Segunda-feira, 6 de abril de 2026
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Uma notícia publicada pelo diário panamenho La Prensa na semana passada surpreendeu tanto a população como a oposição política ao governo do presidente Ricardo Martinelli, que acaba de completar cem dias no cargo. No mesmo dia em que Martinelli se reuniu com a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, o ministro de Governo e Justiça, José Raúl Mulino, disse ao jornal que um acordo bilateral seria assinado até 30 de outubro para a instalação de duas bases navais na costa pacífica para o combate ao narcotráfico.

“Uma das bases será localizada em Bahía Piña, a 450 quilômetros a leste da capital, e a outra em Punta de Coca, a 350 quilômetros a oeste da capital”, teria afirmado.

A declaração causou revolta na oposição, que acusou o governo de estar retrocedendo à antiga presença militar norte-americana. Somente em 2000 as 14 bases americanas que existiam no país foram totalmente deslocadas. “Temos uma luta de mais de cem anos contra a presença militar estrangeira”, disse ao Opera Mundi Nils Castro, secretário de Assuntos Internacionais do partido de oposição PRD (Partido Revolucionário Democrático).

Oficialmente, os dois países entraram em acordo para intensificar a luta contra o narcotráfico e estabelecer controles rigorosos para evitar a entrada ilegal de drogas no Panamá. Tal ajuda inclui “apoio em operações de inteligência, patrulhagem marítima e através de radares que combatam esses dois problemas sociais”, segundo informe da presidência panamenha. O comunicado não dá mais detalhes.

Pouco tempo depois, porém, o presidente panamenho negou veementemente as informações do ministro de Justiça, dizendo que ele fora “mal interpretado”.

O vice-presidente e chanceler Juan Carlos Varela também foi veemente. Disse que a supervisão marítima será encabeçada por uma “força-tarefa 100% panamenha”.

Oposição

“Essas declarações não são de todo convincentes, porque o país não conta com frotas navais suficientes para manter duas bases militares no Pacífico”, afirmou Silvestre Dias, da direção nacional da Fre-nadeso, uma frente que reúne movimentos sociais. O Panamá não possui exército próprio e a segurança nas fronteiras é garantida por postos da polícia nacional.

Segundo Nils Castro, os únicos países com capacidade para dar apoio a tais bases seriam os Estados Unidos e Colômbia. “E uma possível participação militar colombiana, mesmo que só de apoio marítimo, seria um escândalo, porque a população tem grandes preocupações com a  influência colombiana”.

Somados à base naval na Bahia de Málaga, na Colômbia, seriam três postos norte-americanos na costa pacífica – além das outras seis bases militares que serão instaladas em território colombiano segundo o polêmico acordo militar com os Estados Unidos.

“Não queremos que usem o mesmo discurso que [Álvaro] Uribe usou na Colômbia, que as bases serão colombianas e apenas haverá participação de elementos do exercito americano”, diz Silvestre Dias. “Queremos mais claridade e transparência do governo porque até agora os termos do acordo com os Estados Unidos estão muito vagos. Estamos solicitando informações claras sobre cada um dos itens discutidos na reunião”.

Castro acredita que as declarações de Mulino foram uma “sondagem” por parte do governo para saber a reação que a notícia causaria. “Esse governo mantém uma popularidade alta, mas mesmo assim ficou claro que a maioria da população rechaça essa pretensão”.

Segundo ele, a suspeita permanece no ar, mesmo após a notícia ter sido desmentida. “Eu acredito que tenha havido uma negociação secreta e depois da notícia o governo se colocou em posição mais conservadora”, diz. “As intenções não mudaram, mas eles estão dando um tempo. No momento estamos em uma situação em que o jogador mais importante está escondendo suas cartas”.

Procurado pelo Opera Mundi, o governo panamenho não se manifestou até o fechamento da matéria.

Oposição denuncia possível instalação de bases dos EUA no Panamá

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