Terça-feira, 7 de abril de 2026
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O novo vice-procurador-geral da Colômbia, Fernando Pareja, revogou a decisão que suspendera a investigação contra o vice-presidente Francisco Santos por suposta ligação com os paramilitares e pelo papel de incentivador que teria tido sobre a célula das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) na capital, Bogotá. Pareja acredita que o resultado do inquérito, favorável a Santos, não foi sério, que a coleta de provas foi deficiente e sua avaliação, inadequada. O vice-procurador ordenou que o processo seja reaberto e que chefes paramilitares prestem depoimento.
Santos foi envolvido no escândalo da “parapolítica” (as relações entre paramilitares e políticos governistas) graças a um dos principais chefes das AUC, o ítalo-colombiano Salvatore Mancuso. Em seu depoimento voluntário de maio de 2007, no processo de desativação do grupo armado, Mancuso afirmou que Santos se reuniu em várias ocasiões com os chefes paramilitares e, em algumas vezes, apoiou a ideia de criar um núcleo dos paramilitares em Bogotá – conhecido como “bloco capital”.

Em 29 de junho de 2008, o procurador-geral Mario Iguaran ordenou a aceleração do inquérito e, em 21 de agosto, foi emitida uma resolução impeditiva a favor de Santos. Em 2 de setembro, a Comissão Colombiana de Juristas (CCJ), uma ONG com status consultivo na ONU, apelou da decisão entrando com uma ação popular.
Mancuso relata pelo menos cinco reuniões entre Santos e o já falecido chefe das AUC Carlos Castaño. Em três destas, teria sido mencionado o bloco capital. A primeira teria ocorrido entre 1996 e 1997, na localidade de Volador, em Tierra Alta, no departamento de Córdoba. Em seu relato, Mancuso afirma: “Santos elogiou o modelo que expusemos de nosso funcionamento em Córdoba e nos manifestou seu interesse, porque as Autodefesas poderiam replicar este modelo em Bogotá. (…) Graças às sugestões do doutor Santos, Carlos ordena que montemos em Bogotá o bloco capital.”
A segunda reunião teria ocorrido no mesmo local, e Santos teria voltado ao tema. Uma terceira reunião, sempre segundo Mancuso, aconteceu em Valledupar em 1997: “Foi organizada pelo comandante Jorge 40. Ficaram surpresos ao ver que eu já conhecia Pachito [apelido de Francisco Santos], e que nos saudávamos com abraços e ele me chamava de Mono [“macaco”, em espanhol] e eu a ele, de Pachito. Lá, me perguntou como estava a formação do bloco capital”.
Os outros chefes das AUC envolvidos por Mancuso confirmaram as reuniões e agora serão ouvidos pelo vice-procurador Pareja, além do próprio Francisco Santos.
Extradições são obstáculo
Os chefes paramilitares desmobilizados foram extraditados para os EUA. O presidente da CCJ, Gustavo Gallon, declarou ao Opera Mundi por telefone que isto dificulta os processos na Colômbia. Segundo ele, a decisão do vice-procurador é “muito importante,  porque a investigação foi inconclusa e emitiu-se uma liminar sem fundamento”.
A defesa de Santos reconheceu que ocorreram reuniões com os comandantes paramilitares quando ele era chefe de redação do jornal de sua família,  El Tiempo. Segundo a defesa, as reuniões se limitaram a temas jornalísticos e humanitários.
O vice-presidente divulgou nota afirmando: “Respeito a decisão do vice-procurador e manifesto minha disposição de cooperar com todas as investigações. (…) Peço uma investigação imediata e eficaz que esclareça estas afirmações de uma vez por todas e que não se permita que, com base em calúnias, mantenha-se aberto um processo para ser usado politicamente por quem tem mais interesse em desprestigiar o governo do que no direito das vítimas e do país à verdade.”
Nos Estados Unidos, os chefes paramilitares denunciam as dificuldades de colaborar com a Justiça colombiana. Em sua décima audiência a partir dos EUA, Mancuso leu uma carta de 19 páginas dirigida à Corte Suprema de Justiça da Colômbia, ao Tribunal Penal Internacional e à Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirmando não poder continuar com os depoimentos livres e denunciou ameaças a seus parentes na Colômbia. Mancuso disse ainda que sua extradição, junto com a de outros chefes paramilitares desmobilizados, ocorreu assim que ele começou a confessar “as primeiras verdades”.

Processo contra vice-presidente colombiano por suposta ligação com paramilitares será reaberto

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