Parte 2: “Existe uma cumplicidade enorme entre o campo e os principais jornais argentinos”
Parte 2: “Existe uma cumplicidade enorme entre o campo e os principais jornais argentinos”
O jornalista e escritor argentino Horacio Verbitsky, figura da luta pelos direitos humanos, analisa o panorma do país e diz que o governo de Cristina Kirchner é o primeiro desde 1983 a se empenhar pelo povo. Neste trecho ele comenta sobre a articulação da mídia e dos proprietários rurais contra o governo.
Como se articulam os interesses do campo, dos bancos e da mídia?
Existe um nível de cumplicidade enorme, particularmente entre o campo e a mídia. Para começar, há que lembrar que os principais diários nacionais, ou seja, Clarín e La Nación, são sócios da Expo Agro. Trata-se de um evento anual, que dura três semanas, e gera mais de 300 milhões de dólares por ano. Além disso, os dirigentes dos respectivos jornais pertencem diretamente ao agronegócio. O vice-presidente do Clarin, por exemplo, é um grande proprietário de gado, inclusive criou uma nova raça capaz de fornecer uma ótima carne até em regiões consideradas hostis. É também um grande exportador de arroz. Por isso, os grandes jornais têm uma razão evidente para apoiar as reivindicações do campo contra o governo.
Como o projeto de reforma da lei de radiodifusão de Cristina Kirchner foi acolhido pela mídia?
Muito mal pela grande mídia, muito bem pelos veículos independentes e alternativos. É um projeto de democratização do espectro midiático, hoje muito concentrado. Por exemplo, o grupo Clarín é dono de um diário que tem seu nome, mas também de vários jornais no interior, de dezenas de rádios, de canais na televisão aberta e a cabo, agência de notícias, e também produz grande parte dos conteúdos distribuídos por outros canais. É um poder enorme.
O outro objetivo do governo é acabar, pela primeira vez, com as violações à lei atual, que sempre ficaram impunes. Por exemplo, o canal América 24 é controlado por Francisco de Narváez, milionário que derrotou Kirchner nas últimas eleições. Mas, segundo a lei, nenhum político tem o direito de controlar um órgão midiático. Esse tipo de irregularidade é comum: entre o uso de laranjas e engenharia financeira, muitos políticos são donos de canais de televisão ou de rádios.
Este projeto é contrário aos interesses do Clarín?
Ainda mais se o governo não aceita as exigências do Clarín, que nesse caso específico seria poder entrar no mercado das telefônicas, o que permitiria à empresa uma diversificação para o chamado “triple play”: mídia, internet e telecomunicações. Mas, até agora, o governo se recusa a dar este presente para o Clarín. Então, o grupo usou de sua estratégia habitual, que sempre deu certo. No começo de um governo, as maneiras são cordiais. Depois chegam as exigências segundo os interesses financeiros do grupo. O governo resiste, porque esta medida viola a lei, porque tem outros amigos que prefere favorecer. Logo, o Clarín lança uma guerrilha, publicando artigos com uma visão muito crítica, totalmente unilateral. Em geral, o governo capitula.
Qual foi a política dos governos de Néstor Kirchner e Cristina em relação a esses poderes midiáticos?
Foi ambivalente, sobretudo na gestão de Néstor Kirchner – Cristina, neste ponto, é muito mais racional. Ele os enfrentou de uma maneira muito torpe, e logo deu alguns presentes para eles que foram erros graves. Por exemplo, concedeu uma extensão de dez anos à concessão do canal do Clarín, quando a data de vencimento ainda estava muito longe. Também o fez com outros pequenos canais, que tinham problemas financeiros graves. Com a certeza de ficarem no ar, tiveram mais facilidades para encontrar outros credores e renegociar as dívidas. A ideia dos Kirchner era favorecer uma burguesia nacional frente aos grandes atores concentrados. Fracassou.
Basta ver o caso do América 24, que foi ajudado na época. Desde já, a televisão faz campanha contra o governo. Outro detalhe: o dono do canal, Francisco de Narváez, é também sócio da sociedade rural.
Quando Cristina decidiu anunciar o aumento das retenções contra as exportações de grãos, ela havia entendido claramente a força de seus adversários?
