Sábado, 25 de abril de 2026
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A América Latina passa por redefinições políticas e ideológicas e a análise desses fenômenos é cada vez mais necessária, na opinião do professor doutor Dennis Oliveira, integrante do CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação), ligado à USP e um dos idealizadores do “III Simpósio de Comunicação e Cultura da América Latina”, realizado entre os dias 28 e 31 de março, em São Paulo.

Nessa entrevista ao Opera Mundi, Oliveira avaliou positivamente a aproximação dos países latino-americanos e a troca de experiências, que colabora para a construção de um ambiente mais humano, porém atestou: “Vivemos um momento de disputa.  Atualmente há uma hegemonia em alguns países de se pensar dessa forma (em prol da integração). Contudo, há projetos contrários”, citando como exemplos Colômbia e México. O professor apontou também a transformação da postura brasileira frente aos países da região, motivada pelo atual governo e que vem afastando a idéia de “gigante isolado” do Brasil.


Qual a avaliação que o senhor faz do atual processo de transformação política da América Latina?

O professor Emir Sader foi muito lúcido ao dizer que a América do Sul é um continente que vem vivendo experiências muito interessantes de construção de alternativas ao neoliberalismo, que passam por experiências de resgate da construção do espaço público. Qual é a ideia de trabalhar isso? Que existe uma proposta neoliberal de privatização não só do estado, mas de toda a sociedade civil. Nessa ótica neoliberal, como já disse o professor Otavianni (USP), nós transformamos a sociedade em mercado e o cidadão em consumidor, essa é a utopia liberal. 

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Contrariamente a essa perspectiva, na América La tina, nós estamos observando variados processos políticos, com suas diferenças evidentes, mas todos eles caminham na ideia de resgate do conceito de dimensão do que é público. Isso acontece, por exemplo, na Bolívia, Brasil, Venezuela e Equador.

O povo brasileiro se entende como latino-americano? Muitas vezes se ouve expressões como “América Latina e o Brasil”, como se fosse algo separado.  A que se deve esse distanciamento ou falta de diálogo social e cultural?

Essa barreira é histórica, em função das diferenças de colonização, do fato de o Brasil ter sido um dos últimos países a construir um projeto nacional – de certo modo ainda luta para isso. A diferença de idioma que, particularmente, não acho tão importante, é apontada por muitos como algo que contribui para esse distanciamento.

Considero que esse quadro se deve, principalmente, a posturas da elite brasileira, que sempre teve uma preocupação de aderir aos projetos políticos da Europa ou dos Estados Unidos. Entendo que, atualmente, essa resistência tem sido quebrada, a partir da própria política externa do governo atual, de ênfase maior nas relações com os países da América Latina. Graças a iniciativas do Itamaraty, tivemos a construção da Unasul e da própria comunidade dos países da América Latina. Então há um esforço do governo brasileiro em protagonizar a construção dessa unidade. Por conta disso, por essas iniciativas, acredito que estamos diminuindo essa tradição do Brasil não se sentir latino-americano.

Nesse histórico que o senhor traçou a elite brasileira e as dos outros países sempre tiveram seus interesses políticos, econômicos e culturais voltados para a liderança econômica mundial da época. Com os governos atuais, isso têm se alterado e parece haver um olhar mais regional. Você acredita que esse momento faz parte de um processo contínuo?

Nós temos diversos tipos de integração possíveis. Um deles é a integração mercadológica. Por exemplo, nos anos 1990, algumas pessoas pensavam na integração da América Latina via Mercosul, e das Américas, via Alca, mas a única perspectiva que se tinha era a do mercado. Essa aproximação meramente econômica atendia muito mais às expectativas das multinacionais, aqui instaladas, no sentido de que poderiam otimizar os seus investimentos na América Latina, podendo, entre outra ações, subdividir plantas industrias e, a partir disso, transferir materiais sem as barreiras tarifárias. Quando a Volkswagen e a Ford criaram a AutoLatina, eles colocaram a Volks no Brasil e a Ford na Argentina, então trocavam as produções aproveitando a ausência dos impostos alfandegários. Esse tipo de integração interessa mais ao grande capital. 

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A ideia que nos discutimos é a de uma integração dos povos. Não queremos somente integrar as economias, mas levar em consideração as demandas dos movimentos sociais, dos direitos humanos. São esses os pontos que queremos trabalhar e felizmente eles vêm ganhando maior relevância nas relações entre os Estados da América Latina.

Mas é difícil prever se esse projeto mais humanístico vai ou não continuar. Espero que não, mas pode haver um retrocesso político nos próximos anos e a interrupção do pr ojeto de integração. Vivemos um momento de disputa.  Atualmente há uma hegemonia, em alguns países, de se pensar dessa forma. Contudo, há projetos contrários, como o México e a Colômbia, que estão mais alinhados aos EUA. O governo colombiano, por exemplo, tem demonstrado uma postura claramente pró estadunidense, como foi o caso das instalações das bases militares.

