Quinta-feira, 21 de maio de 2026
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No meio da multidão que se aglomerava na Praça Tahrir para pedir a renúncia do então presidente Hosni Mubarak em fevereiro, era possível notar que, enquanto muitos manifestantes carregavam bandeiras ou cartazes com protestos, outros preferiam protestar através de charges. Entre os desenhos mais populares usados pelos egípcios para manifestar sua insatisfação com o regime, estavam diversos trabalhos do cartunista carioca Carlos Latuff.



De origem libanesa, Latuff, de 42 anos, é um autêntico ativista político, que se diferencia em seu meio por dedicar boa parte de sua obra em defesa de diversas causas, tanto no Brasil quanto no exterior – com destaque para os movimentos zapatista e de libertação da Palestina, local o qual afirma manter uma relação especial após visita realizada em 1999.

Carlos Latuff/divulgação

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Desde então, o conflito árabe tornou-se tema recorrente em seu trabalho. Após o Egito,continua a acompanhar os protestos nos demais países da região. Seu trabalho pode ser encontrado no http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff.



Polêmico, já teve de prestar depoimentos em delegacias por fazer desenhos alusivos à violência e corrupção policiais no Rio de Janeiro e também foi muitas vezes acusado de antissemitismo.

Seus trabalhos estão espalhados por
todo o mundo e, durante as revoltas no mundo árabe, foram divulgadas em
diversas mídias da região. Em entrevista ao Opera Mundi, Latuff contou
como seus desenhos chegaram às mãos dos manifestantes e qual deve ser o
papel do processo artístico voltado ao ativismo.




Carlos Latuff/divulgação



Uma das charges de Latuff publicada em jornais árabes (acima à esquerda)

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Como seus trabalhos foram parar na mãos dos manifestantes no Cairo?

Dois dias antes das manifestações que derrubaram Hosni Mubarak, fui contatado via Twitter por ativistas egípcios, que já conheciam meu trabalho artístico em favor dos palestinos e que desejavam que eu desenhasse sobre o levante que se organizava. A princípio fiz cinco charges.

Ao ver fotos de agências de notícias internacionais e internautas, mostrando manifestantes nas ruas empunhando cartazes com as charges, não parei mais de desenhar até a queda de Mubarak.

CarlosLatuff/divulgação

Qual o alcance e a influência do “ativismo artístico” em um processo de mudança social e política de uma determinada região? Como você acha que seu trabalho e os de outros cartunistas podem contribuir para uma causa como essa?

A charge consegue expressar, com poucas ou nenhuma palavra, um sentimento. No caso dos manifestantes, uma revolta, que estava atravessada na garganta do povo. A charge condensa todo um discurso, toda uma situação, como se diz em inglês, “in a nutshell”.

Quando a charge é impressa por manifestantes e exibida nas ruas, ela assume o mesmo papel de um coquetel molotov, de uma bandeira ou faixa. Ela se torna um instrumento. Ciente desse papel da charge, os artistas deveriam se colocar a serviço das causas sociais, oferecendo seu traço aos que o utilizarão como uma ferramenta.

Carlos Latuff/divulgação

Como esses protestos podem influenciar na questão palestina?

Torço pra que estes levantes possam também se estender à Autoridade Palestina. A administração Abbas mostrou-se particularmente corrupta ao negociar com Israel territórios palestinos para a construção de assentamentos judeus, como revelam os “Palestine Papers” recentemente divulgados pelo Guardian e a Al Jazeera.

Essas manifestações contribuem para mudar o estigma e o preconceito que gira em torno da população árabe e muçulmana, muitas vezes vista como defensoras de causas consideradas extremistas?

Parafraseando Edward Said, o que sabemos do Oriente foi inventado pelo Ocidente.
Termos como “fundamentalismo” e “extremismo” são utilizados largamente por veículos de imprensa ocidentais de maneira leviana e muitas vezes, ignorante.

Tais expressões nunca são utilizadas quando Israel, por exemplo, despeja bombas em áreas densamente povoadas de Gaza e do Líbano. Portanto, o que o Ocidente pensa a respeito da luta dos povos no Oriente Médio é irrelevante. A mídia ladra e a caravana passa.



Carlos Latuff/divulgação






Você considera que a internet é hoje em dia uma ferramenta fundamental para o ativismo político?

Sem dúvida. Nunca fez tanto sentido a máxima “Hoje eu desafio o mundo sem sair da minha casa”, do Rappa.

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Como essa revolução tem inspirado seu trabalho?

A possibilidade de fazer parte, mesmo que à distância, destes movimentos históricos, através da arte que, uma hora está na minha mesa, na outra já corre o mundo, é algo que nunca imaginei na vida. É certamente inspirador.

Carlos Latuff/divulgação

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Obra do cartunista brasileiro Carlos Latuff repercute nos protestos no mundo árabe

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