Obama concede entrevista a blogueira cubana
Obama concede entrevista a blogueira cubana
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, concedeu uma entrevista à blogueira cubana Yoani Sánchez. É um fato inédito. A autora do blog Generación Y, que critica abertamente o governo da ilha.
A blogueira havia enviado um questionário com sete perguntas ao líder americano e ao presidente cubano, Raúl Castro, sobre a relação entre os dois países. Obama foi o primeiro a responder.
“Depois de meses de tentativas consegui fazer com que um questionário chegasse ao presidente americano com alguns desses temas que não me deixam dormir”, disse Yoani ao jornal espanhol El País. A entrevista foi publicada em espanhol e inglês. Aqui vão as respostas de Barack Obama
Presidente Barack Obama: Agradeço esta oportunidade de compartilhar impressões com você e seus leitores de Cuba e do mundo, e aproveito para parabenizá-la pelo prêmio María Moore Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, recebido por promover o diálogo mútuo nas Américas através de suas reportagens. Fiquei decepcionado de você ter sido impedida de viajar para receber o prêmio em pessoa.
O seu blog oferece ao mundo uma janela das realidades da vida cotidiana em Cuba. É revelador que a internet ofereceu a você e a outros corajosos blogueiros cubanos um meio tão livre de expressão, e aprovo esses esforços coletivos para permitir que seus compatriotas se expressem através da tecnologia. O governo e o povo americano se unem a todos vocês antes mesmo do dia em que todos os cubanos possam se expressar livre e publicamente, sem medo ou represálias.
Yoani Sánchez: Durante muito tempo, Cuba esteve presente tanto na política exterior dos Estados Unidos como entre as preocupações domésticas, especialmente pela existência de uma grande comunidade cubano-americana. No seu ponto de vista, em qual categoria assuntos de Cuba devem ser abordados?
Obama: Todos os assuntos da política exterior têm componentes internos, especialmente aqueles de países vizinhos como Cuba, de onde procedem muitos imigrantes nos Estados Unidos e com o qual temos uma longa história de vínculos. Nosso compromisso de proteger e apoiar a livre expressão, os direitos humanos e um estado de direito democrático, tanto em nosso país como no mundo, também supera as demarcações entre o que é política interna e externa. Além disso, muitos dos desafios que compartilhamos, como a imigração, o narcotráfico e a administração da economia, são assuntos tanto internos quanto externos. Ao fim, as relações entre Cuba e os Estados Unidos devem ser analisadas em um contexto interno e externo.
Yoani: Se o seu governo colocasse um ponto final nessa disputa, ele reconheceria o governo de Raúl Castro como o único interlocutor em eventuais negociações?
Obama: Como disse antes, o meu governo está pronto para estabelecer laços com o governo cubano em uma série de áreas de interesse mútuo, como fizemos nas conversas sobre imigração e nas remessas de dinheiro. Também me proponho a facilitar o maior contato entre o povo cubano, especialmente entre famílias que estão separadas. Queremos estabelecer vínculos também com cubanos que estão fora do âmbito governamental, como fazemos em todo o mundo. Está claro que a palavra do governo não é a única que conta em Cuba. Aproveitamos todas as oportunidades para interagir com toda a sociedade cubana e olhamos para um futuro no qual o governo reflita as vontades do povo cubano.
Yoani: O governo dos Estados Unidos renunciou ao uso de força militar como forma de pôr fim ao conflito?
Obama: Os EUA não têm intenção alguma de utilizar força militar em Cuba. O que os EUA apóiam em Cuba é um maior respeito aos direitos humanos e às liberdades política e econômica. Os EUA se unem às esperanças de que o governo cubano responda às aspirações de seu povo de desfrutar da democracia e do poder determinar o futuro de Cuba livremente. Somente os cubanos são capazes de promover uma mudança positiva em Cuba, e esperamos que logo possam exercer as capacidades de maneira plena.
Yoani: Raúl Castro disse, publicamente, estar disposto a dialogar sobre todos os temas com o respeito mútuo como única condição e a igualdade de condições. Estas exigências lhe parecem desmedidas? Quais seriam as condições previas que seu governo imporia para iniciar um diálogo?
Obama: Por anos eu disse que era hora de aplicar uma diplomacia direta e sem condições, seja com inimigos ou inimigos. Contudo, falar por falar não me interessa. No caso de Cuba, o uso da diplomacia deveria resultar em maiores oportunidades para promover nossos interesses e as liberdades do povo cubano. Já iniciamos um diálogo, partindo desses interesses comuns – imigração que seja segura, ordenada e legal, e a restauração do serviço direto dos correios. São pequenos passos, mas parte importante de um processo para colocar as relações entre os Estados Unidos e Cuba a uma nova e mais positiva direção.
Yoani: Que participação poderiam ter o cubanos no exílio, os grupos de oposição interna e a emergente sociedade civil cubana nesse hipotético diálogo?
Obama: Ao considerar qualquer decisão sobre política pública, é imprescindível escutar quantas vozes diferentes for possível. Isso é precisamente o que viemos fazendo com relação à Cuba.
O governo dos EUA conversa regularmente com grupos e indivíduos dentro e fora de Cuba, que acompanham com interesse o curso de nossas relações. Muitos não estão de acordo com o governo cubano, muitos não estão de acordo com o governo americano e muitos outros não estão de acordo entre si. O que devemos todos estar de acordo é que temos que ouvir as inquietações e interesses dos cubanos que vivem na ilha. Por isso é que tudo o que vocês estão fazendo para projetar suas vozes é tão importante – não somente para promover a liberdade de expressão, como também para que as pessoas de fora de Cuba possam entender melhor a vida, as vicissitudes e as aspirações dos cubanos que estão na ilha.
Yoani: O senhor é um homem que aposta no desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e informação. Contudo, nós, cubanos, continuamos com muitas limitações para acessar a Internet. Quanta responsabilidade tem nisso o bloqueio americano em relação a Cuba e quanta tem o governo cubano?
Obama: O meu governo deu passos importantes para promover a corrente livre de informação proveniente de e dirigida ao povo cubano, particularmente por novas tecnologias. Possibilitamos a expansão dos laços das telecomunicações para acelerar o intercâmbio entre o povo de Cuba e do mundo exterior. Tudo isso aumentará a quantidade de meios através dos quais os cubanos da ilha poderão comunicar-se entre si e com pessoas de fora de Cuba, valendo-se, por exemplo, de maiores oportunidades em transmissões de satélite e de fibra ótica.
Isso não acontecerá de um dia para o outro, nem tampouco poderá ter plenos resultados sem ações positivas do governo cubano. Entendo que o governo cubano anunciou planos para oferecer maior acesso à internet nos postos de correio. Acompanho estes acontecimentos com interesse e exorto o governo a permitir acesso à informação e à internet sem restrições. Além disso, são bem-vindas sugestões sobre áreas nas quais podemos mais tarde ajudar no livre fluxo de informação dentro, de e para Cuba.
Yoani: Estaria disposto a visitar o nosso país?
Obama: Nunca descartaria uma ação que tenha como objetivo avançar nos interesses dos Estados Unidos ou promover as liberdades do povo cubano. Ao mesmo tempo, as ferramentas diplomáticas devem ser usadas somente após cuidadosa preparação e como parte de uma estratégia calma. Eu adoraria visitar uma Cuba, onde todas as pessoas possam desfrutar dos mesmos direitos e oportunidades de que goza o resto do povo do continente
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