Terça-feira, 7 de abril de 2026
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Na segunda parte da entrevista concedida ao Opera Mundi, o escritor Mia Couto explora a atuação da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) no contexto político atual e faz críticas à oposição em Moçambique que, conforme sua análise, falha ao criar alternativas.

Como o senhor avalia o desempenho da Frelimo em conciliar o papel de partido governista com o projeto político aliado à emancipação do povo moçambicano?

A Frelimo de hoje não é aquela a quem aderi como militante ainda na clandestinidade e que combatia em favor da independência e da mudança revolucionárias, que reclamava também por valores morais de um rigor quase espartano para os militantes. Hoje isso mudou. De um discurso socialista, a Frelimo de hoje é portadora de uma ideologia meio deslavada e demasiado permissiva em relação à conduta dos seus dirigentes. O que aconteceu com a Frelimo aconteceu com todas as frentes revolucionárias. Não creio que seja resultado de uma traição, não creio que se possa fazer uma leitura maniqueísta do processo de mudanças. 

Antonio Silva/EFE (28/010/2009)



Moçambicanos em Maputo esperam a hora de votar

Como o senhor definiria o perfil social e político da oposição?

Seria um desastre nacional se alguma vez Afonso Dlakhama, da Renamo, chegasse ao poder. Já Deviz Simango, jovem engenheiro que saiu em ruptura com a Renamo e que ainda é prefeito da cidade da Beira (a segunda cidade de Moçambique) fez um bom trabalho em prol da cidade. Mas é preciso dizer que a oposição é algo que está em processo de criação. E é urgente que se crie uma oposição capaz, uma oposição construtora de alternativas e que abra caminhos e ideias novas.

O que se preserva das animosidades da guerra civil, da relação crispada entre Renamo e Frelimo, na disputa partidária atual? Com isso interfere no imaginário do eleitorado?

Muito pouco. As animosidades foram absorvidas e não existe memória desse passado recente. Também aqui Moçambique se pode orgulhar de um processo de reconciliação que é quase único no mundo.

Como se dá a capilaridade do poder público no interior do país?

Eu sou um escritor, interessam-me mais os fenômenos históricos e o modo como eles criam histórias nos seres humanos. Para responder à questão: estas eleições são nacionais, sim. E elas ajudam a consolidar a nação moçambicana. Os fenômenos tribais ou regionais estão presentes ainda na nossa sociedade, mas eles não determinam as linhas de evolução dentro e fora dos partidos.

Parte 2: Oposição em Moçambique não oferece alternativas políticas

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