Presença da seleção norte-coreana no Zimbábue reabre feridas
Presença da seleção norte-coreana no Zimbábue reabre feridas
Com a primeira Copa do Mundo na África, as nações vizinhas da África do Sul estão recebendo turistas e mudando a visão preconceituosa que parte do mundo ainda tinha em relação ao continente. O Zimbábue, estrategicamente, convidou algumas delegações estrangeiras para realizarem suas preparações para a copa dentro do país – entre elas, Brasil, Estados Unidos e Inglaterra. Foi a Coreia do Norte, porém, com sua primeira participação desde 1966, quem aceitou o convite, gerando grande polêmica entre os zimbabuanos.
A notícia da chegada da equipe – primeira adversária do Brasil no torneio, nesta terça-feira (15/6) – trouxe à tona memórias da década de 1980, quando aconteceu a chamada Operação Gukurahundi que, oficialmente, matou mais de 20 mil civis na província da Matabelelândia do Norte – o número estimado por fontes não-oficiais é de 40 mil. A operação teria sido realizada por uma brigada treinada pelo governo norte-coreano a pedido do presidente Robert Mugabe, que em 2010 completa 30 anos no poder.
“Este é um assunto muito sensível para o povo da Matebelelândia e do Zimbábue em geral. É como colocar sal numa ferida”, compara Alouis Chaumba, um dos membros da Comissão Católica por Justiça e Paz na província, que denunciou o suposto massacre e faz trabalho social com os sobreviventes.
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Chaumba conta ao Opera Mundi que a região da Matabelelândia ainda é deixada de lado quando se fala em desenvolvimento nacional. Os sobreviventes e vítimas da operação não receberam indenização oficial e esperam programas de ajuda para superar as perdas emocionais e financeiras.
Apesar de os fatos terem sido cometidos apenas por tropas do próprio Zimbábue, e não da Coreia do Norte, o assunto é tratado com delicadeza também entre os membros do governo. David Coultart, ministro da Cultura, Esporte e Turismo, afirmou à imprensa que é essencial que o governo lide com o fato de forma sensível e que não ignore o histórico norte-coreano no país para não inflamar ânimos nem reabrir feridas antigas.
“Não acredito, porém, que seja certo atacar um grupo de jovens jogadores por causa do que aconteceu 27 anos atrás neste país”, ressalta Coultart, que é também advogado especialista em direitos humanos e trabalhou com o caso na época.
O começo
Os supostos massacres da década de 1980 foram consequências diretas do conturbado processo de independência do país. Em 1964, o governo racista de Ian Smith (que imitava o apartheid sul-africano) decretou estado de emergência na Rodésia do Sul, então colônia britânica, para proclamar de maneira unilateral a independência e restringiu os direitos dos cidadãos.
Dois movimentos de libertação do povo nativo já existiam na época, o ZAPU (União do Povo Africano do Zimbábue) e o ZANU (União Nacional Africana do Zimbábue). Ambos confrontavam o governo com seus respectivos braços armados, a ZIPRA e a ZANLA. As milícias competiam por novos recrutas e por apoio no campo. Enquanto a ZIPRA concentrava o recrutamento no oeste do país, predominantemente Ndebele, a ZANLA ficava no leste, predominantemente Shona. Nenhuma das duas possuía um caráter estritamente tribal.
A falta de coesão dos movimentos dificultava a luta contra os colonos ingleses, apoiados pelo governo do apartheid sul-africano. Por isso, os líderes Joshua Nkomo (ZAPU) e Robert Mugabe (ZANU) uniram forças e criaram a Frente Patriótica (PF, em inglês). Foi uma questão de tempo até o governo Smith ser derrubado. Em 1979, um tratado de paz foi assinado e eleições foram marcadas para o ano seguinte. O Zimbábue estava formado, mas os antigos conflitos internos não estavam resolvidos.
Operação
Em 1980, Mugabe foi o vencedor das eleições e prorrogou o estado de emergência. No mesmo ano, foi assinado um acordo de cooperação com o líder norte-coreano Kim Il-sung. Entre outras ações, previa o envio de soldados da Coreia do Norte ao Zimbábue para o treinamento de uma brigada especial. O grupo seria responsável por “tratar dos dissidentes e de outros problemas no país”.
A integração da ZIPRA e da ZANLA em um único exército nacional estava difícil por falta de confiança mútua entre as facções, o que resultou em dois grandes conflitos na região sul da Matabelelândia. A cidade Bulayawo servia de alojamento para soldados alinhados à ZIPRA e a população, com receio de um ataque da ZANLA, se levantou em protestos, levando a um conflito entre as milícias. Em 1981, o evento se repetiu em maiores proporções e chegou à zona central.
A situação piorou após a descoberta de um depósito de armas de desertores do exército. Em resposta, o governo da ZANU acusou a ZAPU de apoiar dissidentes abertamente. Desaparecimentos e prisões de líderes militares se tornaram frequentes, gerando medo entre soldados, que desertaram em grande número.
Para sobreviver, dissidentes obrigavam os camponeses a lutar e eram responsáveis por ondas de violência no sul do país. Isso serviu aos propósitos do governo, permitindo a manutenção do estado de emergência e fortalecendo o discurso de que a ZAPU queria assumir o poder.
Em 1983, a 5ª Brigada, treinada por norte-coreanos, foi enviada ao norte da Matabelelândia e a pperação Gukurahundi – que significa “a chuva que limpa o campo antes da primavera” na língua shona – começou. A brigada foi ao sul com o propósito de exterminar a oposição e não diferenciava ndebeles, dissidentes e membros da ZAPU. Civis se tornaram alvo de execuções públicas, saques, estupros e outras violações a direitos humanos.
Reconciliação
O governo fazia declarações paradoxais: ora alegava desconhecer os fatos, ora declarava que onde houvesse dissidentes, “todas as vilas deveriam ser queimadas”, como disse Emmerson Mnangwana, então ministro da Segurança Nacional, em 1983. A região foi isolada pelo governo. Estradas foram bloqueadas e comida, medicamentos e outras formas de ajuda humanitária não chegavam à região, até hoje menos desenvolvida.
Os conflitos tomaram características étnicas (de shonas contra ndebeles) e só foi encerrado em dezembro de 1987, quando Nkomo assinou um acordo com Mugabe, fundindo os dois partidos e criando a ZANU-PF.
Em abril 1988, o governo prometeu anistia aos dissidentes que entregassem as armas e cumpriu a promessa meses mais tarde. Todos os envolvidos na força de segurança, inclusive os que cometeram atentados contra os direitos humanos, foram anistiados.
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