Pouco ouvidos em Copenhague, países pobres exigem "justiça climática" em Cochabamba
Pouco ouvidos em Copenhague, países pobres exigem "justiça climática" em Cochabamba
Após o fracasso da CoP-15, a conferência de cúpula sobre mudança climática promovida pela ONU em Copenhague, no final do ano passado, a Bolívia sedia uma reunião alternativa com ênfase nos países em desenvolvimento para, nas palavras do presidente boliviano, Evo Morales, corrigir uma “injustiça climática”.
“Cerca de 20% da população mundial (países desenvolvidos) são responsáveis por 76% das emissões de gases do efeito-estufa, responsáveis pelo aquecimento global. E as emissões desses países aumentaram 11% no período 1997-2007”, disse. “Longe de salvar a humanidade, o Acordo de Copenhague (documento firmado ao fim da CoP-15) irá permitir um aumento de até quatro graus na temperatura do planeta e irá comprometer ainda mais a segurança alimentar global, com queda de até 20% da produção agrícola”.
Desde ontem, presidentes e representantes de dezenas de países estão reunidos em Cochabamba, no país vizinho, para levantar a voz das nações mais pobres que, segundo os organizadores, não foi ouvida com atenção em Copenhague. Os presidentes Fernando Lugo do Paraguai, Rafael Correa do Equador e Hugo Chávez da Venezuela também devem participar. Além deles, estarão presentes cerca de 90 representantes de governos e até outros sete chefes de Estado dos cinco continentes.
A ideia de realizar uma conferência alternativa à da ONU veio após o fracasso das negociações da CoP-15, que terminou em dezembro com um acordo genérico e sem força de lei para os signatários. Segundo Morales, a conferência de Cochabamba “é uma reunião de povos que lutam pela dignidade humana e querem decidir qual o destino da Terra e, por consequência, dos seres humanos”.
Evo Morales criticou o capitalismo, criador de desigualdades, inclusive as climáticas. De acordo com ele, “os habitantes dos países desenvolvidos consomem quatro vezes mais do que a Terra pode suportar”.
Esse é outro aspecto da “injustiça” a ser discutido por um “tribunal climático” a ser realizado durante a CMPMC. O prefeito de Cochabamba, Jorge Ledesma, disse que é hora de “dizer com coragem quem são os responsáveis pelas mudanças climáticas”.
“Os países mais ricos preferem abandonar o Protocolo de Quioto e adotar Copenhague porque as metas fixadas em dezembro são mais brandas”, disse Evo Morales.
Enquanto o presidente discursava, a representante do secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, a economista Alicia Bárcena, da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), entrou no plenário e foi fortemente vaiada.
Mãe Terra
Em vários momentos, Morales destacou a relação das tribos bolivianas com o planeta, simbolizada na figura da deusa Pachamama (mãe terra). Por volta das 9h, indígenas bolivianos realizaram uma cerimônia tradicional para pedir permissão da natureza para realizar a conferência, queimando carvão e folhas.
“Isto é o que as grandes indústrias estão fazendo com o planeta: queimando-o”, disse um dos participantes do ritual.
O historiador uruguaio Eduardo Galeano, que não pôde ir por motivos de saúde, enviou uma carta saudando os participantes. “Que se faça o possível e o impossível para que a conferência seja o primeiro passo para que o povo seja ouvido em relação às mudanças climáticas”, escreveu (leia a íntegra da carta).
NULL
NULL
NULL























