Pedido de Ingrid Betancourt reacende debate sobre compensação às vítimas do conflito na Colômbia
Pedido de Ingrid Betancourt reacende debate sobre compensação às vítimas do conflito na Colômbia
O anúncio do pedido de indenização de oito milhões de dólares feito pela ex-candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt no dia 9 de julho foi imediatamente prosseguido por críticas dentro da Colômbia. A reação negativa fez com que Ingrid retirasse a demanda apenas cinco dias depois de apresentá-la. Para analistas, o episódio pode ser positivo e acender um debate no país sobre o tema das vítimas do conflito e o custo da guerra contra as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
A demanda da ex-senadora se baseava em dois argumentos. O primeiro é que não houve proteção oficial suficiente no dia do sequestro. O segundo, que não foram feitos esforços suficientes para acelerar sua libertação.
Efe (02/07/2010)

Ingrid durante cerimônia para comemorar o segundo aniversário da Operação Xeque, em Bogotá
Durante o cativeiro, Ingrid havia alcançado os primeiros lugares nas pesquisas de popularidade. Nas semanas seguintes à libertação, sua imagem teve sempre mais aprovação que a de Juan Manuel Santos, então ministro da Defesa e hoje presidente eleito.
Muitos falavam do futuro político de Ingrid, mas a ex-candidata decidiu se afastar do país andino e desfrutar um período de descanso da vida pública depois de seis anos de cativeiro. No último dia 2 de julho, o Ministério da Defesa organizou uma cerimônia para comemorar o segundo aniversário da Operação Xeque. A maioria dos 14 libertados participou, entre eles os empreiteiros norte-americanos e Ingrid, que finalmente voltou à Colômbia.
Recebida calorosamente, ela cumprimentou mais uma vez o presidente Uribe e os militares que realizaram uma operação “perfeita”. Fontes bem informadas ligadas a Santos a consideravam a provável embaixadora colombiana em Paris, o que não surpreenderia, dada a proximidade dos dois. Santos foi seu mentor político, além de autor intelectual da Operação Xeque. Além disso, Ingrid é bastante admirada pelos franceses desde antes do sequestro. No dia 9, o anúncio do pedido de indenização. A reação foi instantânea.
Observadores políticos como María Jimena Dúzan, colunista e crítica ferrenha do atual governo, declarou, referindo-se à possibilidade de o Estado pagar a indenização: “Se isso acontecer, prometo desde já que farei até o impossível para evitar que o dinheiro de meus impostos acabe nestas mãos. Elas não merecem. A
demanda é uma grande farsa e um despropósito do início ao fim.”
Gustavo Petro, ex- candidato do Polo Democrático, comentou: “Foram as Farc
que perpetraram o sequestro, não o Estado. Se ela está livre, foi graças a uma operação militar bem-sucedida, e não a uma libertação unilateral.”
A manchete da recém-publicada revista colombiana Semana estampou “Vergonha!”, com uma foto de Ingrid feliz no momento de sua libertação, depois da bem-sucedida Operação Xeque do Exército colombiano.
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Juan Fernando Jaramillo e Nelson Camilo Sánchez, do Centro de Estudos de Direito, Justiça e Sociedade (Dejusticia), comentaram é “decepcionante que sua expectativa de reparação se concentre unicamente em uma altíssima indenização econômica. Seu nível de reconhecimento nacional e internacional lhe possibilitava propor uma visão mais ampla e universal da reparação, pondo-se a serviço de milhões de vítimas na Colômbia.”
Também para o portal La Silla Vacía, a demanda de Ingrid é uma boa oportunidade para se debater na Colômbia o tema das vítimas do conflito: “Além do gosto questionável de seu gesto de processar o Estado, este caso coloca novamente sobre a mesa a importância de uma verdadeira política de justiça de transição que faça o país encarar a guerra vivida e compense as vítimas. (…) De nada serve que a reação a este episódio seja, como no caso da sentença de Manuel Cepeda, uma segunda vitimização das vítimas. A demanda de Ingrid
deveria abrir um debate nacional sobre o custo desta guerra para o país e como pagá-lo.”
O lado de Ingrid
Em defesa de Ingrid, intercederam os outros ex-reféns civis, como Orlando Beltrán, que declarou: “Não se pode indicar agora que as vítimas de sequestro não têm o direito de reclamar. Que os tribunais pelo menos analisem o caso e determinem responsabilidades.”
Ingrid, por sua vez, ficou tão surpresa com a reação negativa e unânime na Colômbia que retirou a demanda apenas cinco dias depois de apresentá-la. Ela afirmou que estava “arrependida” e que não pretendia processar o Estado, e sim buscar uma reparação para as vítimas do terrorismo.
“Desde o momento em que me sequestraram”, acrescentou, “muito se disse sobre o que aconteceu. Não tive a oportunidade de contar como se deu o sequestro, durante todos os anos em que estive em cativeiro. Fui apontada como uma pessoa imprudente e maluca que havia praticamente buscado o sequestro. Parte da compensação moral é que se conheça a verdade. O que aconteceu comigo não pode voltar a acontecer com mais ninguém.”
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