Pesquisa aponta alto índice de suicídios em Cancún
Pesquisa aponta alto índice de suicídios em Cancún
Uma das facetas mais negras do
turismo em Cancún tem sido o suicídio de trabalhadores. O assunto é objeto de estudo da professora Celina
Izquierdo, do Observatorio de Violência e Gênero da Universidade de
Cancún, há alguns anos. De acordo com ela, o estado de Quintana Roo, onde fica o balneário, é o
segundo no México com maior taxa de suicídios. Em 2009, foram 126
casos, sendo 77 deles em Cancún. De 2000 a 2006, o crescimento
anual da taxa de suicídios foi de 13,2%. Mas, de acordo com a
professora, para cada morte há pelo menos 17 tentativas.
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“A maioria dos casos que estudamos é de pessoas que tinham empregos, mas
precários, sem estabilidade, com alta mobilidade, salários
muito baixos. Isso, em geral, forma um caldo de desesperança”, diz a
pesquisadora. O estudo mostra que 80% dos suicidas estavam subempregados, e 25% deles eram pedreiros.
Na Cancún longe dos olhos dos turistas, precariedade e pobreza em favelas como a de Colonia Maracuya
Há três anos, o município de Cancún criou um Conselho
Municipal de Prevenção ao Suicídio para tratar do problema, mas, segundo
Celina, pouco se avançou. “Uma iniciativa importante foi o serviço gratuito de
ajuda psicológica pelo telefone. Há uma ligação direta com psicólogos, igreja
e apoios de emergência. Mas tudo funciona no nível da boa vontade. Não
há uma política pública consistente”.
O estudo revelou ainda que, por conta da cultura de
imigração, os habitantes de Cancún são mais sozinhos. “Estudamos o
círculo social das pessoas. Em outros estados, a rede social das
pessoas costuma ser de 15 membros. Aqui em Cancún é de três, o que quer
dizer que as pessoas têm muitos poucos amigos e familiares a quem
recorrer, diz ela. “A frustração é tão grande que as pessoas não veem
outra saída além de se matar”.
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Para ela, a cultura da desigualdade favorece a
frustração. “Não é só o turismo que traz desigualdade, poderia ser uma refinaria de petróleo por exemplo. Mas há fatores urbanísticos que estimulam isso, como quarteirões luxuosos ao lado da praia ao mesmo
tempo em que há poucos espaços públicos e a população tem pouco acesso
às praias”, diz Celina.
Para ela, uma das chaves para o problema são os
altos índices de abuso de drogas e álcool, segundo ela. Por ser uma
cidade turística, Cancún oferece substâncias para variados bolsos e
gostos. Em 90% dos casos estudados as vítimas estavam sob efeito de
álcool ou entorpecentes.
Sentado na praça à espera de um trabalho para o dia, o
pedreiro Daniel Paz Gómez está tentando fugir das estatísticas. Quer
juntar dinheiro para voltar à sua cidade, na empobrecida região de
Chiapas – mas não tem um tostão. “Nunca consegui juntar nada porque
estava sempre nos bares e boates”, diz ele ao Opera Mundi, tentando
esconder o olhar vago, do mesmo modo que procura esconde os olhos dos
possíveis empregadores.
Há cerca de uma semana, Daniel não consegue
enxergar direito depois de deixar cair cola de sapateiro nos olhos durante
uma das suas “noitadas”. Depois de 12 anos morando em Cancún, a ferida
parece ser a única coisa que ele herdou da região turística.
*Texto e fotos
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