Sábado, 4 de abril de 2026
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Com o sucesso popular de Superbarrio, em 1988, Marco Rascón chegou a ser candidato à eleição presidencial, mas decidiu retirar a candidatura para apoiar Cuauhtémoc Cárdenas, o representante da esquerda. O impacto foi decisivo na campanha: Cuauhtémoc atraiu 48% dos votos na Cidade do México, contra 23% para Carlos Salinas.

Mas o Partido Revolucionário Institucional (PRI) fraudou o resultado, levando seu candidato à presidência. “O papel de Superbarrio foi fundamental dentro das classes populares. Pela primeira vez, tiveram a sensação que alguém estava lutando pelos seus direitos. Isso contribuiu para mobilizar pessoas que ficavam normalmente fora do circuito político”, analisa o sociólogo Hector Berthier, da Universidade Nacional Autônoma de México (Unam).

Reconhecendo o papel das Assembleias de Bairros, núcleos formados por vítimas do terremoto de 1985, Cuauhtémoc convida militantes para se juntar a ele na luta política. Assim, em 1989, nasce o PRD (Partido da Revolução Democrática), legenda na qual Marco Rascón foi um dos membros fundadores. No entanto, retrospectivamente, o hoje chef de cozinha considera que este foi um erro.

Leia a primeira parte:

“Superherói” da esquerda mexicana trocou a militância política pela culinária

“Não soubemos fazer a diferença, naquela época, entre a construção do movimento social e a do partido. Rapidamente, a Assembleia de Bairros passou a ser um anexo do partido. Todos os líderes políticos viraram funcionários, e começaram a atuar em nome da famosa governabilidade”, explica.

Contra este desvio de rota, Superbarrio não podia fazer nada. Com a agenda lotada, virou estrela internacional, convidado no mundo inteiro para reuniões dos partidos de esquerda. Em 1990, pouco tempo depois da derrota de Luiz Inácio Lula da Silva na primeira tentativa de chegar à presidência do Brasil, o sindicalista vai ao México e o super-herói vai encontrá-lo (abaixo).

Arquivo pessoal



 

A fantasia vermelha e amarela não bastava. Então, Marco Rascón encabeça outras provocações. Em 1996, como deputado federal, chega ao plenário com uma cabeça de porco para denunciar as fraudes eleitorais do PRI. Neste mesmo ano, decide ser candidato a presidente dos Estados Unidos, contra Bill Clinton. Usa o palco para denunciar os efeitos nocivos do acordo de livre-comércio entre Canadá, México e Estados Unidos, o Nafta.





Rompimento




Os homens de Carlos Salinas – presidente do México entre 1988 e 1994 – rompem com o PRI para integrar o PRD. É o caso de Andrés Manuel Lopez Obrador, candidato derrotado do PRD em 2006, e de Marcelo Ebrard, atual prefeito da Cidade do México e possível candidato em 2012. “Todos profundamente anticomunistas. Imagine: agora são eles que se apresentam como representantes da esquerda”, lamenta Marco.

O homem de máscara nunca gostou de Obrador. “Não é uma pessoa de esquerda. Para ele, não importavam ideias ou programas, era o poder a qualquer preço. Ele até contratou pessoas como José Guadarrama, responsável pelo assassinato de muitos PRDistas em Michoacan. Agora é senador do PRD”. Para o militante, bastava, em 2006, ler o “Programa de 50 pontos” do candidato para perceber que não ia dar certo: “Não há, nem uma única vez, o termo América Latina. Hoje, o sul desapareceu totalmente do discurso da esquerda”, lastima, lembrando que a 15ª edição do Foro de São Paulo, que reuniu partidos de esquerda da América Latina na Cidade de México, em agosto, passou totalmente despercebida.

A destruição progressiva do movimento popular das assembleias provocou o desaparecimento do Superbarrio. “Assim como ele surgiu como uma luz, sumiu sem explicação. Não queria um herói decadente que permanece em nome da política governamental”, prossegue, sério.

Em 2000, Marco se retira do partido e se lança na produção da cantora Eugenia Leon, com quem estava casado na época. Esta atividade o leva a Lisboa, para apresentação de um disco. Na viagem, fica fascinado pelo jeito como os portugueses preparavam e comiam o pescado. Na volta, abre o restaurante Peces, “o único negócio do México que não tem participação de Carlos Slim”, diz ele em referência ao bilionário mexicano.

No restaurante, Marco Rascón descobriu que Marx estava errado. “Ele disse que a acumulação do capital vem da exploração do trabalho assalariado… Falso! A acumulação é o resultado da exploração da família: pois só quando chamei as minhas irmãs para trabalhar aqui foi que o negócio começou a andar”, assegura, rindo. Entretanto, os negócios não o afastaram da política. Rascón tem uma coluna semanal no jornal mexicano La Jornada, na qual critica o rumo da esquerda (alguns textos estão reproduzidos no site de Marco Rascón).

A história parece lhe dar razão. Desde a derrota de Obrador, o PRD entrou em uma crise profunda entre várias facções, todas querendo tomar o poder. Analistas antecipam o fim do partido antes mesmo das eleições de 2012.

Para Rascón, o PRD perdeu uma chance única, junto com o PAN, do presidente Calderón, de enterrar definitivamente do PRI, que tinha chegado em terceiro na votação de 2006. Não o fizeram. Em julho passado, o PRI acabou sendo o grande ganhador das eleições legislativas, pronto para regressar ao poder. “As pessoas de esquerda não tem mais interlocutor, e o povo, perdido com a crise econômica, esta nostálgico da época do PRI. O governo era autoritário, mas havia mais emprego, comida e segurança”, observa, preocupado.

Enquanto o PRI parece caminhar para uma volta à presidência, em 2012, muitos são os que esperam desesperadamente a volta de Superbarrio.

Assista ao vídeo sobre a volta de Superbarrio em desenho animado (em espanhol, com legenda em inglês).

Leia a primeira parte:

“Superherói” da esquerda mexicana trocou a militância política pela culinária

Parte 2: Esquerda perdeu a chance de enterrar o PRI, diz ex-militante mexicano Marco Rascón

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