Não há um processo resolvido, essa é uma questão ainda em aberto. A tendência atual é de uma aproximação mais abrangente, mas convivemos com as ações de  governos mais à direita, que privilegiam a questão econômica.

Um dos principais componentes da cultura é a educação. É possível traçar um paralelo entre a educação brasileira com a dos outros países da América Latina?

Primeiramente precisamos conhecer um aos outros. Alguns países da América Latina têm experiências muito interessantes na área, como a Nicarágua, que, após a revol ução sandinista, erradicou o analfabetismo nas regiões rurais utilizando o método Paulo Freire – um educador brasileiro. Cuba, Venezuela e Bolívia têm práticas interessantes. Outros conseguiram zerar o analfabetismo muito antes do Brasil. O Uruguai, no final do século 19, foi o primeiro país das Américas que garantiu o ensino fundamental para todos. Temos as várias experiências diferentes, o que importa é conhecê-las, como se articularam.

Existe, por parte da América Latina, um interesse e até admiração pela produção cultural brasileira. Uma frase de Eduardo Galeano no livro Pelas mãos de Alice é muito bonita: “O Brasil encanta o mundo com sua música”. O Brasil é reconhecido, de fato, por essa produção vasta e diversa. Muitas vezes eles nos conhecem mais. É muito mais fácil você se reconhecer com a produção da América Latina do que com a europeia. O olhar para Europa que as elites possuem é de submissão, subalterno , ao contrário de um olhar igual.

O Brasil realizou no ano passado a Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), na Argentina foi aprovada a Lei dos Meios, a Venezuela e Bolívia possuem legislações bastante avançadas de regulamentação dos meios de comunicação. A que se deve esse ambiente de preocupação com a mídia e ao que você atribui as diferenças nas ações destes governos?

Colocamos a mídia como um debate central desse simpósio porque entendemos que ela é um dos espaços mais complicados, um dos maiores focos de resistência à construção de uma esfera pública. Por que isso? A mídia, não obstante, desempenha um importante papel de função pública, ela construiu a opinião pública, ela é referência para os debates e tem uma ação social de grande envergadura, porém é organizada de acordo com a lógica privada. O que acaba acontecendo? A mídia é o espaço privilegiado onde essa lógica pública é sub metida à lógica privada, a lógica da audiência, do mercado etc. 

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Sendo assim, esse é o espaço onde se encontra maior resistência. Logo, não há outra opção se não a ideia da regulamentação, que não é censura. Na verdade, regulamentar é recolocar a mídia no espaço onde ela deve estar, que é o da esfera pública. Quando se fala sobre pensar políticas públicas de comunicação, democratização da informação, democratizar o mercado, não significa censura, mas pluralizar as vozes. Não faz sentido você pensar em construir um regime democrático onde cinco ou seis famílias dominam o cenário midiático. Isso é um absurdo, antidemocrático e autoritário, é negar a voz da maioria.

Venezuela e Bolívia conseguiram avançar muito mais. No Brasil essa dificuldade é maior, o processo aqui é mais complexo, nós temos grandes indústrias de grande peso no cenário internacional e o estado brasileiro não reuniu forças objetivas o sufic iente para realizar esse enfrentamento, embora a Confecom tenha sido um passo importante.

Pouco se vê na cobertura da grande imprensa a diversidade cultural e a vida cotidiana dos povos da América Latina e, quando as notícias surgem, em geral, acabam servindo para reforçar alguns estereótipos em relação a personalidades como Chávez e Evo. Como furar esse “bloqueio”?

Uma coisa que tenho estudado muito ultimamente é algo que se chama “novos protagonistas midiáticos”. Você tem essa mídia institucionalizada, que são os jornais, canais de televisão e emissoras de rádio, mas, além disso, há uma produção de informação que utiliza as tecnologias digitais e redes sociais. Hoje há uma grande quantidade de sites, blogs e outros instrumentos alternativos que vão construindo um canal alternativo de disseminação de informação. Então, se de fato você tem um bloqueio da mídia hegemônica sobre a América Latina, é possà ¬vel encontrar informação nessas outras vias. Eu penso que a saída é a construção de alternativas. Vejo pouca, para não ser pessimista e dizer nenhuma, possibilidade de você convencer a mídia majoritária a mudar essa postura, porque, na verdade, é uma questão ideológica e de sobrevivência econômica dela. Ela é estruturada dentro da lógica de mercado e para atender aos interesses das elites hegemônicas, que não têm interesse em conhecer e se relacionar com os nossos vizinhos. É a partir disso que se cria as notícias caricatas a respeito do Chávez, por exemplo.

As críticas grosseiras e contumazes podem ser percebidas como um desespero. A ANJ (Associação Nacional dos Jornais) divulgou dados demonstrando que entre 2000 e 2009 houve uma queda de 10% nas tiragens dos jornais. Eles estão perdendo força, impacto e poder de venda. Ela percebe que vem perdendo a sua força de formar a opinião pública e isso acontece devido a dois fatores: perda de credibilidade e  crescimento das mídias alternativas. A tendência é a de ficar até mais raivosa em função dessa perda de poder.

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