundações. Sua atividade é tolerada,
mas ainda existe uma suspeita.

Veja vídeo abaixo, em árabe, que convoca à manifestação no Marrocos.

Como o senhor avalia a atitude dos países ocidentais frente à revolução na Tunísia, e no Egito?

É uma atitude oportunista. Eles perderam muita credibilidade na gestão
das duas revoltas. Sobretudo a França, no caso da Tunísia, e os Estados
Unidos, no caso do Egito. Ficou claro para a opinião pública de que os
interesses desses países prevalecem sobre as declarações de princípio
sobre democracia, liberdade e direitos humanos.

Na Tunísia, a única coisa que importava era o risco de chegada ao poder
dos islâmicos. No Egito, além desse motivo, o que prevalece é a
segurança de Israel.

As aspirações dos dois povos a uma dignidade, liberdade, democracia e respeito aos direitos humanos passaram para segundo plano.

É preciso agora questionar as políticas dos países ocidentais em
relação aos árabes. Da mesma forma, estes precisam reequilibrar suas
relações externas políticas e econômicas, com uma forte orientação em
direção aos países emergentes.

Qual é percepção das elites no Marrocos? Mais do lado da esperança ou do medo?

As elites não são homogêneas. Para muitos, há um sentimento de orgulho
em relação ao que os tunisianos e egípcios fizeram. Mas há também
preocupações. Medo de uma plena democratização que traria os islâmicos
ao governo, com um impacto sobre a sociedade marroquina, sua abertura,
a tolerância, o estatuto das mulheres. Medo também que as potências do
dinheiro desnaturem totalmente o sistema democrático.

Finalmente, o
medo natural da elite, de perder os privilégios econômicos e sociais,
caso a democratização leve a uma melhor redistribuição da renda.

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Queda dos regimes árabes pode influenciar reformas no Marrocos, diz deputado socialista

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