Segunda-feira, 15 de junho de 2026
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A separação, em uma semana, de dois protestos contra as condições do trabalho, é simbólico do racha aberto na mão-de-obra em Portugal, e na Europa em geral. De um lado, os temporários, que correspondem a 1/5 dos empregados no país, que mais perderam vagas com a crise. De outro, os permanentes, categoria que vem encolhendo. 

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Os primeiros capitanearam o protesto Geração à Rasca, do dia 12 de março. A organização teve início no Facebook em poucas semanas, com a convocação feita por três jovens licenciados e desempregados. Em pouco menos de um mês, conseguiram realizar um dos maiores protestos da história da democracia portuguesa. 

Vitor Sorano



Natacha Fernandes, de 32 anos, esteve nos dois protestos convocados

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Já o protesto de ontem (19/03) foi convocado pela CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses), uma das duas centrais sindicais do país. Decidido em assembleia em fevereiro, não contou com uma convocação pela rede social. Até a conclusão desta edição, o número de participantes não havia sido divulgado, mas aparentemente teve menor adesão.

“Escolhi este porque acho que os sindicatos têm um papel importante”, justificam o funcionário administrativo Carlos Almeida, de 28 anos,  de Braga (360 quilômetros de Lisboa), sobre ter escolhido o dia 19 para se manifestar. “É bem visível que as dificuldades são em todas as gerações” Já a funcionária pública Natacha Fernandes, de 32 anos, esteve nos dois.

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A divisão decorre tanto da precariedade como da incapacidade dos sindicatos de acompanhar a evolução do mercado de trabalho. “A prática sindical também não se atualizou a ponto de poder responder às necessidades desse segmento”, diz Elísio Estanque,  sociólogo e diretor do Núcleo de Estudos sobre Políticas Sociais, Trabalho e Desigualdades da Universidade de Coimbra. 

O surgimento de movimentos à margem da estrutura sindical tradicional sinaliza tentativas de restabelecer a capacidade de mobilização e, consequentememente, de negociação. Entretanto, a dualidade continua a existir. “Em 2007, quando começamos, havia muito antagonismo por parte dos sindicatos. Acharam que estávamos ocupando o lugar deles. Mas os sindicatos não integram os temporários”, explica João Camargo, do Precári@s Inflexíveis

Vitor Sorano



Protesto do dia 12 de março chega ao Restauradores, no centro de Lisboa

Camargo afirma, porém, que mais recentemente têm havido tentativas de aproximação. “Os sindicatos estão tendo muitos problemas com essa crise e com o trabalho temporário tendo se tornando regra e não exceção. Estão perdendo força”, diz. As ações conjuntas, todavia, limitam-se à participação de uns nos protestos convocados pelos outros.

Formação e vida adulta

Além de mais enfraquecidos, os temporários tendem a receber menor investimento de formação por parte dos empregadores.  Para Werner Eichhorst, do Instituto para Estudos do Trabalho (IZA),  da Alemanha, o fosso deve continuar a aumentar em parte dos países europeus. “Devido à evolução tecnológica e a pressão demográfica, haverá uma crescente segmentação com empregados permanentes gozando de boas ou condições de trabalho em melhoria, e uma força de trabalho mais precária à margem”, diz.

Natália Alves, do Observatório do Percurso dos Estudantes da Universidade de Lisboa, observa um adiamento da transição para a vida adulta como outra consequência da precarização. “Os jovens portugueses, como aliás os seus pares dos países do Sul da Europa, autonomizam-se da família de origem muito mais tarde. Em Portugal, a idade média de autonomização residencial situa-se nos 30 anos”, afirma. “Apesar de ser o resultado de múltiplos fatores é indissociável do aumento da precariedade e da redução dos salários que, nos últimos anos tem vindo a atingir a mão-de-obra juvenil.”

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Protestos convocados em datas diferentes revelam divisão no mercado de trabalho português

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