Para especialistas, Japão enfrenta desafio de reconstruir país sem agravar desequilíbrio fiscal
Para especialistas, Japão enfrenta desafio de reconstruir país sem agravar desequilíbrio fiscal
Marcada pelo baixo crescimento na última década, a economia do Japão enfrenta o desafio de levantar recursos para se recuperar do desastre do terremoto e do tsunami que destruiu parte da Região Nordeste do país. O principal dilema apontado por especialistas consiste em reconstruir o país sem agravar o desequilíbrio fiscal, expresso na dívida pública de 200% do PIB (Produto Interno Bruto), ou seja, no fato de que o governo japonês deve o dobro de tudo o que o país produz em um ano.
Segundo relatório divulgado nesta segunda-feira (14/03) pelo banco Credit Suisse, as perdas econômicas no Japão somarão de 14 trilhões a 15 trilhões de ienes, o equivalente a algo entre 171 bilhões de dólares a 183 bilhões de dólares . De acordo com a instituição, esse valor tornaria a catástrofe o desastre natural mais caro de todos os tempos.
Para o economista da Tendências Consultoria, Raphael Martello, as estimativas de danos ainda são imprecisas já que outros tremores podem atingir o país. “Outros tremores ainda podem acontecer, sem contar a ameaça de desastre nuclear”, afirma. Dessa forma, o valor final dos prejuízos levará meses para ser conhecido e poderá ficar maior que o inicialmente projetado.
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Em tese, os trabalhos de reconstrução estimulam a economia, à medida que o governo e o setor privado ampliam os investimentos, principalmente em infraestrutura. O professor de economia André Nassif, da Universidade Federal Fluminense, acredita, no entanto, que o efeito da reconstrução sobre o crescimento econômico é apenas temporário.
“A estagnação da economia japonesa tem mais a ver com fatores estruturais do que com questões de curto prazo. A grande pergunta é se os esforços de reconstrução provocarão a retomada do crescimento sustentável do Japão, compatível com a média dos países ricos, que é de 3% a 4% ao ano”, observa.
Em 1995, quando um terremoto destruiu a cidade de Kobe, no Sul do Japão, o PIB do país cresceu 2,48%, contra 0,85% no ano anterior. No fim da década de 1990, no entanto, o Japão retomou a trajetória de estagnação e teve crescimento zero. Nos anos 2000, o país passou a crescer em torno de 1% ao ano, mas sempre em níveis inferiores aos dos países desenvolvidos.
Para obter recursos para a reconstrução, o governo japonês precisará emitir títulos, o que elevará a dívida pública do país. Apesar da situação fiscal delicada, Martello acredita que o Japão terá dificuldade em vender os papéis. “Nos últimos tempos, o tamanho da dívida pública tinha acendido a luz amarela no mercado, mas a situação agora é diferente. O governo japonês precisa de dinheiro não porque é leniente, mas para fazer frente a uma situação fora de controle”, explica.
O Japão também pode queimar parte das reservas internacionais para levantar recursos. A medida pode agravar a desvalorização do dólar (reduzindo o câmbio) ao ampliar a quantidade de moeda norte-americana em circulação. Os dois economistas, no entanto, não acreditam que essa medida terá impacto significativo sobre a cotação do dólar. “Esse processo deverá ser feito de forma coordenada para não afetar os mercados”, avalia Martello. “O que vai deter o derretimento do dólar é a recuperação dos Estados Unidos”, diz Nassif.
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