Sábado, 4 de abril de 2026
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Nesta terceira e última parte da entrevista ao Opera Mundi, o jornalista e escritor argentino Horacio Verbitsky fala sobre os erros do governo argentino na tentativa de conter a crise com o setor rural.

Como Cristina conseguiu perder todo seu capital político em tão pouco tempo?

Por causa da briga com o campo e a mídia e também porque o casal Kirchner cometeu erros importantes. Com o crescimento da economia e a política de redistribuição da renda favorecida pelo governo, chegou um momento que o nível dos salários voltou ao nível prévio à crise de 2001. Aí, os setores mais concentrados decidiram que já bastava, e que a participação do trabalho na formação do capital não ia crescer mais. Como estão numa situação de oligopólios, começaram a gerar inflação, que era também favorecida pela forte demanda. As respostas do governo – estamos falando da gestão de Néstor – foram erradas.

Primeiro, tentou controlar a subida brusca dos preços com acordos com os maiores distribuidores, o que teve como efeito reforçar a concentração. Dentro da cadeia de produção, favoreceu os que distribuíam contra os que produziam: os moinhos contra os produtores de trigo, os frigoríficos contra os produtores de carne, os supermercados contra as lojas pequenas. Assim, durante todo o governo de Nestor, e no começo do mandato de Cristina, tinham anúncios permanentes de preços rebaixados. Mas tudo era para a vitrine: o acordo durava duas semanas e os preços voltavam a subir alegremente. Com a publicidade, gerava-se a ilusão que a inflação era controlada, mas não era a verdade.

Também fica difícil medir exatamente a inflação na Argentina, já que o governo de Kirchner manipulou os números



Exatamente. Acho que a maquiagem dos índices de inflação do Indec [Instituto Nacional de Estatísticas e Censos] foi o pecado maior dos Kirchner. É uma política selvagem, bárbara, cujo impacto foi devastador durante os anos seguintes, porque contribuiu para tirar toda a legitimidade da palavra pública. As pessoas iam para o supermercado e percebiam, de maneira muito clara, no seu bolso, que os números do Indec não tinham nada a ver com a realidade. Logo, começaram a pensar o seguinte: “Se o governo manipula alguma coisa sobre a qual eu tenho um controle, que tipo de barbaridades fará no resto, sobre o qual não tenho nenhum tipo de controle?”. Isso facilitou rumores de fraudes eleitorais, ridículas, porque Néstor Kirchner reconheceu na hora sua derrota.

Agora, estamos numa situação tal que se o governo afirmar que estamos no inverno, as pessoas rebatem: “Nãoooo! Estamos no verão!” Outro exemplo: existem muitas denúncias na Justiça que vinculam Francisco de Nervaez com o tráfico de drogas. Quando Néstor Kirchner, durante a campanha, evocou o tema, a maioria dos ouvintes achava que era uma invenção, já que não dava para acreditar ele.

Cristina Kirchner tentou mudar esta situação?



Pouco a pouco. Lançou recentemente uma política de transparência, com a criação de um Conselho Acadêmico de alto nível, uma instância de controle integrado por consumidores. Daqui para o final do ano, a situação deverá voltar à normalidade. O contexto é favorável também: com a crise econômica, a diferença entre a inflação anunciada pelo Indec e as taxas calculadas pelos institutos privados ficou bem menor.

Mas Cristina demorou muito. Durante todo o seu primeiro ano de gestão continuou com a estratégia de maquiar os números. Acho que é um dos problemas da sucessão entre marido e mulher: fica difícil dizer que a política de seu antecessor era uma besteira.

O governo pode recuperar o terreno político perdido daqui à eleição presidencial de 2011?



É possível, mas acho muito difícil. A direita já lançou toda sua máquina de confrontação, e os resultados dos últimos comícios não são muito animadores. Podemos chegar a uma situação de bloqueio recíproco. Como o governo perderá maioria nas duas Casas do Congresso a partir do dia 10 de dezembro, data de posse dos novos representantes eleitos, suas margens de manobra são pequenas. Mas a oposição tampouco tem a maioria de dois terços para contornar as decisões do Executivo. Este empate pode gerar um bloqueio institucional, que, junto à pressão midiática, pode terminar com o governo, ou pelo menos pará-lo, para que se subordine de maneira absoluta às exigências da direita. Espero que não. Seria dramático para o país. Este é o primeiro governo desde o restabelecimento da democracia que ataca os problemas centrais da Argentina.

