Parte 2: Falta de árvores põe em risco sobrevivência de tigres siberianos
Parte 2: Falta de árvores põe em risco sobrevivência de tigres siberianos
No extremo oriental da Sibéria, junto do Mar do Japão, encontra-se o único refúgio dos últimos tigres siberianos do mundo. São os maiores de sua espécie e chegam a pesar 300 quilos e medir três metros de comprimento. Nesta remota região russa, não há uma só loja que não venda cartões postais ou ímãs de geladeira mostrando o belo animal branco em plena floresta. Mas estas imagens logo poderão fazer parte do passado.
O corte ilegal e indiscriminado de árvores disparou com a ação de máfias russas e chinesas e ameaça destruir o habitat dos tigres, que hoje se reduz a apenas três distritos na região siberiana de Primorski, mas em outros tempos incluía o norte da China e a península coreana. Isso sem contar a praga dos caçadores clandestinos.
Leia a parte 1:
Desmatamento na Sibéria ameaça um dos ecossistemas mais ricos do mundo
“Não sobrou nenhuma árvore grande, os cortadores ilegais e caçadores clandestinos estão por toda parte. Por isso, os tigres e ursos às vezes vêm se refugiar aqui”, conta, indignado, Yuri Kostin, um agricultor russo de 57 anos. Ele observa há mais de uma década como os cortadores destroem a floresta ao redor de sua fazenda de 15 hectares, não muito longe da fronteira chinesa. “Ontem mesmo, saí com minha espingarda e fiz alguns disparos para assustá-los”, acrescenta, com um sorriso.

Os tigres siberianos estiveram à beira da extinção no início do século passado. Nos anos 1940, restavam cerca de 20 em liberdade. Os culpados foram o crescimento dos assentamentos humanos, o desmatamento e a caça ilegal para a venda de suas cobiçadas peles, ossos e pênis nas feiras chinesas. Desde então, sua população foi recuperada, chegando a 450 exemplares, além de outros em cativeiro. Mas a sorte, aparentemente, os abandonou.
A ONG World Wide Fund (WWF) denuncia que, com a crise econômica, os cortadores estão se concentrando nas espécies mais rentáveis, como o pinho coreano e o carvalho. Para isso, contribuiu decisivamente a iniciativa das autoridades russas de aumentar os impostos de exportação de outras madeiras menos valiosas, em fevereiro passado.
As variedades cortadas são justamente as que fornecem nozes e outros alimentos às presas dos tigres, como os javalis, além de ser fundamentais para a sobrevivência da população local. O WWF adverte que, no ritmo atual de corte, estas árvores desaparecerão dentro de 20 a 30 anos e, com elas, os poucos tigres em liberdade.
Poucos recursos para proteção
A única esperança para evitar a extinção está nos guardas florestais, mas só um punhado deles patrulha a zona onde vivem estes animais, de tamanho similar ao da Inglaterra. Um deles é Alexander Samolienko, de 57 anos. “Desde março, só me deram 600 litros de gasolina para patrulhar 7 milhões de hectares. Há alguns anos, queimaram meu carro e depois tentaram incendiar a casa de meus pais, sem sucesso. Com certeza vão tentar de novo. Mas somos russos, não temos medo”, afirma.
Ele veste uniforme de camuflagem, leva uma pistola e dirige um 4×4 doado por uma ONG estrangeira, no qual um tigre de pelúcia pendurado na janela é o único item que revela sua atividade. Fala com pressa, pois teme que as máfias e caçadores clandestinos da zona detectem sua presença.
“Até mesmo integrantes da Patrulha Tigre viraram caçadores clandestinos. Enquanto nós não tínhamos nada, eles nadavam em dinheiro, mas não eram confiáveis, expulsaram o chefe e o grupo não existe mais”, acrescenta, referindo-se a uma iniciativa lançada em 1994 para proteger os tigres, sob controle do governo, mas financiada por organismos como o WWF e a Wild Conservation Society.
O programa chegou a contratar membros das forças especiais russas. Há alguns anos, no entanto, o Ministério de Recursos Naturais retirou-lhe a autoridade para prender e processar caçadores clandestinos e as ONGs internacionais perderam o interesse pelo programa, que acabou extinto.
Nada substituiu a patrulha, e os guardas que restam contam com recursos extremamente escassos. “Quem protegerá os tigres?”, pergunta-se Samolienko. “Agora somos poucos e, do jeito que as coisas vão, não sobrará ninguém”.
Crédito da foto:
ONG russa BROC, Roman Fadeev
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