Acho que não. Acho que a decisão foi uma mistura de ingenuidade deste ponto de vista, mas também de necessidades fiscais. Era também visto como uma maneira de conter os preços dos alimentos que, na época, disparavam, já que alguns exportadores podiam desistir de vender para o exterior por preferir o mercado interno. Há de se lembrar que esta medida era boa e legítima. A ideia era aumentar de maneira substancial os impostos quando o preço mundial estivesse muito alto, e diminuir quando caísse. Muitos economistas recomendam esta medida para evitar a chamada “doença holandesa”, que provoca a perda de competitividade de outros produtos de exportação.
Aliás, se os ruralistas não tivessem ganhado esta briga o ano passado, eles teriam benefícios bem mais altos hoje, já que os preços caíram. Mas não é uma coisa racional. Eu me lembro muito bem de um programa de televisão que participava em 2002, no qual o convidado era o então presidente da sociedade rural. Naquela época, o tema das retenções já era muito discutido. De repente, o apresentador do programa lhe pergunta sobre as possibilidades das retenções chegarem a 25%. O presidente da sociedade rural começou a rir, como se fosse uma piada e concluiu: “Neste caso, acabamos com todos eles”. Acho que a Cristina não assistiu a este programa.
O outro erro grave do governo foi não buscar alianças dentro do setor agropecuário, pelo menos entre os menores. Não dava para enfrentar todos. O resultado é que, com o apoio da mídia, o campo construiu uma imagem idílica, como se eles fossem a única força viva da nação, que dá de comer às crianças e empregos aos trabalhadores. Evidentemente, é um mito. Mas funciona.
Como é hoje a relação de forças entre o governo e os ruralistas?
Após a vitória do ano passado, eles tentam agora montar um projeto de poder inspirado, dizem eles, no modelo brasileiro da bancada ruralista. Ou seja, já que não dispõem de uma formação política própria, ajudam a eleger vários deputados, senadores e governadores de partidos diversos, que trabalham por seus interesses. Isso nunca existiu na Argentina moderna, e tem que se dizer que o modelo parece funcionar muito bem no Brasil.
Por outro lado, a sociedade rural conseguiu uma hegemonia muito forte sobre a totalidade do setor. Claro que sempre teve uma capacidade de lobby importante, mas antes de 2008 não tinha nenhuma aptidão para as mobilizações nas ruas. Agora, eles ordenam bloqueios das estradas, organizam o desabastecimento das cidades, ameaçam fisicamente os deputados da base governista quando voltam às suas províncias… Tudo isso vem da Federação Agrária, outro grande ator do setor que nunca havia se aliado de tal maneira à sociedade rural. Inclusive, o presidente da Federação, Eduardo Bussi, está elaborando todo um discurso populista novo. Aparece com os ombros cobertos pela bandeira argentina e incorpora elementos de discurso dos progressistas, mas tudo a serviço dos ruralistas mais ricos. É muito perverso. Agora, a grande preocupação dele, que foi manifestada na inauguração da sociedade rural, é a pobreza na Argentina. E toda a culpa é dos Kirchner.
Os ruralistas não são os únicos, há também a Igreja. Há duas semanas os jornais relataram que o papa denunciou durante um discurso o “escândalo da pobreza na Argentina”. A situação social se degradou muito?
Claro que existem muitos pobres na Argentina. Mas, primeiro, nem a Igreja nem a sociedade rural nunca se preocuparam com eles. Segundo, depois de cinco anos de crescimento econômico chinês, que melhorou consideravelmente o nível de vida, a crise econômica provocou uma nova queda, mas bem menos grave do que aquela que a Argentina conheceu no passado, ou a que afetou outros países da região.
Esta história do papa é uma grande manipulação. Por sinal, Jorge Casarote, o bispo que dirige a comissão pastoral social, que está encarregada das relações com os sindicatos, as empresas e todos os fatores econômicos, tem como principal colaborador laico uma figura importantíssima do agronegócio: Eduardo Serantes, que é também presidente da Cáritas Argentina. Falam de pobreza, mas fazem negócios. É uma trama muito difícil de romper.
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