As medidas tomadas no campo dos direitos humanos, como a revogação da anistia para os militares, tiveram um efeito neste desgaste?



Sem dúvida. A política em favor dos direitos humanos é uma das chaves do ódio que a elite tem em relação aos Kirchner. Os críticos mais duros do governo são também os que falam da importância da reconciliação e do esquecimento do que aconteceu durante a ditadura: chegou a hora que deixar o passado para trás, olhar para frente. É também o discurso da Igreja. Infelizmente, este ódio das classes dominantes infiltrou em outras camadas mais modestas da população.

Agora, basta a Cristina dizer qualquer coisa para que seus adversários denunciem o autoritarismo. Se tem uma coisa que este governo não foi, é autoritário. Claro, tem aquele tom imperativo dos Kirchner. Mas, por exemplo, não houve nenhum morto por forças federais durante mobilizações sociais. Isso nunca aconteceu antes na história do país. Inclusive, no ano passado, quando os ruralistas mandaram tropas fecharem as estradas, provocando um desabastecimento grave nas cidades, a ordem era: não disparar.

Na direita, a figura mais visível é milionário Mauricio Macri, que é também o prefeito de Buenos Aires. Será o candidato da oposição em 2011?



Pode ser. Mas a direita tem muitas outras opções. Eles podem tentar recuperar o poder usando a máquina do partido peronista. No final das contas, muitos dos dirigentes do partido são também grandes proprietários rurais. Felipe Sola, ex-governador da província de Buenos Aires, vem de uma família de proprietários de terras. O senador Carlos Reutemann, uma figura da província de Santa Fé e potencial candidato, é um grande produtor de soja. Também é o caso do senador Juan Carlos Romero e da senadora Sonia Escudero (ambos da província de Salta) ou do senador Roberto Urquía (província de Córdoba).

Esse é o problema da construção política dos Kirchner: quem permitiu que estas pessoas fossem escolhidas para representar os interesses de um governo progressista? O os peronistas e Néstor Kirchner.

O senhor considera que isso foi falta de habilidade política?



Ao contrário, Néstor Kirchner tem muita habilidade política. O que lhe falta é visão estratégica de um país tão complexo como a Argentina. Quando um presidente acha que dá para controlar a inflação fazendo acordos com as potências econômicas ou falsificando os números oficiais, é por falta de visão. Deste ponto de vista, a Cristina seria mais o contrário: ela é menos hábil do que ele, mas tem uma visão do país bem mais elaborada.

Acho que, talvez, o erro tático que fizeram foi convocar as eleições legislativas em junho, quatro meses antes da data prevista. O cálculo do governo era que a crise econômica ia se agravar, e que não daria para ganhar em outubro.

Aparentemente, aconteceu o contrário: as eleições foram celebradas, e perdidas, no pior momento da crise, enquanto as estatísticas já estão mostrando uma recuperação. Talvez teria sido melhor aguardar outubro. São os imponderáveis da política.

No começo do mandato, Néstor Kirchner parecia atraído por um movimento político “transversal”, que acabou abandonando para virar presidente do partido peronista. O senhor acha que isso foi uma das explicações dos problemas atuais?

É a tese dos pequenos partidos de esquerda, que ficaram desiludidos quando Néstor decidiu disputar a presidência do partido peronista. Mas a verdade é que não havia nenhuma força política articulada e organizada com uma agenda progressista. Existem apenas grupos esquerdistas extremistas que acham que veem sempre o lado ruim de uma política sem fazer avançar nada.

Néstor e Cristina Kirchner tomaram medidas políticas muito audaciosas sem ter uma coalizão social que sustentava esta política. Romperam com o neoliberalismo instalado na Argentina por mais de uma década, acabaram com a relação de subordinação aos Estados Unidos, apostaram numa aliança estratégica com o Brasil, aprofundaram as relações com o Mercosul, participaram na criação da Unasul. São medidas muito importantes. Agora que a reação da direita está chegando, eles não têm mais resposta.

É verdade que Kirchner se encerrou dentro do partido peronista, que não é a força política mais apropriada para mudar o país. Mas se ele tivesse insistido na sua tentativa de criar um partido transversal, talvez o partido peronista tivesse criado problemas políticos similares aos de agora, mas bem mais cedo.

Agora, parece que grupos de esquerda que abandonaram o governo no ano passado começaram a entender o perigo e estão voltando a apoiá-lo. A pergunta é se já não é tarde.

Parte 3: “Mexer no calculo da inflação foi o pecado central dos Kirchner”

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