Sábado, 11 de abril de 2026
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No comitê de campanha de Eduardo Frei, candidato da Concertação, coligação de centro-esquerda que desde a volta da democracia governa o Chile, é melhor evitar determinadas perguntas para não provocar a ira dos militantes.

“Não quero mais ouvir falar do Marco Enríquez-Ominami!”, queixa-se Paula Narvaez, porta-voz da campanha. “O que me interessa é a batalha contra a direita. Ele não tem nenhuma possibilidade de passar para o segundo turno!”, assegura, resmungando contra a “traição” do deputado, que pertencia, como ela, ao PS (Partido Socialista).

A irritação de Paula Narvaez é compartilhada por muitos outros dirigentes, que não aceitam os ataques de Enríquez-Ominami contra Frei. “Ele faz o jogo da direita”, resume a porta-voz, lembrando que as propostas de seu candidato são “bem mais progressistas”.

Paula não quer conversar sobre eventuais negociações após o primeiro turno com a equipe do ex-socialista. Para ela, o também ex-socialista Jorge Arrate, em quarto lugar nas pesquisas, é bem mais digno. “Ele quer evitar que Piñera ganhe e para isso irá nos ajudar”, declara, em referência ao candidato conservador Sebastian Piñera, que lidera as intenções de voto.

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Para muitos políticos da coligação, Enríquez-Ominami, ou “MEO”, como é chamado, não tem o direito de se apresentar como uma cara nova que nunca se beneficiou do sistema político. “Todo mundo sabe que Marco não se elegeu graças à competência: é o resultado de muitos almoços com dirigentes do partido, que trabalham com o pai dele”, afirma o analista político Santiago Escobar. O jovem socialista entrou na política em 2005, quando se elegeu deputado.


Capital político

O comando do candidato independente apresenta estado de espírito igual ao da Concertação. “Claro que não vamos negociar uma aliança antes do segundo turno. Isso é a velha política, a política da Guerra Fria, os eleitores são livres!”, disse Enríquez-Ominami ao Opera Mundi.

Ao seu lado, o deputado Esteban Valenzuela expressa uma postura menos radical. “Se ele não for para o segundo turno, vamos conversar com a Concertação. Mas terá de ser uma conversa franca e aberta, que leve a uma nova aliança”, conclui o deputado.

“O problema é que ambos os campos se atacaram mutuamente, vai ser muito difícil organizar uma reconciliação entre os comandos”, sublinha o advogado e analista político Federico Joannon.

As discrepâncias políticas não são a única razão. A situação pessoal de vários candidatos ao Senado e à Câmara que abandonaram a Concertação é também um tema importante. O sistema binominal faz com que, uma vez fora do bloco de centro-esquerda, eles tenham poucas chances de se eleger.

Esse é o caso de Carlos Ominami, pai adotivo de MEO, que está a ponto de perder o cargo de senador. “Na melhor das hipóteses, eles vão conseguir eleger um deputado, não mais que isso”, diz Santiago Escobar.

Aqueles próximos à presidente Michelle Bachelet confirmam sua preocupação. “É imperativo trabalhar para a reconciliação entre os dois campos, senão, a direita ganha, sem dúvida”, explica um deles, pedindo anonimato. A principal esperança é a reconstrução de “pontes naturais” entre os dois lados após a eleição.

Mas todos concordam em uma análise: se for para o segundo turno, Frei terá de fazer uma proposta de mudança radical, incluindo a promessa de uma reforma política. Sem isso, MEO não irá desperdiçar o capital político acumulado durante um ano, aceitando um compromisso ruim no último momento. 

Para os governistas chilenos, Ominami é um traidor que faz o jogo da direita

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